Pop

Outro dia de rei

Porque você sabe que janeiro é o mês dos fodões – e se estivesse vivo, Elvis faria 73 anos hoje. Foda-se que talvez apoiasse o McCain e a Guerra no Iraque, o cara inventou o mundo como o conhecemos.

1995

Era assim que a gente se informava online naquela época. Fui lembrando dessa história da Blender e me veio o Addicted to Noise, o único saite sobre música que era o Pitchfork de seu tempo – só que com bom gosto. O arquivo inteiro do site tá aqui e dá pra gastar horas lendo as entrevistas e matérias da época.

Falando em Beastie Boys e nesse tourzinho virtual pela esquina da esquina do Paul’s Boutique, lembrei da primeira encarnação da Blender, antes de assumir que o R&B é o novo pop, quando a revista queria ser moderna e eletrônica. A web como conhecemos já havia surgido e aos poucos as pessoas começavam a encarar o computador como uma forma de entretenimento e o futuro parecia promissor (como, percebemos, realmente era). Como em 1995 a imprensa online ainda era muito incipiente, a Blender surgiu junto com uma novidade que chacoalhou – mas não muito – o mercado editorial mundial: a revista em CD-ROM. Em vez de uma edição em papel, a revista era um disco que, ao ser colocado no computador, abria uma espécie de hotsite com o conteúdo em texto e material multimídia. Lembro dessa edição que eu coloquei a capa aí em cima que trazia uma turnê virtual pelo estúdio dos Beastie Boys. E, procurando na web pra ver se eu achava algo sobre essa história, encontrei esse saite com o arquivo multimídia da revista e nem lembrava dessa capa inacreditável, se liga:

Acho que eu tenho essas duas edições aqui em casa. Parece tosco, mas era uma época boa, tenho de dizer.

E por falar nessa esquina…

…você sabe onde ela fica?

Aqui, ó:

O endereço certinho é 99 Rivington Street, na esquina com a Ludlow, no Lower East Side de Nova York. Clica no Google Maps e escolhe a opção Street View que dá até pra ver mais detalhes da esquina. Graças à capa do disco dos Beasties, o local chama-se Paul’s Boutique, mas ao contrário do que diz o nome, não vende roupas – mas é um café desses bem normais, que, sem ter muito o que falar, orgulha-se de fazer o melhor croque monsieur de Nova York (tipo dizer que faz o melhor misto quente… daí tu tira).

Falando disso, desenterrei esse texto aí embaixo, que escrevi quando o disco fez dez anos.

***

O mundo esperava por aquele disco. Depois de tomar o mundo de assalto com canções grudentas e atitudes inesperadas, aqueles moleques pararam de excursionar e se enfurnaram no estúdio. Era o momento da verdade: pra muitos, eles não passavam de uma armação, de um golpe de marketing; pra outros, haviam esgotado sua criatividade. Até que no mês de julho do verão do amor eles desvendaram o disco que dividiria o mundo em duas partes – antes e depois de…

Não, não estamos falando de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, apesar do parágrafo acima se encaixar perfeitamente na situação dos Beatles antes do lançamento de seu disco mais emblemático. Os moleques desta história não são quatro e sim três: Michael Diamond, Adam Horovitz e Adam Yauch, três nova-iorquinos conhecidos pelo mundo como Mike D, Ad-Rock e MCA. Os Beastie Boys têm mais em comum com os Beatles do a vizinhança na ordem alfabética.

Como os Beatles, os Beasties eram brancos invadindo um terreno negro e se apropriando deles sem impor sua brancura. Não foram apenas os primeiros rappers brancos: foram os primeiros a serem reconhecidos e festejados pela comunidade negra. Apesar de começarem como uma banda de hardcore, abraçaram o rap de brincadeira – em Cookie Puss – e descobriram, quase por acaso, o vasto campo inexplorado que era o gênero que, na época, não tinha nem dez anos de existência.

Como os Beatles, assustaram o mundo com seu comportamento iconoclasta e humor peculiar. Mas enquanto os quatro de Liverpool vinham com cabelos compridos demais para época, desconcertando jornalistas com respostas nonsense, o trio de Nova York agrediam os brancos ortodoxos ao entrarem no gênero do submundo como opção artística, chocando jornalistas com respostas malcriadas, cheias de palavrões e sexismo. Enquanto os Beatles deixavam pais de cabelos em pé ao pedirem para suas filhas segurarem suas mãos, os Beasties pediam para outras filhas segurarem outra coisa.

Misturando rap com heavy metal, eles transformaram o rap em algo realmente grande. Apesar do Run DMC ter investido na mesma fórmula em 85 e 86 (com o disco King of Rock e depois com “Walk This Way”, ao lado do Aerosmith), o som dos Beastie Boys era inteiramente calcado na fusão acima e ganhou público graças a dois pontos básicos: eram brancos e eram do contra. Logo, o que para eles era apenas o diário de suas adolescências se tornara o guia das festas colegiais pelo planeta. Seu hino era sua razão de existir: Você tem que lutar pelo direito de se divertir (“You Gotta Fight for your Right to Party”).

Licensed to Ill, lançado em novembro de 1986, foi um dos discos de estréia mais vendidos de todos os tempos e continua sendo, convertendo novas gerações ao niilismo boca-suja do início da carreira do trio. Com o sucesso do disco, produzido por um dos donos da gravadora Def Jam, Rick Rubin (que muitos achavam ser a mente por trás do sucesso do grupo), o trio entrou numa imensa turnê, que só terminaria dois anos depois. No meio do caminho, um palco decorado com um pênis gigante inflável e garotas enjauladas, vários hotéis destruídos, processos e protestos, uma briga feia com os tablóides ingleses, palavrões, festas e orgias, cerveja, drogas, provocação, barulho e muita confusão. Era o espírito de excesso do rock numa banda de rap.

Mas chegou uma hora em que toda farra cansou. O contrato com a gravadora deles não os interessava e a Capitol pagou a multa para tê-los em seu elenco. Perseguidos pela mídia – atrás de declarações bombásticas -, pela direito – atrás de seus pescoços – e pelo público – atrás de mais ultraje e festa -, pediram água e tempo pra descansar. Saíram de Nova York e foram pra Los Angeles, só pra curtir. Sem compromissos ou cobranças, aproveitaram o sol californiano para renovar as baterias. Enquanto relaxavam, pensavam como poderiam voltar a fazer barulho sem as encrencas que haviam se metido. Até que Matt Dike, produtor do rapper angeleno Tone Loc, lhes entregou a chave – dentro de uma fita.

Na fita, dois DJs locais, John King e Mike Simpson, desfilavam canções compostas apenas de pedaços de músicas alheias. Como os Beastie Boys, John e Mike – os Dust Brothers – eram branquelos com dois pés no suíngue negro e tinham uma reputação que ascendia à medida que tocavam em festas de faculdade. E com apenas duas músicas, que mais tarde se tornariam “Hey Ladies” e “Car Thief”, eles acederam a lâmpada sobre a cabeça dos três MCs. Qual foi a surpresa ao ver seus três ídolos entrando em seu estúdio: “Gostamos disso, podemos cantar por cima?”, perguntaram aos dois. King e Simpson se olharam, reconheceram o sorriso preso no olhar um do outro e viraram ao mesmo tempo para os três com um “claro!” dentro de uma risada. Eram fãs dos Beastie Boys e trabalhar com eles era como trabalhar com, bem, os Beatles.

Ali começava Paul’s Boutique. Ao perceberem a afinidade com os Dust Brothers, o disco ia saindo quase naturalmente: os Beasties cantavam e sugeriam paisagens sonoras aos DJs que sugeriam imagens aos Beasties. Um processo de colaboração mútua nos estúdios mais caros de Los Angeles, supervisionado pelo futuro George Martin do trio, o brasileiro Mario Caldato Jr., entre partidas de pingue-pongue, fliperama e sinuca – tudo por conta da gravadora. Ao mesmo tempo em que tentavam se livrar da imagem de sexistas retrógrados que haviam passado erroneamente pra todo seu público, levantavam os pilares de seu império cool que regeria parte dos anos 90.

De todos os discos que se pretenderam a alcançar o título de “novo Sgt. Pepper’s”, Paul’s Boutique é quem chega mais perto do disco clássico dos Beatles. As referências cuspidas pelos Beasties e pelos Dust Brothers são um leque de contracultura tão amplo quanto o do disco de 1967, só que com mais minúcia e informação, como pediam os novos tempos. E o fato de ambos haverem sido lançados nos verões do amor de suas gerações – os Beatles lançaram na nascente do movimento hippie, os Beasties na aurora das raves – não é uma mera coincidência.

Ambos discos são festas memoráveis, cheias de gente conhecida. Como os Beatles na capa de Pepper, os Beastie cantavam e sampleavam celebridades de diversas fontes diferentes, criando um novo cânone a ser seguido. Mas ao contrário de Pepper, Paul’s Boutique não começa com uma festa, nem com a banda fingindo ser uma outra banda (no caso dos Beatles, a Banda do Clube dos Corações Solitários do Sargento Pimenta). Começa manso, com apenas o teclado de “Loran Dance”, do funkeiro Idris Muhammad, sob uma homenagem a todas as garotas do mundo – do Brooklin, da França, orientais, brasileiras, suíças, italianas, jamaicanas, dançarinas de topless e aeromoças voando por todo o planeta. Cool e suave, “All the Girls”, precede a típica apresentação rapper que é “Shake Your Rump”. Todo o hard rock foi limado do primeiro plano e o que ouvimos é o velho funk sendo retrabalhado com as músicas do comecinho do rap, enquanto o grupo marca sua volta em grande estilo, disparando referências das mais diferentes: Afrika Bambaataa, passos de discoteca, a família Dó-Re-Mi, bairros de Nova York, Bob Marley, talk shows, Funky 4 + 1, Led Zeppelin, Sugarhill Gang e Fred Flintstone. “Eu sou Mike D e voltei dos mortos”, canta o MC desmistificando um boato que explicaria a demora para o segundo disco ser lançado, “fiz outro disco porque queriam mais disso”. Ad-Rock emenda explicando a vida conturbada do sucesso, “correndo da lei, da imprensa e dos pais”.

O vento que abre “One of These Days” do Pink Floyd, a percussão de “Momma Miss America” (tocada por Paul McCartney) e a guitarra de David Bromberg (em “Sharon”) constróem a base para “Johnny Ryall”, a história de um mendigo que acha que foi um astro do rockabilly, que “bebe onde está deitado, coberto de moscas” e que “diz que escreveu Blue Suede Shoes”. Citando “Helter Skelter”, dos Beatles; “Night Train”, de James Brown; e “Maggie’s Farm”, de Bob Dylan, “Johnny Ryall” desacelera o ritmo das canções e mostra que os Beastie Boys estão em outra fase.

O primeiro grande momento do disco, “Eggman”, nasce da introdução de “Superfly”, de Curtis Mayfield, e, usando uma série de referências a ovos (“quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”, “Humpty Dumpty era um grande ovo/ Estava brincando no muro e quebrou sua perna”, “O ovo, símbolo da vida”, “Quando eu falo em dúzia você sabe do que eu estou falando”) contam a história de um de seus passatempos favoritos durante as gravações: jogar ovos nas pessoas. A base, um funk pesado e firme construído sobre músicas dos outros, pode ser entendido como um dos primeiros big beats a serem gravados, influência declarada dos Chemical Brothers e de Fatboy Slim. Ao final, um achado: casando os temas do filme Tubarão e Psicose, os Dust Brothers criam um desfecho memorável para a faixa.

“High-Plains Drifter” tirou seu título de um velho Western com Clint Eastwood e sua letra a la Easy Rider (que conta a história de um sujeito atravessando os Estados Unidos de carro, sendo preso e solto logo depois) contrasta com o clima lento e soturno da base, que mistura “These Shoes”, dos Eagles, com “Put Your Love (In My Tender Care)”, da Fatback Band. O rap lento tem o clima oposto ao rap hippie do De La Soul e não é difícil descobrir que os pais do trip hop – Massive Attack e Portishead, principalmente – beberam desta fonte.

“Sounds of Science” pela primeira vez na história, trata o rap como uma ciência. “Aí vamos nós derramando ciência por todo lado (…)/ Expandindo os horizontes e os parâmetros/ Expandindo as rimas de MCs amadores idiotas”. Citando Galileu, Benjamin Franklin, Isaac Newton, Einstein, eles cantam sobre “um grau de MC que não se aprende na faculdade”. A primeira parte, quase uma canção infantil, é apimentada com os blips de “Walk from Regio’s”, da trilha sonora de Shaft, de Isaac Hayes. A segunda, rouba a bateria de Ringo Starr da faixa-título de Pepper e a base de “The End”, dos Beatles, para acelerar o andamento: “Tenho ciência pra qualquer ocasião/ Postulando teoremas e formulando equações”.

“3-Minute Rule”, outro pré-trip hop, não tem uma história, foi improvisada no estúdio, deixando os três à vontade para falar sobre o que quiserem sobre a base de “Take the Money and Run”, da Steve Miller Band. Mike D começa gabando-se sobre sua desenvoltura com mulheres – “nunca durmo só porque o Jimmy é como um imã” – e de sua precisão – “A gramática não é perfeita, mas o timing sempre é”. MCA – na época obcecado por armas – não perde tempo: “estou com o cano no seu pescoço/ O que você vai fazer?” e começa a falar sobre suas viagens de moto e afins: “Fumo maconha (que eles chamam de “cheeba”) sim, ajuda meu cérebro/ Posso ser meio maluco mas não sou insano”. E explica-se pros pais – “Muitos pais pensam em mim como um vilão/ Estou só curtindo, como Bob Dylan”. Ad-Rock une os dois falando de motos, garotas e de comportamento errático: “Se sua vida precisa de correção não siga o meu rumo”. Interessante o tipo de abordagem que eles dão às mulheres: não são mais apenas objetos, são pessoas pra quem eles pedem desculpas e desdenham. Os garotos estão crescendo e a maturidade que se tornaria sua marca registrada no futuro dá as caras.

“Hey Ladies”, mais um big beat, mistura funks dos Commodores, Cameo, Kool & the Gang e P-Funk All-Stars numa celebração dos anos 70, e, apesar do tema principal ser mulheres, prefere falar das artimanhas da conquista do ponto de vista deles, num outro grande momento do disco. Em seguida a vinheta hillbilly “5-Piece Meal” (o banjo e a rabeca de “Shuckin’ the Corn”, de Eric Weissberg, acompanhados de gritos de caubóis e índios) antecede a pesadaça “Looking Down the Barrel of a Gun”, um rap construído sobre uma guitarra truculenta que pode ser considerado pai do chamado new metal – de Deftones a Korn -, tanto que quase foi regravado pelo Sepultura em Roots. É a faixa mais violenta do disco, citando Laranja Mecânica, Rambo, Duro de Matar, o serial killer Son of Sam e calibres 22.

A dobradinha “Car Thief”/”What Comes Around” se aproxima do final do disco em outro ancestral do Massive Attack. “Car Thief” enfileira as drogas usadas pelo trio: biscoitos de haxixe, cigarros com cocaína, ecstasy e maconha (“eu não compro, eu planto”) sobre uma base que mescla “Rien Ne Va Plus”, da Funk Factory, e “I Bet You”, do Funkadelic. A virada da batera de “Moby Dick”, do Led Zeppelin, encaixa “Car Thief” em “What Comes Around”. Num clima “aqui se faz, aqui se paga”, eles falam de garotas, skinheads, “colher o que plantar” e respeito, afinal “o teto de um homem é o chão do outro”.

“Shadrach” é a última faixa propriamente dita. Alicerçada em “Booty Loose”, do Sly & Family Stone, ela volta a celebrar os próprios autores, ao citar os personagens bíblicos Shadrach, Mesach e Abednego, que foram salvos do fogo pela própria fé – “Três MCs e estamos indo”. Parente direta de “Shake Your Rump”, “Shadrach” encerraria Paul’s Boutique em grande estilo, se eles não insistissem em colocar todos os melhores momentos.

Daí surge “B-boy Bouillabaisse”, logo depois de “Ask for Janice” (uma espécie de comercial de rádio para a Paul’s Boutique, uma loja que não existe), que reúne, como o lado B de Abbey Road dos Beatles, várias canções curtas – raps crus em sua maioria – numa grande caldeirada, como insinua o nome. Ela começa com a sacana, “59 Chrystie St.”, passa pela caseira “Get on the Mic” (com bateria vocal e samples do pré-rapper Lovebug Starsk), entra no funk lento de “Stop that Train”, chega ao auge no excelente tour-de-force de MCA (gravado no microfone de um capacete de piloto de guerra) em “A Year and a Day”, reduz à velocidade na pré-gangsta “Hello Brooklyn”, recupera o fôlego em “Dropping Names” e segue intacta na cavalar “Lay it On Me” e na direta “Mike on the Mic”, encerrando suas atividades na despedida que é “A.W.O.L.”, que termina sem firulas dando boa noite a Amsterdam. Não precisa ser nenhum expert pra entender porquê. No finzinho, o teclado de “All the Girls” volta pra encerrar como o disco começa.

Um épico rapper, ele mostra que o grupo estava cheio de idéias e não queria desperdiçar nenhuma delas – e falam disso o disco todo: “Minha mente está borbulhando como um poço de petróleo”, “tenho mais histórias que J.D. Salinger”, “as palavras fluem como se estivesse no Grand Canyon”, “tenho mais ações que (a companhia de advocacia) Jacob & Meyers”, “tenho mais rimas que as mangas na Jamaica”. Paul’s Boutique é repleto de informações diferentes e, mais importante, amadurece a banda à força. Talvez por isso o público não entendeu e o disco não vendeu o tanto quanto se esperava. O que foi ótimo: sem a cobrança da gravadora, eles montaram seus próprios estúdio, gravadora, revista e grife de roupas, juntando nomes tão diferentes quanto Atari Teenage Riot, Sean Lennon, Luscious Jackson e DJ Hurricane embaixo de seu teto, criando seu próprio pequeno império. E se formos prestar atenção (trip hop, big beat, ecstasy, revival dos anos 70, samples em profusão, citações fora de contexto, ecletismo, gêneros diferentes colidindo e dando origem a outros novos, o rap como cimento musical e muito mais coisas – basta caçar), vemos que o clichê “à frente de seu tempo” se encaixa como uma luva no disco. Paul’s Boutique pode não ter sido reconhecido há dez anos, quando foi lançado, mas hoje é claramente um marco. O Sgt. Pepper’s do século 21.


Ma-ma-mas já…?


Beastie Boys – “3-Minute Rule

Aí tu entra no site dos Beastie Boys e…


Beastie Boys – “Hey Ladies

sente o drama

The Beastie Boys’ Paul’s Boutique has been 24 bit digitally re-mastered for the 1st time, overseen personally by the band to celebrate the 20th anniversary of the release. The original vinyl artwork has been faithfully restored in this 8 panel eco-friendly limited edition CD with fold-out poster. It also includes a free digital download for a track-by-track commentary by the band discussing each song over the music – Paul’s Boutique “The Director’s Cut” bonus audio.


Beastie Boys – “Eggman

Cada uma…


Metronomy – “A Thing For Me”


Lykke Li – “Little Bit”


Ed O’Brien, Phil Selway, Jeff Tweedy & Johnny Marr – “Fake Plastic Trees”


Bad Folks – “The Weight”


The Very Best – “Kamphopo”

Ressuscito aqui uma entrevista que fiz com o sujeito pra Ilustrada em 2006.

Angeli sem crise

“Wood & Stock”, filme com seus personagens, é atração no festival Anima Mundi

Angeli talvez seja um dos pais do rock brasileiro. Tudo bem que Roberto Carlos, Rita Lee e Raul Seixas vieram antes, mas para uma geração crescida sob a sombra da ditadura militar – quando ou você cantava as canções de exaltação à pátria ou cantava as canções da resistência, e se ouvisse música estrangeira era tachado de alienado político – foi o cartunista paulistano, que completa 50 anos no próximo dia 31 de agosto, quem melhor traduziu o que era o rock para um país submerso na MPB.

Com os personagens criados nas páginas da extinta revista “Chiclete com Banana”, que editava por conta própria nos anos 80, ele foi criando personagens para traduzir a fauna revelada com a queda da ditadura. Enquanto a Blitz e o rock carioca revelava o prazer de ser jovem depois da abertura política, Angeli descortinava uma São Paulo pós-industrial cheia de defeitos de fabricação em forma de gente. O punk Bob Cuspe, a gótica boêmia Rê Bordosa, o paranormal Rampal e o gay Nanico. Cada figura urbana criada pelo desenhista também encerrava uma tribo quase sempre ligada a um gênero musical, a uma série de hábitos desenhados pela própria história do rock. Sequer precisava citar preferências musicais para saber que o Meiaoito é viúva da MPB e que os Skrotinhos ouvem new wave.

Duas de suas criações saem das páginas do jornal para ganhar outros rumos. A dupla de velhos hippies Wood e Stock estrelam o primeiro longa baseado na obra de Angeli, que será exibido amanhã no Anima Mundi. “Wood & Stock – Sexo, Orégano e Rock’n’Roll”, do gaúcho Otto Guerra, reúne não apenas o núcleo bicho-grilo do título (a esposa Lady Jane, o filho Overall), mas quase todos os personagens criados pelo paulistano.

O outro lançamento são os livros que compilam as histórias do pré-adolescente Ozzy, filho da geração Nirvana que era publicado pela Folhinha durante os anos 90. São quatro volumes ao todo, dois deles saem agora e os outros dois em novembro.

Qual foi o seu envolvimento com o filme “Wood & Stock”?
Bom, eu cedi todo o meu material desde, hm, 84 para o Otto fazer o que quisesse, como referência gráfica e de roteiro. E fiquei meio como consultor. Detalhes, coisas do personagem que eu conheço porque eu os criei: tem uma cena em que o Wood, o Stock e a Rê Bordosa tomam um treco, piram e saem às gargalhadas. Epa: a Rê Bordosa não dá gargalhada. Detalhes assim, mas não interferi tanto. Eles me mandavam trechos e eu via.
Mas eu sou jornalista, eu trabalho num dia e no dia seguinte tá no jornal – e agora, com internet, tá na rua em cinco minutos. Então esse ritmo de cinema pra mim é muito moroso, muito lento, aí chegava algo pra mim, um trecho, e eu lembrava que o filme estava sendo feito (risos).
Depositei toda minha confiança no Otto porque ele é um cara como eu, da minha geração, a gente ouviu as mesmas coisas, tomamos as mesmas coisas, eu conhecia o trabalho dele e foi uma boa. Se eu fizesse o filme, ele seria completamente diferente, porque eu sou virginiano meticuloso e fico completamente obcecado com detalhes. Mesmo no filme pronto, reparo que o dedo mindinho do personagem tá uma nesga fora do lugar que deveria ser o certo. Mas eu já vi o filme umas cinco vezes e sei que é coisa minha, ninguém percebe.

O filme tem o andamento que você imaginava para os personagens?
Sim, acho que ele conseguiu pegar o ritmo dos hippies velhos, lentos, cansados…

É uma boa adaptação de uma história em quadrinhos para a animação?
Eu acho, me senti confortável com ele.

Você já havia cedido personagens para animação em um comercial de cerveja…
Sim, os Skrotinhos. E também usei o Moska, que é um coadjuvante do Luke & Tantra, para umas vinhetas curtas para o Cartoon Network. O trabalho do animador, Daniel Messias, foi muito bom. Já o comercial de cerveja eu tive que bater o pé em uma série de aspectos – era uma empresa (risos) – para fazer do jeito que eu quis. Neste, eu fiz os desenhos e os animadores do comercial, muito bons também, deram movimento. Gostei das duas, têm uma animação fluente, e os Skrotinhos tinham as vozes perfeitas, feitas pelo José Rubens Chachá, que eu recomendei…

E as vozes do longa?
Gostei . A primeira versão da voz do Stock era ainda mais paulistana – “orra, meo” – e eu gostava mais, mas preferiram deixar mais brando, pro filme ficar sem um sotaque específico. E a Rita Lee é perfeita, ela mesmo fala que as tiras da Rê Bordosa são a biografia não-autorizada dela (risos).

Você não acha que a relação em comum entre seus personagens, sejam os velhos Wood e Stock ou o garoto Ozzy, é o fato de eles representarem uma determinada tribo urbana quase sempre ligada ao rock’n’roll?
Com certeza. Mesmo no meu trabalho com charge, eu tenho essa pegada rock, essa pegada punk.

Você também tem consciência de que você apresentou a história do rock para pelo menos duas gerações…
Tenho. Sempre tive. Desde a época da Chiclete com Banana (revista que Angeli editava nos anos 80), eu sabia desse aspecto didático. Mas eu nunca me preocupei com isso. Eu nem acompanho quadrinho, quase nem sou desse ramo (risos). Minha literatura é toda de crítica de comportamento e uma visão política sobre o ser humano, que é muito pouco quadrinho… Talvez o Wolinski, que tem essa coisa de se colocar como personagem, para emitir opiniões.
Mas a Chiclete tinha uma linha editorial séria e eu não queria aviltá-la. Percebia cada vez mais o discurso da revista e chamava colaboradores que tivessem a ver com ele. Eu recebia cartas de pessoas que tinham montado banda porque liam a Chiclete, me mandavam discos independentes. Mesmo cartunistas, um monte de caras que eu gosto até hoje, como o Adão (Iturrusgarai) e o Allan (Sieber) foram na onda da Chiclete, o primeiro desenho do Adão saiu na seção de cartas da revista (risos)!
Mas sou contra esse papo que eu sou um mito, “Angeli, o Herói da Contracultura”. Odeio esse papo de herói…

Você não tem essa preocupação com o leitor nem quando escreve para crianças?
Não. Foi um desafio que eu me propus, porque eu sempre me achei pesado, imagina pra criança. Eu fiz o Ozzy depois de um convite da Folha, na época em que meu filho tinha a idade do Ozzy. Foi quando comecei a absorver informação através dele, sobre internet, da geração Seattle, skate, grunge, essas coisas e o Ozzy se tornou um laboratório de um humor feito para outra geração.

Um humor que acaba evolui no Luke & Tantra.
É. Ali eu tou mais à vontade. Com o Ozzy, eu não posso ir fundo, mas Ozzy, Luke e Tantra são da mesma geração. Eu só os fotografo em momentos diferentes.

Você disse que considera seu humor pesado para crianças, mas a geração Ozzy tem muita informação sobre coisas bem mais pesadas…
É, eu sei. É uma geração que não se assusta com assuntos, pode ser serial killer ou sexo anal, pra eles é tudo normal e tudo meio sem graça. É uma geração sem tabus. Mas só falar disso não dá em nada, tem que ter alguém pra explicar, alguém do lado…E eu não sei se sou esse alguém.

E em relação à música, você baixa música na internet?
Não, nunca. Eu não sei se vem música mesmo (risos). Escuto música no aparelho de som, compro CDs. Já fui mais atuante nesse departamento, mas eu tento me atualizar. E escuto de tudo. No carrossel de CDs do meu som, por exemplo, agora tem um violinista dos anos 20, o disco do Kills e um Jimi Hendrix.

Que mais você tem ouvido de banda nova?
Pouca coisa, tento me atualizar, mas como eu disse, já fui melhor. Gosto do Kills que eu falei, do Franz Ferdinand, do Arctic Monkeys… Eu gosto do Lou Reed, que tem essa coisa de fazer uma música séria e adulta, mas rock mesmo é coisa de moleque, barulhenta, senão não tem graça.

E quais são os próximos projetos?
Eu estou numa história longa meio autobiográfica que vai falar um pouco da minha geração, não só de mim. Falar de coisas que as pessoas quem têm a minha idade possam lembrar, ver o comportamento da minha geração. É meio que o início de um livro de memórias, que eu ainda não batizei. Mas tem lá as primeiras vezes todas, meu primeiro disco…

Qual foi?
O compacto de “Satisfaction” dos Rolling Stones.

E que mais você tem em andamento?
Tem coisas que não são minhas, são baseadas em obras minhas, como o filme da Cristiane Ticerri sobre a Mara Tara, que é uma personagem quase bissexta, saiu em umas três histórias, mas que tem um público feminino muito grande. E como ela é baseada nesses filmes de terror B do tipo “O Médico e o Monstro”, eu acho que ela vai funcionar bem como cinema, em vez de animação. E a Grace Gianoukas, da Terça Insana, pegou minhas coisas para adaptar para o teatro, que deve sair ainda esse ano…

Alguma chance de ver Angeli em Crise no palco?
Comigo? De jeito nenhum! Isso eu não faço! Evito fazer certas coisas, nos anos 80 eu apareci demais, até em tampa de privada! Só sou um desenhista, eu não sei fazer outra coisa, me deixem (risos)…

Angelentos

Quando Angeli liberou fazer o longa sobre os velhos hippies Wood & Stock, seu universo foi oficialmente apresentado ao mundo da animação (o próprio Otto Guerra, diretor do filme, já havia feito umas animações com os Skrotinhos, mas foram comerciais de Kaiser, não conta…). Ao ganharem movimento, os personagens do velho cartunista se mostraram quase estáticos, paradões – não apenas em termos espaciais mas também temporais. A história fraca do filme na verdade era um pretexto para dar animação a uma série de piadas conhecidas em forma de tirinhas desde os anos 80 – mas quanto tempo você leva para ler uma tirinha? Cinco segundos? Em Wood & Stock, esses cinco segundos transformavam-se em 30, deixando tudo muito lento e sem timing. Mas ao menos o filme tinha um traço lindíssimo, verdadeira homenagem ao desenhista Angeli.

Agora vem a Cultura com uma idéia parecida e exibe os Angelitos, que, ao picotarem as historietas em forma de microcurtas, poderiam ser, em tese, legais. Mas olha só:

Que agonia! Personagens míticos e tiras clássicas transformados em desenhos desanimados – e nem o traço faz jus à sujeira do nanquim de Angeli.