Cinco Perguntas Simples: Pedro Alexandre Sanches

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Não acabou, e acredito que não acabará, mas isso é opinião de dinossauro – se compro disco de vinil até hoje, como posso acreditar que acabará o CD, ou qualquer outro suporte físico? Agora, tirando a visão de dinossauro, não dá mais para tapar o sol com a peneira: não acabou e pode ser que não acabe, mas nunca foi tão minúsculo, tão encolhido, tão pouco importante. E ainda tem espaço de sobra para encolher mais ainda…

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
Incógnita total, né? É claro que tudo indica que vai ser virtual, do modo como for, mas quem pagará a conta? Se tudo ficar grátis, quem vai financiar a produção da música que depois a gente irá consumir gratuitamente? É uma equação que não fecha, eu não tenho a menor idéia de qual será o balanceamento de extinções e criações que vai fundar a música do futuro. Me vem à cabeça umas idéias que o João Marcello Bôscoli divulga, que, se não me engano, têm alguma coisa a ver com o David Bowie: a música distribuída feito água de torneira, luz elétrica, gás encanado – está no ar, você paga um consumo mensal (mas para quem?), essas coisas… Enfim, estou elucubrando. A minha resposta mesmo é a primeira: incógnita total.

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
Puxa são várias, inúmeras. Não consigo eleger uma só, mas se puder tirar da cartola só umas poucas que me ocorrem de imediato, eu citaria algumas. A desmonetarização geral de tudo que conhecíamos como “indústria”. A ruína progressiva das maracutaias que “construíam” o sucesso “musical” em gravadoras, rádios, TVs, imprensa etc. A gratuidade que a internet está concedendo a música, imagem, texto etc. A perda progressiva, ainda que vagarosa e temerosa, dos indivíduos em expressarem o que pensam sobre o mundo, inclusive na hora de produzir arte e cultura. A liberdade de criação que vem crescendo maravilhosamente em função desses itens anteriores todos.

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
Ai, Matias, você sabe que eu sou dinossauro, né? Amo os progressos tecnológicos e cibernéticos quase na mesma medida que resisto a eles… Não conheci o Cansei de Ser Sexy pela internet, até hoje ainda não ouvi o Bonde do Rolê, continuo com preguiça de assistir no computador o show de volta dos Mutantes em Londres. Eu vibro com todas essas coisas, mas seria mentiroso se dissesse que descobri algum artista genial pelos meus próprios méritos exploratórios combinados com as ferramentas que ganhamos nesse incrível início de século XXI… Mas eu ainda chego lá!

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
Ops, esta é a minha pergunta favorita! Realizou muitos, inúmeros, gigantescos. Ver a música funcionando a pleno vapor mesmo quando o jabá e o caixa 2 e as mamatas e as tramóias da indústria fonográfica vão se desmilinguindo é um sonho realizado. Perceber como a música está cada vez mais inteligente e liberta de convenções paralisadoras e limitadoras (à parte a avalanche de sósias de Los Hermanos que não páram mais de surgir) é um sonho realizado. Ver linhas diretas de diálogo sendo abertas, via internet, entre artistas, produtores, críticos e “eles”, os consumidores, os “cidadãos civis”, que até há pouco eram mera platéia passiva (e abobalhada, na opinião dos “formadores”), é um grande sonho se realizando pouco a pouco. Testemunhar uma nova leva de pujança e força de músicas criadas nas periferiasq (hip hop, funk carioca, tecnobrega etc.) é um sonho que eu nem sabia que tinha, mas que vai se realizando à medida que eu o descubro. Falo tudo isso a respeito da música, que é o que eu mais gosto de acompanhar como jornalista, mas acho que já começa a valer também para o jornalismo, que é a minha “real” área de atuação. E paro para não ficar comprido demais, porque teria mais uma montanha de sonhos realizados para citar, antes de começar a falar da montanha dos ainda não realizados, hahaha.

Pedro Alexandre Sanches escreve na Carta Capital e é autor dos livros Tropicalismo – Decadência Bonita do Samba e Como Dois e Dois São Cinco.

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