Lançamentos

O plano original da Yma era trazer o sucessor de seu ótimo disco de estreia Par de Olhos ainda em 2020, mas, como aconteceu com todo mundo, ela teve de mudar completamente de ideia. “Durante o ano, fui registrando tudo o que vinha, como vinha, sem peso, julgamento, pretensão ou expectativa, como mero exercício criativo para manter as ideias em movimento”, lembra a cantora e compositora paulistana. Estou começando o processo de ouvir com cuidado esses registros e a partir disso refletir e elaborar, se singles, disco, ou seja lá, o que virá”. Assim, encerra seu 2020 com o single “White Peacock” que, como o single que lançou no meio do ano, “No Aquário”, já estava no repertório dos shows e chega ao público em primeira mão pelo Trabalho Sujo.

Balada oitentista com leve toque psicodélico e o sax mais rasgado que você vai ouvir em 2020, o novo single, parceria da cantora com o amigo Zé Motta, já tem dois anos: “Fiquei extasiada, lia aquele conjunto de palavras e sentia um quê de misticismo. belo e surreal, ao mesmo tempo que me trazia imagens caóticas, de um concreto sujo numa cidade agitada as pessoas apressadas.. certamente me conectei de cara”, aos poucos ela compôs a melodia e juntos foram adaptando as palavras para a nova canção. “Um bom tempo depois, durante um ensaio com a banda, comecei a tocá-la na guitarra e a turma foi entrando na onda. Não demorou muito pra música entrar no repertório do show. no fim, me peguei apaixonada por ela e resolvi gravar.”

As gravações começaram no ano passado, conduzidas por seu produtor e companheiro Fernando Rischbieter. E o solo rasgado que caracteriza a faixa veio logo depois, quando o saxofonista alemão Humphrey Heim viu um de seus shows e se dispôs a colaborar. “E eu que sou perdidamente louca por saxofones, senti uma boa intuição e topei na hora”, lembra Yma. “No dia de gravar com ele ficamos um tempão refletindo sobre a relação entre o pavão do título e o solo de sax e fomos fundo – de repente ele estava ali, no estúdio, gritando. Era o pavão gritando de dentro dele em forma de solo de sax. Nunca fiquei tão arrepiada numa gravação.”

Ela comenta sobre os singles que lançou esse ano e sua relação com o próximo álbum. “Esses dois singles são experiências isoladas – e apesar de haver entre elas uma certa relação com a fase Par de Olhos, por terem estado presentes nos shows -, acho que já começam a apontar, de leve, para esses novos lugares. então certamente é um período de transição.” O disco, no entanto, ainda é um mistério: “Esse ano foi completamente atípico e assombroso, pra mim e talvez para toda humanidade. Criar, experimentar música e arte, pelo menos da maneira que eu conhecia, não pôde ser uma prioridade. A meta era manter a mente sã e imunidade lá em cima.”

Ela se aprofunda sobre sua relação com o isolamento social deste ano. “No primeiro semestre eu só enlouqueci, tive uma dificuldade imensa de me conectar com a realidade, no sentido mais literal possível. Acordava e todos os dias não estava ali. Estava fora. Fora do corpo e da mente. O medo dominava meus pensamentos. Cresci ouvindo meu pai falar em previsões catastróficas, das mais diversas linhas místicas, então meu imaginário de fim de mundo é aquele bem clichê do cinema sensacionalista, onde tudo acontece ao mesmo tempo; pandemias, o mar engolindo tudo, mercados vazios, alienígenas, crise hídrica, podres poderes, guerra civis.. Pera, agora, escrevendo assim, aos poucos, os filmes não parecem mais tão distantes, né?”, ri desesperada.

“Por acaso, fiquei uns dias sozinha em casa. Ter ficado sozinha foi crucial pra conseguir me reconectar. não apenas sozinha, mas em silêncio. Nua com aqueles pensamentos todos. Comecei primeiro a provocá-los, indagá-los e por fim aceitá-los. Acho que foi um movimento que quebrou com os padrões que eu havia criado. Depois foi tudo voltando pro lugar. Não existe fórmula, mas foi o caminho que encontrei – e assim sigo, tentando enfrentar os medos, sempre sonhando com solos de sax.” “White Peacock” está disponível nas plataformas digitais nesta sexta e terá clipe no ano que vem.

A jovem banda paulistana Crime Caqui planejava lançar seu primeiro disco de estreia em 2020, mas foi inevitavelmente abalroada pelos imprevistos desse ano, que forçou as quatro instrumentistas a tocar seus trabalhos em outro ritmo. “Obviamente, tínhamos alguns planos e ideias pra essa música que acabaram mudando drasticamente quando estourou a pandemia”, explica a vocalista e baixista Yolanda Oliveira. A guitarrista Larissa Lobo completa: “Por conta do distanciamento físico, esse ano não conseguimos iniciar a gravação do nosso primeiro disco, mas tivemos esse tempo para definir melhor o projeto.” Nesse meio-tempo, lançaram algumas músicas, alguns clipes e agora encerram seu 2020 com a gravação de sua música mais épica, a intensa “Naufragar”, que ganha um improvável clipe caseiro e artesanal, que estreia em primeira mão no Trabalho Sujo.

“Sentimos a necessidade de registrar o nosso estado de espírito através de gravações feitas por nós mesmas de cenas do nosso cotidiano no decorrer dos dias”, prossegue Yolanda, “decidimos que o clipe seguiria nessa linha, achamos que poderia surgir uma conexão interessante já que a canção não tem nada a ver com esse assunto. As imagens foram gravadas no decorrer desse ano – desde junho até uns dias atrás, quando fizemos as últimas captações pra compor a montagem – enquanto isso a música ia sendo finalizada. Se tornou uma espécie de diário sensorial que relata a nossa percepção do ano de 2020. Também, assim como o ano está se encerrando, esse single é o último da leva e encerra um ciclo para nós.”

A guitarrista May Manão continua. “Idealizamos o clipe já pensando na situação atual de pandemia pois era e ainda é nossa realidade durante a pós-produção da música. Filmamos a nós mesmas trazendo uma interpretação individual da música e relacionando com nossas vivências no confinamento e a nova percepção dos espaços das nossas casas.”

“Esse ano aconteceu num ritmo diferente né, nossos planos e encontros foram interrompidos e o que era pra ter sido começado, foi adiado”, conclui Larissa. “Mas foi importante também porque conseguimos fazer e criar outras coisas e além de amadurecer algumas ideias. Em outubro a gente se reuniu brevemente e gravamos um material novo, com músicas inéditas, que deve ser apresentado no início do ano. Vai ser bem chique! Também tivemos esse tempo para definir melhor o projeto e é praticamente certo que faremos algo no esquema de financiamento coletivo. Então aguardem a nossa chamada!”

Foto: Manuela Eichner

Foto: Manuela Eichner

Depois de ajudar Criolo a parir seu Nó na Oreia, dar um chão ao Metá Metá com seu baixo implacável e condensar seu lirismo em canções intimistas (em seu primeiro álbum solo Motor), Marcelo Cabral aproveitou a quarentena para enveredar pela música eletrônica. “Já faz um tempo que tenho usado o Protools como laboratório de ideias e me dei conta que estava sempre fuçando o sintetizador, sampleando e picotando tudo, mas sem fazer qualquer triagem disso, às vezes só pelo exercício de dichavar os tutorias ou só apertando e girando todos os botões possíveis pra ver onde iria dar, mas sem pensar exatamente num disco”, lembra. O canal para seu segundo disco, Naunyn, que chega às plataformas digitais nesta sexta-feira (e que ele antecipa mostrando a faixa “Mariannen” em primeira mão para o Trabalho Sujo.

“O sintetizador te dá todas as ferramentas. Dependendo de como você mexe num timbre, uma nota pode virar uma caixa, um chimbal ou bumbo e etc, além do banco de timbres melódicos que já vem nele. Teve um momento que comecei a curtir muito não samplear nada e criar tudo só no synth e fiz algumas assim, que ainda estão na incubadora. A música eletrônica é uma música inventiva, uma linguagem, não é apenas a intenção de querer soar e imitar um instrumento, é um som novo, um novo instrumento e com isso te leva a outros lugares e possibilidades. Curto demais isso desde sempre, é um outro tipo de transe e profundidade que os sons sintéticos chegam, que sempre me pegou muito. Tava tudo guardado só esperando a hora e por qual canal sair”, pondera.

O ponto de partida foi um sintetizador específico, que Cabral relembra seus primeiros contatos. “Por algum motivo eu já estava fuçando o OP-1 pela internet a um tempo e quando gravei em 2019 no estúdio do Bruno Buarque e dei de cara com ele ao vivo. Ele me ofereceu para fazer um test drive caseiro por uns dias. Não peguei no dia, mas isso ficou coçando isso até o começo de 2020, quando enlouqueci completamente, igual criança com brinquedo novo. Não fiz mais nada durante dias e só expremendo ele de todos os lados e vendo tutorias no Youtube, e logo veio aquela voz ‘vai salvando que tem assunto ae’, e quando vi já tinha uns 4 ou 5 esqueletos que eu tava curtindo e fiquei alimentando cada um e notei que poderia sair um disco dali”, remonta o baixista.

O disco é influenciado diretamente pela estada do baixista em Berlim, na Alemanha, onde passou um ano e meio entre 2018 e 2019. “Primeiro teve a paixão pelos sons sintéticos que curto desde sempre, mesmo bem antes de pensar em ser músico, eles já estavam presentes em muita coisa que ouvia desde muleque”, conta. “Mas sem dúvida foi a experiência dos clubs e festivais de Berlim somado as pesquisas que fiquei fazendo por lá que bateu essa instiga mesmo. Quando caiu o OP-1 na mão, foi só deixar fluir tudo isso e arrematando os cantos.”

O nome do disco vem da rua em que morava com sua companheira, a designer Manuela Eichner, durante essa estada. “É uma rua de três quadras bem no meio de Kreuzberg, tipo paralela à Augusta deles, de maioria turca e bem tranquila em meio a dois rios, Landwehr Canal e Spree, e a uma quadra do Görlizter Park e com clubs de todos tamanhos e estilos pra todos os lados. Fui muito também na Hard Wax, que ficava a duas quadras do nosso apê pra pesquisar e ficar ouvindo e fazendo cara de que ia comprar e não comprava nada, só com o Shazam ligado e anotando os sons”, lembra, rindo.

Pergunto sobre o inevitável impacto da quarentena nesta produção e Cabral reflete: “Tem uma viagem diferente e profunda em fazer um disco absolutamente sozinho, sem nem perceber emendava a tarde com noite e a noite com a madrugada, só com o fone e totalmente imerso no som, sem ninguém pra conversar, no lockdown entre março e maio, ou dispersar.”

E quando comento sobre a sonoridade oitentista do disco, que traz elementos de pós-punk, new wave e hip hop daquele período, Cabral concorda. “Não é consciente no sentido de querer fazer pra que soe de tal forma ou pertença a algo, mas no sentido ter conhecimento e vivência nestes três estilos que você citou e mais alguns se somaram. São sons que eu trago naturalmente dentro de mim da minha infância e adolescência toda andando e competindo de skate. Era o boom do pós-punk e new wave e também o começo do rap, era só o que eu ouvia, junto com punk e o hardcore. Fiquei também ouvindo e conhecendo mais do mundo techno, tanto de Detroit como do resto do mundo, mas principalmente de Berlim, além do universo do Richie Hawtin e seus projetos – Plastikman e F.U.S.E. – que já é um cara que deu uma mexida em tudo isso.”

Cabral não pensa em fazer shows com esse trabalho e vê esse disco funcionando melhor na mão de DJs. “Talvez este isolamento me traga alguma idéia de como levá-lo para o palco”, cogita, “o Motor também teve isso, eu não me via fazendo um show e cantando e depois achei este caminho que estava adorando e que espero ansiosamente voltar, então todas as possibilidades estão em aberto.”

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“Sou cobrada há anos pelo pessoal que acompanha meus lançamentos para disponibilizar também essas gravações antigas”, me explica Lulina por email, sobre a caixa de músicas que começa a lançar nesta sexta-feira 13 (claro) em primeira mão aqui no Trabalho Sujo. “Já prometi tantas vezes organizar isso, que tenho até vergonha de só lançar agora.” A “caixa” é digital, chama-se Pequena Coletânea de Gravações Caseiras e vem no formato playlist no YouTube, que ela torna pública no final desta sexta-feira, e que é praticamente seu próprio Arquivo X.


“Adelaide”, do disco inédito Brebotes

Quem conhece o trabalho da cantora e compositora pernambucana a partir de sua discografia inicial, iniciada com o ótimo Cristalina, que completou dez anos no ano passado, sabe só de metade da história, que ela começa a mostrar para o grande público vinte anos depois de ter começado a gravar. Antes de mudar-se para São Paulo, Lulina era quase um segredo do então jovem indie brasileiro, lançando discos compulsivamente em CD-Rs artesanais que mandava pelo correio. Fazia as capas à mão, desenhadas, que acabavam traduzindo o espírito caseiro das gravações e das letras, que falavam de paixões, alienígenas, uma saudável (pelo menos para mim) obsessão pelo número 13 e de fatos que iam acontecendo em sua vida, de diagnósticos médicos, piadas internas e


“Birigui”, do álbum Abduzida, de 2003

“A ideia de uma coletânea surgiu da minha falta de organização: como tem algumas músicas que estão perdidas e capas com resolução baixa, achei mais fácil fazer uma seleção, aproveitando a imagem de um flyer divertido que o Binho Miranda tinha feito para um show meu. E claro que passar mais tempo em casa também me fez ter vontade de visitar e celebrar essas produções caseiras.” Não me culpo de assumir que era um dos que mais pilhava a artista para retomar essa parte de sua discografia.

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“O que você estiver vendo a nuvem forma agora”, do disco Bolhas na Pleura (2004)

Ela começa a mostrar estas músicas pelo seu canal no YouTube. “Essa coletânea não chega a revelar tanta coisa assim de cada disco caseiro, é um passeio relâmpago, que tenta mostrar a diversidade de gravações e temas, indo de músicas mais zoeiras – muitas feitas entre cervejas e amigos em chãos de apartamentos – até as mais significativas para mim, feitas em momentos difíceis como a perda repentina da minha vó.”


“Tangerine girl”, do álbum Abduzida (2003)

Quando pergunto se ela vai lançar alguma coisa inédita, ela já responde de cara: “Tu acabou de me dar uma ideia. Essas primeiras 33 que selecionei aqui são de discos caseiros já lançados. Mas tenho muita gravação caseira antiga que não foi lançada, que faria parte do disco ‘Brebotes’ que nunca chegamos a lançar, então pode ser uma boa resgatar essas antiguidades e jogar como velhas novidades na coletânea também. O legal desse formato de playlist no Youtube é que fica uma coletânea viva, vez por outra vou adicionando coisa lá e quem estiver me seguindo vai ser notificado.”


“Chico”, do álbum Aceitação do 14 (2008)

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Quando a pergunto sobre essa volta ao próprio passado, ela viaja: “É sempre muito estranho, porque é literalmente a trilha sonora da minha vida. Morro de rir ouvindo as gravações do disco Abduzida, de 2003, por exemplo, porque era tudo muito espontâneo e novo, era o meu primeiro ano em São Paulo e tudo era motivo para apertar o REC. Já o disco Sangue de ET, de 2005, eu não consigo ouvir sem chorar. Lembro de estar sozinha no meu quarto gravando tudo e a tristeza daquele período transparece na minha voz.”


“Fuga pelo miojo”, do disco Aos 28 anos dei reset na minha vida (2008)

Inevitável perguntar sobre a quarentena, mas ela saca uma surpresa da cartola: “Para minha surpresa, tive a inspiração de compor muitas músicas sobre uma temática que não costumo visitar tanto: o amor. Junto com meu amigo Hurso Ambrifi, vou lançar em breve um disco – já tá pronto – que gravamos em trocas de emails e áudios de celular nessa quarentena, numa tentativa de realizar uma promessa antiga, que surgiu lá em 2016: a de compor e produzir canções inspiradas em um estilo que compartilhamos certa afeição, que é o city pop. E dessa mistura surgiram 11 músicas sobre a temática amorosa e um disco/artista novo, que chamaremos de Hursolina.”


“Clausura da Rima”, do álbum Translúcida (2006)

E não é só isso: “Além disso, também penso talvez em gravar no futuro um disco novo a partir dessa coletânea de gravações caseiras”, divaga. “Meu primeiro disco de estúdio, o Cristalina, de 2009, é uma coletânea das gravações caseiras dos meus primeiros anos compondo. Então, de repente lanço um Cristalina II, ou melhor, um Opaca, caso algumas dessas músicas se destaquem no meu Youtube.” Como não amá-la?

Foto: Thany Sanches.

Foto: Thany Sanches.

Quando assisti Luna França apresentar-se como uma das convidadas da temporada que Rafael Castro fez no Centro da Terra, no longínquo mês de setembro de 2017, ela mostrava, pela primeira vez em público, suas próprias canções. Quem esteve nesta noite foi fisgado instantaneamente pelas deliciosas crônicas que apresentava cantando, bem como por sua doce voz e sua presença de palco. Desde então venho acompanhando sua evolução como artista, embora ela tenha acontecido quase como uma metamorfose, uma vez que raramente apresentou-se ao vivo com seu próprio nome (embora seguisse tocando com outros artistas, como Tiê, Papisa, Bruno Bruni e o próprio Rafael). Fechada em seu estúdio-casulo (uma edícula na Vila Anglo, em São Paulo, onde morou até o início do ano), cutuquei-a várias vezes para ver se ela não queria mostrar o disco que vinha gravando antes de lançá-lo, em uma data única no mesmo teatro, mas ela sempre dizia que ainda não era a hora. Agora chegou a hora e ela começa a mostrar seu primeiro álbum no fim deste estranho ano de 2020, quando ela apresenta em primeira mão para o Trabalho Sujo o clipe do primeiro single, “Minha Cabeça”.

“Acho que a decisão de lançar ‘Minha Cabeça’ como primeiro single teve muito a ver com o momento de pandemia e isolamento social que estamos passando”, ela me explica por email. “Apesar de não ter sido composta para esse momento, acredito que ela reflete bem a sensação que eu e muitas pessoas tivemos de claustrofobia e ansiedade. Para muitos, esse tem sido um momento de olhar para dentro e lidar com partes de nós mesmos que nos assusta, mas que estão lá. E a música fala dessa busca por uma saída e o encontro consigo mesmo.”

“Além disso, ‘Minha Cabeça’ foi minha primeira composição e uma das últimas músicas a entrar no disco. Quando ela ficou pronta eu pensei: ‘Quero que ela seja a primeira a ser lançada!'”, ela prossegue. “Apesar do disco ter canções bem diferentes entre si, creio que o fio condutor de todas elas está nas letras bem pessoais, simples e sinceras, sem muitos floreios, apenas o pensamento ou sentimento do momento retratado na canção.”

Produzido e arranjado por ela e por André Whoong, o disco será o segundo lançamento do selo Cena, do jornalista Lúcio Ribeiro e tem previsão de lançamento apenas para o ano que vem. A suave e hipnótica “Minha Cabeça” é apenas um teaser do disco que, originalmente, sairia em 2020. “Quando a pandemia começou, decidi parar um pouco e entender o momento antes de tomar uma decisão de lançar. Quando percebi que as coisas demorariam a voltar da forma que eram – se voltarem -, resolvi pensar no lançamento, pois sentia que já estava com isso guardado para mim há bastante tempo.”

“Criei e gravei muitas das ideias de arranjo sozinha na minha casa. Essas ideias eu levava para o André e a gente lapidava juntos e somava com a ideias dele”, explica, lembrando o processo que começou há dois anos, quando ela só queria mostrar as músicas para Whoong, que acabou se empolgando com as canções. “Criei vários dos arranjos em minha própria casa, principalmente os arranjos vocais, presentes em todo o disco, além de synths e beats. Como eu sempre fui uma pessoa apaixonada por voz e arranjos vocais, acredito que isso virou uma marca que conecta todas as músicas.” Ela deve lançar um novo single no início de 2021, este com uma participação especial – que prefere não revelar ainda, bem como o título do disco: “Sou libriane, vai que muda!”, ri.

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Kassin e Frank Jorge, dois pilares do rock independente dos anos 90 que se tornaram referências musicais nas respectivas cenas de suas cidades, já se conheciam há tempos. “Eu conheci o Frank assistindo ao Graforreia Xilarmônica no festival SuperDemo, se eu nao me engano em 1992”, o produtor carioca puxa pela memória. O gaúcho complementa: “Fui conhecer conhecer mesmo foi quando o Kassin e o Berna produziram o disco da Graforreia Xilarmônica Ao Vivo, lançado pela Senhor F Discos, gravado em Porto Alegre num bar chamado Manara, que não existe mais nem a edificação, inclusive, e foi lançado em 2006”, lembra Frank sem precisar a data do show.

Os dois se reencontraram em 2020 para começar a trabalhar num disco em dupla, mas o coronavírus obrigou a mudança de planos. “Inicialmente haveria encontro no disco , eu iria a Porto Alegre e Frank viria ao Rio , eu pensava em um disco mais tocado com sintetizadores e baterias eletrônicas e acústicas juntas quando vimos que isso não seria possível resolvi fazer tudo programado”, lembra Kassin. “Inicialmente, seria uma fusão de composições autorais inéditas ao estilo de músicas bregas brasileiras com rock internacional da mesma época, tipo bandas do CBGBs…”, lembra Frank, “mas o rumo que foi tomando as composições e produções a partir das guias mostrou um universo diferente, mais rico ainda, bem brasileiro, bem diversificado, com bastante programações de bateria eletrônica, baixos synth ou ‘tocados no dedão’, arranjos maravilhosos do Kassin para sopros, enfim… Um álbum muito único que me deu muito prazer em fazer.”

Ainda sem data de lançamento precisa – os dois falam no começo de 2021 -, o disco Nunca Fomos Tão Lindos começa a ser mostrado esta semana, quando o single “O Que Vou Postar Aqui” chega às plataformas digitais na sexta, mas os dois antecipam a faixa, que mistura as melodias básicas de Frank à fissura de Kassin por música eletrônica avançada, ao mostrar o clipe primeiro aqui no Trabalho Sujo. “É uma canção tipicamente ‘frankeana’, composta com certo DNA do velho e famigerado iê-iê-iê que existe incrustrado em mim – e adoro!”, descreve Frank. “Mas a liberdade de criação foi o princípio básico do trabalho e o que o Kassin trouxe de contribuições foi sempre surpreendente; apontou para direções muito diferentes em termos rítmicos, soluções harmônicas bacanas e de bom gosto. Um resultado final bem diferente dos respectivos trabalhos solos, e em alguma medida, modestamente falando, muito único, muito raro”. Kassin reforça que a faixa é uma boa introdução ao disco: “O disco vai pra muitos lados sonoramente, mas dá pra entender o que esperar do álbum.”

Frank detalha como foi a criação do disco: “Fiz uma guia inicial em fevereiro deste ano com violão, baixo, teclado, guitarra, vozes, para 14 músicas com o Beto Silva no Estúdio Marquise 51. Tiveram umas dinâmicas de deixar algumas de lado e inserir outras no decorrer do processo, de abril em diante. Em síntese, dez composições do álbum foram escritas entre novembro e fevereiro e duas já existiam no meu repertório próprio, não lançadas. Kassin produziu as gravações via software Zoom a partir do seu estúdio ou sua casa no Rio de Janeiro. Beto e eu em Porto Alegre no estúdio Marquise 51, gravando a partir das orientações do Kassin. Trocamos vários telefonemas e algumas vídeo chamadas para discutir as músicas, buscar soluções, cortes… Fluiu tudo de modo muito legal, cooperativo, colaborativo. Conversamos bastante sobre música em geral. Celly Campelo, High Llamas, Paulo Sérgio, Jackson 5, documentários sobre música, etc. Tudo isto impactou no resultado e no astral geral do álbum. ”

Cada um segue seus projetos individuais. Enquanto Kassin prepara mais um disco solo, Frank segue dando aula de Produção Fonográfica na universidade Unisinos, em Porto Alegre “e compondo canções em espanhol; lendo Jonathan Franzen, Henry Jenkins, jornal e revistas Bizz antigas; sempre ouvindo muita música; assistindo seriado sobre o Império Romano”, conclui.

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“Esse refrão surgiu pra mim depois de um ensaio com a Juçara Marçal para um episodio da série Cantoras do Brasil em homenagem à Isaurinha Garcia. Uma das músicas, ‘Sem Cuica Não Tem Samba’, falava do encontro do corpo de Laurindo numa ribanceira no morro de mangueira e outro, ‘Procura o Miguel’, fala de um desaparecido ‘há quatro semanas’. coincidentemente o assunto do desaparecimento do Amarildo estava no noticiário por conta de uma decisão sobre indenização. Laurindo, Miguel, Amarildo são todos personagens cariocas vítimas de alguma violência”, lembra o produtor e compositor Maurício Tagliari, puxando pela memória a origem do single que lança em primeira mão no Trabalho Sujo, no dia de seu aniversário. O clipe é dirigido por seu filho, Daniel Tagliari.

Ele explica porque o samba “Amarildo”, gravado ao lado de Rodrigo Campos, Mauricio Badé, Janine Matias e Val Andrade, ficou de fora de Maô: Contraponto de Fuga da Realidade, que lançou no ano passado. “Fiquei um tempo mexendo na música mas quando fui gravar meu primeiro disco solo, ela ficou de fora porque eu e meu produtor Jesus Sanches decidimos não fazer um disco só de samba. Metade do disco já era samba. E naquele momento eu também achei de alguma forma um pouco ‘oportunista’ tratar desse assunto num primeiro disco. Depois de ter lançado um segundo disco bem mais experimental eu me senti mais à vontade para gravar algo mais ‘engajado’. Na verdade me senti impelido diante de tanta barbárie e violência que se manifestou após a eleição de 2018. Meu Amarildo é uma personagem arquetípica, uma vítima da violência não se sabe se do estado ou de milícias. Mas em comum com o Amarildo real é que seu corpo não aparece. Eu gosto de pensar que ele foi batizado em homenagem ao Amarildo do Botafogo e da seleção brasileira que brilhou substituindo Pelé na Copa de 62. Por isso descrevo um cara de boa, que joga bola, toca cavaco e não quer encrenca. E de repente, mesmo assim, é arrastado de alguma forma por aquele universo sem segurança, sem instituições confiáveis.”

“Nunca vi algo tão ruim como o que estamos vivendo”, reclama, “como artista, sinto que fui sendo direcionado para colocar na rua meu trabalho solo justamente pela percepção de uma piora da situação. um certo dever de botar a boca no trombone.”

A canção é o primeiro single de seu próximo disco, o terceiro álbum da série Maô, cujo subtítulo é Allegro Dentro do Possível e que está previsto para o ano que vem. Este álbum segue Falta de Estudo #1, que foi gravado e lançado logo no início da quarentena. “A ideia desse novo trabalho é um pouco uma síntese dos dois primeiros. No primeiro me apoiei muito nos amigos, parceiros, músicos e intérpretes. Tanto que somente uma música cantei sozinho e somente uma outra não era parceria. No segundo fiz tudo, de ponta a ponta, incluindo criar, tocar, gravar, mixar, fazer a capa. Nesse terceiro a maior parte das músicas será só de minha autoria mas terei participações e colaborações gravadas à distância. posso confirmar, por enquanto, Cuca Ferreira, Thiago França, Rodrigo Campos, Guilerme Kafé. outras estão já encaminhadas mas não confirmadas. por isso prefiro não comentar ainda.”

E além disso, ele prepara singles inéditos ao lado de Juliana Perdigão (“Yamamoto”), Guilherme Kafé (“Vaso Quebrado”) e Lenna Bahule (“Diabim”), além das atividades da YB, sua gravadora, que andam intensas. Além de terem lançado de discos do Negro Leo, Guilherme Held, Ava Rocha, Joana Queiroz e outros, também vem fechando parcerias com outros selos, como Disgrama, QTV, Matraca, Mundaréu Paulista, São Mateus e Alea. “Uma coisa muito interessante foi que aquilo que era quase impossível no mundo real, encontrar e reunir todo ou boa parte do elenco para se conhecer, trocar experiências e ideias, foi possível nesse mundo das reuniões virtuais. temos feito reuniões mensais e isso deve produzir colaborações interessantes em breve.”

Corte seco

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“Sei o que me salva, sei o que me mata”, canta hipnoticamente Alzira E sobre o poema do compadre Arruda, antes de explodir no refrão que batiza a nova música do Corte, banda em que ela toca ao lado de integrantes do Bixiga 70, “só não sei a dose exata!”. A faixa, escolhida para mostrar o vídeo-álbum Corte Vivo em SP, que foi gravado no Itaú Cultural no ano passado e que o grupo começa a lançar semanalmente a partir deste mês de novembro e que você assiste em primeira mão aqui no Trabalho Sujo.

“Bati o olho e veio”, lembra a compositora, quando leu o poema no segundo livro do poeta, A Representação Matemática das Nuvens. “A gente já tinha gravado o disco do Corte quando fiz essa música e achei que o poema tinha a ver com isso, com essa explosão, essa coisa mais radical do grupo. Foi essa sensação que eu tive quando li o poema, que virou música na hora, fiz no baixo. E fiquei surpresa, porque o poema tem três linhas e achava que não ia rolar, é diferente fazer uma música com um poema tão curto, mas ele é muito intenso e muito inteiro. O fato de ter pouco verso não fez falta, porque é muito completo.”

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“Tenho desenvolvido um novo olhar sobre o mundo, entendendo que criamos ciclos e expectativas às vezes maléficas para saúde mental e física”, filosofa Rodrigo Campos, quando o pergunto sobre como anda sua quarentena. “Percebi também que nunca havia tirado férias nos 20 anos em que vivo exclusivamente de música. Essa parada tem despertado sensações que, acredito, influenciem meu trabalho de agora em diante.” O primeiro estágio desta nova fase vem na forma de canções, às duplas, que ele começa a lançar a partir dessa sexta nas plataformas digitais – mas que dá pra ouvir em primeira mão no Trabalho Sujo.

“A pandemia que me instigou a começar gravar em casa”, prossegue o sambista paulistano. “À princípio não determinei que seriam compactos, mas como só tinha duas músicas – tinha acabado de fazer oito para o novo Sambas do Absurdo – e as achava boas. Comecei a considerar lançá-las nesse formato, me libertando um pouco do formato álbum. Foi quando passei a enxergar as canções de modo diferente, me abriu um novo olhar; ver as canções sempre dentro de um conjunto maior faz você se ater mais ao todo, e dessa maneira tinha que considera só canção, que tinha que se manter de pé por força própria, sem apoio de outras ou de um conceito muito fechado. Aí me convenci a aprofundar essa sensação de que cada canção devia se bastar, e lançá-las em compactos.”

Os dois primeiros, os sambas “Meu Samba Quer Se Dissolver” e “Corpo Azul”, conversam diretamente com essa experiência, principalmente a partir da familiaridade cada vez mais íntima de Rodrigo com a guitarra e a microfonia, que funcionam como paisagens sonoras que ajudam seus sambas a ganhar corpo e densidade musicalmente. “Acho que essa coisa de gravar em casa que abriu possibilidades bem maiores de experimentação timbrística, então penso continuar nessa direção”, explica quando pergunto se essa fase ele trabalha sozinho ou se vão ter parcerias ou colaborações. Ele não definiu nada nesse sentido. Só sabe que lançará cinco “compactos”. “Imagino soltar a cada dois meses. Já tenho outro pronto”, antecipa.

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O trio instrumental paulistano de jazz rock Atønito lança nesta sexta-feira seu segundo disco, Aqui, e antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo o clipe de uma faixa que mostra a disposição do grupo para trilhar novos rumos: “Sentido”, com clipe assinado pelo casal Francisco Porto e Luiza Queiroz, traz Luiza Lian como convidada e é a primeira faixa cantada da história do trio formado por Cuca Ferreira no sax barítono, Rô Fonseca no baixo e synth e Loco Sosa na bateria e synth. “Eu havia conhecido a Luiza por conta do Música de Selvagem, e havia ficado absolutamente impressionado com sua energia, potência, capacidade de improvisação, características que normalmente se encontram em grandes instrumentistas”, lembra Cuca, em entrevista por email. Incluir vocal num trabalho que levanta a bandeira do instrumental não foi por oportunidade: “O Atønito é um grupo instrumental e como tal valorizamos a livre interpretação da nossa música”, continua o saxofonista. “Mas nesse disco tínhamos uma mensagem que havia sido escrita em palavras antes do próprio som.”

Ele se aprofunda nessa questão: “O Atønito nasceu em 2016, naquele que acreditávamos ser um dos piores momentos da nossa história, ano da concretização do golpe”, explica Cuca, lembrando que voltaram a pensar em novo disco depois das eleições para presidente. “quando nos juntamos pra começar a trabalhar pro segundo disco, decidimos que dedicaríamos nossa música para refletir e atacar os caminhos que nosso país havia tomado, marcado pelo crescimento do fundamentalismo religioso e pela tentativa de destruição da identidade nacional, que vinha sendo tão arduamente construída. Após algumas conversas iniciais, coloquei esses pensamentos em um texto, que funcionou como uma espécie de roteiro, de narrativa, a partir da qual compusemos e criamos as músicas que viraram o disco” – o texto citado está no final deste post.

“Nesse texto, concluíamos que o problema fundamental vem da nossa incapacidade de resolver o conflito entre indivíduo e espécie, nossa incapacidade de encontrar equilíbrio entre necessidades e desejos coletivos e individuais. Somos cada vez mais empurrados para um confinamento solitário digital, desconectando-nos da percepção que só a coletividade garante a existência dos indivíduos. Fizemos o disco para debater isso. Ou seja, um disco instrumental, mas cuja inspiração veio da palavra”, conclui o líder da banda, lembrando que o disco já havia sido gravado antes de entrarmos em quarentena. “A quarentena afetou o lançamento, que estava previsto para maio. E nos fez questionar o quanto ainda fazia sentido, mas revisitamos nossos pensamentos originais e percebemos que as questões que nos motivaram só ganharam mais força. Do ponto de vista do nosso discurso, a quarentena só deu mais significado ao que queríamos dizer.”

“Luiza é a única convidada do disco, mas gosto de dizer que para esse disco tivemos entre nós três um processo criativo muito mais coletivo”, relembra. “No primeiro disco, as composições partiram praticamente de ideias minhas. Em Aqui não, tudo foi criado e executado coletivamente, ou seja com muito mais participação do Ro Fonseca e do Loco Sosa”, segue Cuca, lembrando de como Luiza registrou sua parte: “Ela foi pro estúdio, discutimos o texto e ela acabou por dar palavras finais à letra. E a melodia ela criou em poucos takes já valendo.”

Sobre lançar um disco durante a pandemia, tudo é experimentação, mas já está mexendo até na formação do grupo. “Eu particularmente sempre fui do ao vivo e é muito complicado não poder contar com esse caminho para manter o projeto ativo, mas o caminho que encontramos até agora foi esse, de trazer a arte visual para junto da música. Já havíamos feito isso com o Paulinho Fluxus, que é praticamente um quarto integrante do Atønito nos nossos shows. Os clipes que estamos fazendo são uma forma de fazer isso virtualmente. É como se agora a banda fosse baixo, sax, bateria e câmera. Esse disco tem 10 músicas, cinco já viraram imagem. Nos próximos meses teremos mais dois que já estão sendo criados.”

Atønito – Disco 2
AT / NITO
ATONITO
ATˆNITO
ATXNITO
Atønito nasceu e desenvolveu seu som a partir de um momento histórico marcado pela frustração,
pelo pessimismo e pela incredulidade.
Era 2016.
Com a tomada do poder por um grupo que não havia sido eleito, o Brasil soltava o freio e descia
de costas uma ladeira que vinha subindo a duras penas havia pelo menos 2 décadas.
Durante 20 anos, acreditamos que tínhamos encontrado nosso trilho, que aos poucos o futuro do
“país do futuro” chegava. Vivíamos sob a perspectiva da melhora, do otimismo, da confiança.
Para uma geração como a nossa, que nasceu no auge da ditadura militar e ficou adulta nas
décadas perdidas de 80/90, era a certeza de que construíamos um país com personalidade
própria, que finalmente começávamos a tirar o nariz da lama, como gerações anteriores não
haviam sequer imaginado.
Mas o Brasil provou que estávamos errados.
A completa falta de capacidade de manter o país no trilho seguida pelo completo atropelo aos
princípios que formam um Estado fez com que tudo que havia sido construído começasse a erodir
rapidamente.
É sob esse sentimento de perda, de desespero, de angústia, de incredulidade que nasce o
primeiro disco do Atønito.
Um disco do Grito. Expressão musical da raiva, dessa rasteira que tomamos do país. Do ódio que
é ter que dar a razão aos que sempre disseram que “o Brasil é isso aí mesmo”.
Isso foi no agora distante ano de 2017.
De lá pra cá as coisas pioraram muito.
O desastre saiu do plano institucional para o plano humano. Voltamos atrás não mais 20 anos de
desenvolvimento do país, mas séculos de conquistas e conclusões da espécie.
Celebra-se a ignorância. Escolhe-se o “olho por olho” como valor válido. Princípios que nortearam
a evolução da humanidade desde o século 16 agora passam a ser desprezados. Não se acredita
mais na busca do conhecimento, na busca da liberdade, na busca da convivência harmônica.
E o Brasil passa a trilhar um novo caminho, busca um novo modelo, que aparenta ser uma
espécie de mistura entre Porto Rico e Irã; por um lado mergulhando em uma subserviência
incondicional e sem nenhum orgulho próprio ao pior dos EUA, ao mesmo tempo que se apoia na
perpetuação da ignorância da populacão controlada pelo fundamentalismo religioso de pastores
da pior espécie.
Como reagir artisticamente a tudo isso? Como conseguir uma expressão artística – que pressupõe
sentimentos e sensibilidade – que reflita esse novo momento histórico?

Descemos.
Do Grito fomos à Implosão.
A jornada agora é em busca do problema fundamental e essencial, chegar no “pré-sal” do que
vemos na superfície; fonte de todos os conflitos atuais:
A relação entre o indivíduo e a coletividade.
Entre o individual e o coletivo.
Entre o ser único e sua espécie.
Por um lado, a associação coletiva nos fez a espécie dominante no planeta. Por outro, implica em
consciência e aceitação de limitações individuais.
Ao longo da história humana, a nossa organização coletiva propiciou o desenvolvimento da
espécie. Mais recentemente, conforme esse desenvolvimento se exacerbou, se transformou na
própria ameaça à existência humana.
Esse é o conflito fundamental.
E é a inspiração e provocação para esse trabalho.
O disco discorre sobre a relação entre o homem e seu ambiente. Como a associação coletiva
propiciou o domínio desse ambiente, e como essa associação coletiva se transformou em fonte de
tensão insustentável para os indivíduos que a formam.
Como existir como indivíduo num modelo que é totalmente dependente da associação coletiva
para a própria subsistência dos seus indivíduos.
Que paradoxalmente dedica cada vez menos espaço físico para seus indivíduos, pressionando
para uma proximidade física cada vez maior, ao mesmo tempo que empurra para o isolamento
atraindo para o confinamento digital, que mais paradoxalmente ainda legitima a existência
individual a partir da validação coletiva.
Reflexões e lembretes sobre cada música:
1. UNO (Vinheta Manifesto)
Da tensão inerente ao uníssono. Um som formado por três.
Somos um? One love? Somos mesmo a mesma energia que vibra em uníssono? Quando
passamos a ser muitos? E mesmo sendo muitos continuamos sendo apenas um?
2.
Quando éramos menores que nosso ambiente.
Quando surge a vida humana? Quando nos percebemos como indivíduo? Quando nos
percebemos como espécie?
Quando tínhamos mais recursos que necessidades?
Quando percebemos que o ambiente podia ser hostil? Quando percebemos que individualmente
éramos inferiores ao ambiente?
A melodia era maior, fica menor e acaba diminuta.
Manifestações de vida que começam a eclodir e aos poucos vão se reconhecendo.
3.

Quando percebemos que a espécie tinha mais chances se seus indivíduos se organizassem
coletivamente. Começam as conquistas. A vida melhora. O coletivo prova ser melhor que o
indivíduo. A vida coletiva se prova melhor que a vida individual.
A construção da vida social.
A crença num futuro mais positivo a partir das conquistas coletivas.
4.
Trabalho.
Competição.
O interesse coletivo impõe novas regras à sobrevivência do indivíduo.
A velocidade aumenta, na mesma proporção que a consciência diminui.
5.
Começamos a buscar subterfúgios.
Válvulas de escape. Auto-alienação.
Felicidade artificial, plástico, vaidade, consumismo, “mascando clichê”, terra da fantasia do
pinochio, tá tudo aqui.
6.
“Tá tudo ótimo”
Essa música é uma homenagem direta ao principal artista do movimento “Realismo Cínico”, que
apareceu na China nos anos 90. Uma tentativa de transformar em música os quadros de Yue
Minjun, o “pintor das gargalhadas”, que melhor traduziu o conceito de realismo cínico. A angústia
por trás da gargalhada.
Qual o limite entre a gargalhada e o choro.
O clichê do palhaço desiludido e triste.
7.
A gargalhada quebrou o verniz. Cai o cenário e vemos a realidade atrás.
Vemos a prisão que vivemos. Celas cada vez menores. O indivíduo reduzido ao seu mínimo
espaço.
Fazendas humanas do Matrix. Marcel Marceau. Paredes se fechando, tipo cena de seriado de
ação antigo.

8.
Só nos resta o mergulho interior. Reflexão.
Há uma luz no fim do túnel?
Há um túnel no fim da luz?

9.
Seguimos! Vai dar trabalho. Ladeira acima. Sensação que sobe, sobe e nunca chega.
Areia, cimento, tijolo.
Cenas de trabalhos forçados.

Texto para o último trecho da última música:
Mas não faz sentido.
Por que evitar de cruzar o olhar
Evitar de dirigir a palavra
fingir que não escuta
Se tudo que eu preciso para viver
foi feito pelo outro
tudo que eu como
tudo que eu visto
passou por tantas outras mãos antes de chegar às minhas
por que agir como se só eu existisse
como se aquela pessoa que está ao alcance do meu braço
simplesmente não estivesse ali
então agora é assim?
só existe o outro se for desse jeito?
Reificado
Coisificado
desmontado
desintegrado
fragmentado
em
giga
mega
kilo
bytes
de
bits
binários
Binários.
não mais bípedes
mas binários
só sim ou não
noite ou dia
par ou ímpar
certo ou errado
zero ou um
Binários como os bits
que reconstituídos
nos dão propósito
nos justificam
e nos validam
em forma de um polegar levantado
ou de um coração estilizado