Jornalismo

E na minha coluna de ontem no Caderno 2, falei sobre o ano de Mark Zuckerberg.

O ano de Zuckerberg
O pai do “Feice” é o nome de 2010

2010 foi o ano do Facebook. Não apenas dele, claro: na retrospectiva que estamos fazendo em três partes no caderno Link (a terceira parte sai na edição de amanhã), escolhemos, além da rede social, os aplicativos e geolocalização como três dos principais temas do ano. Mas o Facebook foi além do universo digital e ganhou o planeta. Não foi à toa que seu criador, Mark Zuckerberg, foi eleito a Personalidade do Ano segundo a revista Time.

Exagero? Vejamos: um universitário cria um site que conecta estudantes de Harvard. O site cresce e começa a permitir estudantes de outras universidades americanas. Cresce ainda mais e abre para o público em geral. E deixa de ser só um concorrente do Orkut, graças a uma série de programas e ferramentas (os tais aplicativos) que o transformam em um lugar em que é possível jogar games, fazer compras, agendar eventos, discutir em grupo, enviar mensagens, armazenar vídeos, fotos e se informar. Mais do que um simples site de relacionamento, o Facebook aos pouco se tornou um ambiente virtual facilmente familiarizável a todos que usam computador e internet atualmente.

E em 2010 foi quase todo mundo mesmo: o site passou o meio bilhão de cadastrados; criou o botão “Curtir”, que possibilitou a integração da rede social com todos os outros sites do mundo; abriu escritórios em ainda mais países; passou o Orkut na Índia, único país, além do Brasil, em que a rede social do Google dominava.

No Brasil, ele só faz cócegas no Orkut: são 8 milhões de usuários do Facebook contra 43 milhões de cidadãos da rede do Google. Mas já dá para perceber os sinais de seu avanço – quem está no site há tempos já deve ter percebido que, de uns meses para cá, os novos cadastrados na rede social não são mais jovens adultos, gente do meio digital ou de comunicação. São parentes mais velhos, vizinhos, conhecidos, gente que até outro dia se conformava apenas com o Orkut. E arrumaram um apelido específico para o site, chamando-o apenas de “feice”, abrasileiramento que colocamos na capa da primeira edição de retrospectiva do ano, há duas semanas.

O Facebook pode se tornar a grande rede social do mundo de fato – alguns países (como Rússia e China) nem sequer começaram a ser “colonizados” pelo site. Se isso acontecer, Zuckerberg substituirá Bill Gates. O pai da Microsoft, nos anos 80, foi um dos inventores do computador pessoal e criou o sistema operacional Windows, um ambiente virtual que ainda domina, 30 anos depois, a paisagem digital.

O Facebook pode virar uma espécie de Windows da web – e esta é a ambição de Zuckerberg: fazer com que todos naveguem na internet sem precisar sair de seus domínios.

Ajuda também o fato do criador do Facebook passar a ser uma figura pública, principalmente após o lançamento do filme A Rede Social, que já está recolhendo prêmios pelos EUA e que tem grandes chances de se tornar o principal concorrente ao Oscar do ano que vem.

Não que isso afete os planos de dominação de Mark. Mas graças ao filme, seu rosto na capa da Time não é mais apenas o de um certo geek desconhecido.

Link 2010

Fiz um breve balanço do que rolou no ano, só que do ponto de vista de quem acompanha o dia a dia do caderno. Resumo rápido: foi altos.

Link 2010
Ano intenso – e não só por causa do mundo digital. Em 2010, o Link cresceu, saiu do papel e espalhou-se pela internet, além de reunir nomes de peso e novos talentos por suas páginas

iPad, Kinect, Marco Civil da Internet, política 2.0, direitos autorais, smartphones e redes sociais – temas que foram assunto em 2010 e ocuparam as cabeças de todos os que fizeram o Link neste ano. Mas os últimos doze meses foram intensos nos bastidores da notícia, como você pode ver nesta página.

Ele começou logo, quando, em janeiro, mudamos a cara e a alma do nosso site – além do novo layout, a versão online e diária do Link hoje funciona na plataforma WordPress. Surgiram novos blogs (em 2010, só havia o do repórter de Renato Cruz), totalizando 13 ao fim do ano – mais de um blog novo por mês. O caderno também saiu do papel em duas oportunidades: uma vez em três dimensões, no primeiro suplemento totalmente em 3D produzido no Brasil, e outra na primeira edição da série Encontros Estadão & Cultura.

Mas foi no dia a dia na redação do jornal que a intensidade fluía solta, com uma equipe apaixonada pelo assunto e disposta a fazer um veículo em papel (mesmo que falando digital) ser tão vivo e ativo quanto uma publicação online. Tenho orgulho de chefiar um time com pessoas tão queridas e competentes. E em 2011 tem mais! Boas festas e até lá!

Geolocalização: o ano do onde“Mapa é visualização do conhecimento”Personal Nerd: Sua vida no mapaVida Digital: PC Siqueira, o vlogueiroFelipe Neto: de vlogueiro a protagonista de programa de TV2010: o ano em que fomos apresentados a novos dilemasLink 2010Controle no poder, os 10 melhores games de 2010Cuba, Banda H, Facebook…

TV Ana Freitas

Olhômetro girl leaves the building: e agora?


Ana e eu

Ana Freitas é um caso clássico de amizade virtual: você começa a visitar alguém online em seu canal favorito (antigamente era só o site ou o blog, hoje tem o Flickr, o Fffound, o canal do YouTube, o Fotolog, o FEICE, o Twitter e a lista só aumenta) e aos poucos vai se afeiçoando ao jeito da pessoa, independentemente de gostar dela ou não. E o canal vai se tornando, aos poucos, um conhecido, o que me lembra aquela situação sempre citada da velhinha que dava “boa noite” pro Cid Moreira. Sim, um dos motivos que fez a televisão se tornar tão popular nas últimas décadas era que ela preenchia emocionalmente um vácuo espiritual – o dos amigos. O sujeito chega em casa e não tem ninguém – liga a TV e está numa mesa discutindo futebol, num filme policial ou no meio de uma novela mexicana. Com a internet, é como se as pessoas virassem canais de TV – com o agravante de que a maioria destes não são feitos por equipes pagas para pensar em entretenimento para os outros e sim por uma pessoa desaguando sua personalidade online.

E eu sempre vi a Ana como um programa de TV a cabo que comentava a TV aberta. Mais do que isso: um programa sobre o mundo a cabo que comentava o mundo aberto. Ela fazia a ponte entre estes dois universo – o cool e descolado mundo digital de grandes novidades da moda da semana e o apaixonado e intenso universo da vida real do povo brasileiro. Reddit e Rede TV!, Foursquare e A Praça é Nossa, probloggers e vendedores no trem, Analytics e Ibope. O fato de ela andar de skate e morar em Santo André diz muito sobre esta personalidade.

Mas, em pouco o tempo, a conheci no escritório que trabalho. Foi quando veio o momento mágico da revolução eletrônica, quando você conhece a pessoa que está do outro lado da tela. E lá estava Ana, com seu sorriso de criança, seus olhos de moleque que fez merda e tá torcendo pra que você não perceba, cabelo chanelzinho, bermuda jeans, tênis All-Star, falando com as mãos e erguendo as sobrancelhas quando quer sinalizar alguma travessura ou boa idéia, que quase sempre vêm juntas, em seu caso. Mas uma coisa eu já conhecia e mesmo sem ouvi-la falar: era exatamente a mesma voz que eu li em seu blog, com as mesmas frases extensas, gírias paulistanas e comparações inacreditáveis.

Ela trabalhava em outro departamento, como estagiária, e eu tinha uma vaga de estágio sobrando na minha equipe. Seu contrato terminaria no meio do ano passado e ela, com sua estrela natural, já tinha agilizado três ou quatro opções para trabalhar longe do Limão – uma delas, viajando pelo Brasil. Quando eu e Helô chegamos nela dispostos a transformá-la em integrante da equipe do Link, ela balançou. Queria conhecer o mundo, ir pra fora de São Paulo, ver o que tinha para além do horizonte e estava programando o fim de seu estágio como início desta oportunidade. Não foi preciso muito para convencê-la ficar (trabalhar no Link é altos, geral sabe) e, em menos de seis meses, estávamos contratando-a como repórter. É uma sensação boa, efetivar estagiário como profissional. Mas no caso da Ana foi especial porque era mérito dela por ter investido na própria carreira no mesmo lugar em que estava, só que com outras pessoas.

Mas o bicho da viagem quando belisca, não para – e pelo meio do primeiro semestre deste ano, Ana começou a se mostrar inquieta, às vezes distraída. Primeiro abriu pra Helô e logo depois veio me contar: queria sim viajar pelo mundo. Adorava o trabalho, mas tinha que sair. Não só a gente como quase todos que a conhecem endossaram: vai nessa. Velho clichê: “Você é jovem, tem a vida toda pela frente, depois vai se arrepender de não ter ido”. E como clichês não viram clichês por conta própria, ela os ouviu várias vezes até decidir-se. E ela começa 2011 indo para fora do Brasil.

E volta a ser aquele canal de TV pessoal que eu acompanhava antes, com o agravante que agora eu conheço sua autora-produtora e sei que seu potencial de genialidade não fica só dos dedos pra tela – Ana é quase uma força da natureza em miniatura – você olha para ela e não dá muita coisa, mas ela tem uma energia natural tão intensa que contagia qualquer ambiente. E sem pressionar. Ela torna tudo mais familiar, mais caseiro, menos épico, menos hiperbólico, mais pé no chão. Lembra que, mais do que uma grande jornalista em formação, ela é uma pessoa prontinha pra vida. Ela é fodaça e um amor ao mesmo tempo – quantas pessoas você conhece que são as duas coisas?

Na festa de fim de ano do Link, falamos que 2010 foi o ano Ana. De certa forma foi mesmo, pois tivemos o prazer de sua companhia diária. Mas não. 2011 é o ano Ana.

Vai lá, menina. Quebra tudo, mostra pra eles. Eu fico aqui do outro lado, te lendo e sabendo que, a cada frase espertinha e citação improvável, tem um riso de moleca, uma gargalhada gostosa, gírias idosas e um olhar confiante que me põe a gente no mesmo nível – aquele de gente que gosta do que faz.

Sigo aqui lhe assistindo. E, como você mesma disse, também tenho certeza que vamos trabalhar juntos de novo.

E na edição do Link esta semana, a Tati falou com a Natália Viana, brasileira que posta os textos em português no controverso Wikileaks:

É como uma agência de notícias. “Discutimos a pauta, como será o ângulo, quem vai editar e a hora. Como cada um está em um lugar, os horários são diferentes, então temos de coordenar para conseguir que o material saia na hora certa”, explica. Natália conta que não há rotina. “A coisa caminha de acordo com o que acontece no dia”, diz, exemplificando com os últimos acontecimentos desde que o WikiLeaks vazou 250 mil documentos diplomáticos dos EUA. “O site sofreu ataques hackers, foi tirado da Amazon, o dinheiro foi cortado e o Julian foi preso. Claro que tudo isso acaba prejudicando o trabalho, mas continuamos firme”.

E, claro, fala de Assange, com quem lidou por um bom tempo:

“Ele tem uma causa que é maravilhosa, porque questiona os limites do que é jornalismo, do que é transparência e do que deve ser privado e público, é uma compreensão única do potencial da internet. O Julian é um visionário”.

A entrevista toda está aqui.

Na minha coluna de domingo do Caderno 2 falei sobre a iPadmania pré-natal

O Natal do iPad?
Não para quem não tem pressa

E a febre do iPad chegou ao Brasil com o Natal. Quase um ano após seu anúncio no início de 2010, o tablet da Apple chega por aqui com todos os louros que o coroaram como principal produto digital do ano. Não é à toa, afinal, ele faz a ponte entre os dois aparelhos eletrônicos mais usados do mundo – o computador e o celular –, dando início a uma tendência que deve dominar os anos 10: a transformação radical do computador pessoal, que pouco mudou estruturalmente desde que foi criado, há trinta anos. Mesmo com capacidades de armazenamento e processamento infinitamente superiores às dos primeiros modelos, os computadores atuais seguem o mesmo padrão daquele inventado pela dupla Bill Gates e Steve Jobs no fim dos anos 70: gabinete, monitor, mouse e teclado.

Mas isso não quer dizer que é só comprar um iPad para conhecer o computador do futuro, como festejam seus entusiastas. Não estou nesse time. Por melhor que o tablet da Apple possa ser considerado, ele é claramente um produto transitório. Por isso, se você está em dúvida se entra ou não no hype da prancheta digital, não caia nessa. Como a grande maioria dos lançamentos eletrônicos, ele não está completo. É quase um produto em fase de testes, com a diferença que leva a grife Apple, o que causa todo o auê típico dos produtos da empresa.

O iPad é um produto perfeito para early-adopters, essa fatia do mercado sempre disposta a comprar o último modelo de qualquer produto ou testar qualquer serviço online que comece a ser comentado.

Pertenço à categoria oposta, principalmente quando falo de aparelhos. Demorei para ter um DVD player, só passei a usar celular depois que entrei no caderno Link, há três anos, e só neste ano me rendi a um smartphone. Não por ser avesso a tecnologia, mas ficar a distância ajuda a ter uma perspectiva menos deslumbrada desse tipo de tendência. Não é preciso ter pressa para pegar carona na moda eletrônica da vez. Mesmo porque, como disse, é bem provável que ela ainda esteja em fase beta – termo utilizado pelo mercado digital para definir aparelhos ainda em teste.

E já começaram as especulações sobre o iPad 2. Embora tudo ainda seja nebuloso, uma coisa é quase certa – o novo modelo será mais completo e certamente mais barato que o atual. Tem horas que é melhor esperar…

Software de bolsoSeu telefone pode virar qualquer coisaPersonal Nerd: Aplicativos de celularA construção de um mercado milionárioJogo social para gamerO ano 10 – 2ª parteGoogle Chrome OS, Idec, PSP…Você sabe o que o WikiLeaks tem a ver com o Napster?Vida Digital: Natália Viana, do Wikileaks

Bruce Sterling esteve no Brasil na semana passada e eu pude bater um papo com o cara para a edição de hoje do Link.

O PC morreu e ninguém percebeu
Escritor, ensaísta e guru digital, Bruce Sterling esteve no Brasil na semana passada e falou sobre como as três principais tendências do mundo digital em 2010 – Facebook, geolocalização e aplicativos – se convergem em um ponto: a morte do computador pessoal

Na retrospectiva que estamos fazendo no Link, elegemos três assuntos com os principais temas de 2010: Facebook, geolocalização e aplicativos. Você concorda com a escolha? O que estas três tendências têm em comum?
O que há de importante sobre essas três coisas é que nenhuma delas precisa do sistema operacional da Microsoft. Por um bom tempo, ter um computador dizia respeito apenas ao sistema operacional e ao processador. E o Windows criou uma simbiose com fabricantes de chip: lançava um sistema operacional logo que um processador mais rápido chegava ao mercado. E isso tornou-se sufocante, não havia mais nenhum entusiasmo. E até a Microsoft teve um hit neste ano, com seu dispositivo de detecção de movimento, como é o nome mesmo…

Kinect.
Kinect! Kinect é o aparelho eletrônico doméstico que mais vendeu em todos os tempos – e está vendendo duas vezes mais rápido do que o ex-detentor desse título, que era o iPad. E o que há em comum entre Kinect e iPad? Eles não têm nada a ver com os velhos computadores. Quando coisas assim aparecem, eu procuro o que morreu. Se as pessoas estão olhando para aplicativos, geolocalização e redes sociais, em que elas pararam de prestar atenção? O computador pessoal morreu neste ano e ninguém percebeu. Qual é a definição de computação pessoal: eu tenho um computador e ele é meu e tem todas as minhas coisas! Se você oferecer um desses para alguém hoje, um computador em que você não pode entrar na internet, nem compartilhar nada, que só serve para processar dados e, sei lá, editar filmes… Mesmo que ele seja ótimo, ninguém vai querer! Talvez se você pagasse, alguém teria o computador verdadeiramente pessoal.

Você definiu o Facebook como uma favela…
Sim, como as favelas brasileiras, devido à organização política. Ninguém imaginava que ele cresceria tanto, que funcionaria desse jeito, não há um modelo de negócios e ele está crescendo cada vez mais, só no boca-a-boca. Não tem outdoor, programa de TV…

Há o filme.
É, mas o filme não vai fazer ninguém entrar no Facebook. E, principalmente, o Facebook é gerido por um moleque de 26 anos que age como… um cacique (fala em português). É estranha essa estrutura tão grande online, mas ela não é tão incomum se você pensa em termos de cidades, daí a comparação com favelas e metrópoles do terceiro mundo, que crescem sem planejamento.

Então, de certa forma, o mundo está mais terceiro-mundista?
Não sei se terceiro-mundista, pois há favelas no mundo todo. A internet cresceu de forma muito rápida e usa estruturas muito próximas às de casas de lata – junta o que tem à mão, coloca tudo no mesmo lugar e vê se funciona. Se não funcionar, começa do zero. Tudo é beta o tempo todo, o novo é construído sobre o velho, não importa se vai aguentar o peso, se haverá deslizamentos, spam, pornografia, pirataria. Tudo o que você quiser está lá. De vez em quando tem uma batida policial, “vamos derrubar os serviços de compartilhamento de arquivos”. Talvez alguém vá preso, mas quando a polícia vai embora, tudo volta a ser como era. Cada um usa a internet como achar melhor, por isso há uma estrutura semelhante à de uma favela. Não é uma favela literal, mas uma favela cultural.

E como a estrutura do digital afeta o resto do mundo?
Hoje essas estruturas são simbióticas, não somos mais inocentes como éramos antes. O que acontece no mundo digital tem consequências ainda mais graves no mundo real do que antes. Um dos temas deste evento que me trouxe ao Brasil (o festival Arte.mov) é a relação entre arte eletrônica e contexto urbano. Veja um exemplo: pergunte a um jovem, entre 18 e 25, se ele prefere um carro ou estar no Facebook. São escolhas excludentes, quem tiver um carro não entra no Facebook e vice-versa. Tenho quase certeza de que ele escolherá o Facebook. Carros serviam para ir até onde as garotas estavam. Agora basta ir ao Facebook. Além disso, as pessoas estão deixando de gostar de carros pois não dá para usar aparelhos eletrônicos enquanto se dirige. É melhor ir de ônibus usando seu iPhone ou iPad, pois você consegue fazer mais coisas no tempo de locomoção. Essa é uma mudança enorme. Meu amigo Adam Greenfield disse há dois anos que o dispositivos portáteis mudariam mais a cidade do que os carros mudaram. E os carros mudaram as cidades de forma profunda. Quando eu ouvi isso, pensei que era um hype forçado. Mas hoje vejo que ele estava certo.

Isso vai acontecer rápido?
Depende. Talvez baste uma grande crise, seja em energia, combustíveis, exportações, não importa, para as pessoas, preferirem redes sociais a carros. E eu acho que há uma tendência que é o consumo colaborativo: vamos compartilhar objetos físicos via redes sociais. Por exemplo, eu quero pegar um carro, encontro alguém disposto a emprestá-lo, acho o carro no Google Maps, vou até ele e mando, via celular, uma mensagem que destrava porta. Ando uma hora com o carro, estaciono onde for e vou embora.

As pessoas vão sair mais de casa e ficar menos tempo vidradas no computador?
Eu gostaria de dizer que sim, mas não acho que isso vá acontecer. As pessoas se reúnem fora de casa para eventos em que vão assistir a alguma apresentação de conteúdo, como um debate político ou um show. Mas essas apresentações têm o formato de mídia antigo, em que poucas pessoas falam para muitas ao mesmo tempo. E os dispositivos portáteis militam contra isso. Já há casos de pessoas que não conseguem assistir a um filme de duas horas sem mandar um SMS. Quer dizer, vai ser cada vez mais complicado para as multidões se verem como grupo. Mas, certamente, as pessoas sairão das mesas, já que você não precisa de um monte de cabos. Haverá menos dores na coluna pelo simples fato de não ser mais preciso ficar sentado.

Outra grande tendência de 2010 foi a divisão da internet em espaços fechados, sem comunicação entre si, como Facebook, Google, as redes iTunes e a PlayStation Network. Tim Berners-Lee acabou de escrever um artigo para a revista Scientific American em que mostra como essas redes fechadas podem acabar com a natureza livre da internet.
Google, Facebook e Apple querem criar silos verticais que unam seus amigos, seus dados, seus contatos, o algoritmo do seu coração, o que for, como se fossem coisas que pudesse ficar isoladas umas das outras. Embora eu reconheça que essas iniciativas realmente ameaçam a liberdade da web, por outro lado, eu acho que elas são muito frágeis. Não é preciso muito para acabar com a Microsoft. A própria Apple, que já morreu em outra oportunidade, é basicamente o Steve Jobs. Se ele morrer, ela morre junto. Acho que o Google é quem pode sobreviver por mais tempo, mas, mesmo assim, são só dois ex-estudantes esquisitos de Stanford. Se você for um ditador de um país qualquer e estiver com raiva do Google, basta matá-los. Veja Bill Gates. Você acha que ele queria destruir a Microsoft quando saiu? Ele só ficou entediado e preferiu ir curar a malária. É um tipo de idealismo de poetas, pintores, artistas. E não é só Gates que é assim, todos eles são assim.

Você esteve no Brasil há dez anos e agora está de volta. O que mudou?
O país tem crescido muito e ganhou importância. Mas, principalmente, a população é jovem. Estamos vendo, especialmente na Europa, o lado sinistro de ter uma população velha. Ninguém faz nada novo. A Europa perdeu a capacidade de esquecer. O Brasil é o oposto. Ninguém olha para trás, o que é saudável. Claro que é bom conhecer sua história, mas é ruim ficar preso apenas a ela. Fora que esta é a geração mais conectada e mais culta do país, não no sentido da educação formal, mas de saber o que está acontecendo. E parece ter medo de arriscar.

E em termos de cultura digital brasileira?
Eu não gosto do tecnobrega. Parece umas crianças brincando no quintal. Tudo bem, tem o lado pirata, de reciclar músicas para criar músicas novas, mas isso não é muito diferente de roubar eletricidade da rede pública. Adoraria dizer que a aproximação do então ministro Gilberto Gil com a cultura do software livre irá solucionar os problemas do Brasil, mas isso não vai acontecer.
Seu país tem aspectos que são bem brasileiros e não são nada legais, como o que aconteceu na recente campanha eleitoral, em que aconteceu uma espécie de guerra fria online entre os eleitores dos dois principais candidatos. É inevitável que vocês verão problemas como estes acontecer com mais frequência. Basicamente porque as falhas que existem na sociedade acabam sendo reproduzidas no meio virtual.
O que eu acho que será bem interessante ver é que há a possibilidade de conexão entre os países em desenvolvimento. O Brasil pode se tornar realmente forte ao se conectar com países como Índia ou China. Isso seria incrível: o imperialismo cultural brasileiro. A internet já foi americana, há trinta anos. Não é mais. E agora a internet está com quase a mesma população do mundo e os EUA são só uma porcentagem deste total, como o Brasil. O que conta e o que me interessa é o que estes países podem fazer em escala global.

Minha coluna no Caderno 2 ontem foi sobre o Wikileaks.

O futuro do segredo
Wikileaks e a geração digital

A lista de documentos distribuídos pelo site Wikileaks foi o principal assunto da semana passada, quando uma série de arquivos antes confidenciais causaram uma crise diplomática mundial sem precedentes – transformando seu porta-voz, o jornalista australiano Julian Assange, no nome mais importante do mundo agora.

Mas fora a polêmica instantânea, há implicações nesta história que dizem muito mais respeito a como o mundo funcionará no século que começa. É uma questão que não fala somente a estadistas e governantes, mas também para cada um de nós.

“Imagina se tivesse um Wikileaks revelando DMs, e-mails e SMSs de qualquer pessoa que você escolhesse? Na boa, o mundo acabava em meia hora”, twittou o escritor Antonio Prata, colunista do caderno Metrópole. Não acho que o mundo acabaria (mais provável que ele se tornasse uma mistura de filme de Woody Allen com Ingmar Bergman, numa discussão sobre relacionamentos global interminável), mas, por baixo da brincadeira de Prata, repousa uma mudança que já está acontecendo na cabeça da geração digital.

Lembra quando, nas festas da sua época da escola, alguém trazia uma máquina fotográfica? Quem não queria ser fotografado sumia – e o fotógrafo era acompanhado à distância por quem quisesse ficar longe de seus registros. Que eram mínimos: o melhor filme permitia apenas 36 fotos, que custavam caro para serem reveladas.

A geração eletrônica, no entanto, anda com câmeras nos bolsos. Toda ela – afinal, hoje em dia qualquer celular tira foto. E as fotos são instantâneas – como não é mais preciso revelá-las, basta clicar e subir para a internet de onde quer que você esteja. Fotos são tiradas o tempo todo e parte delas aparece online, nos Orkut e Facebook da vida. O mesmo vale para registros de áudio e vídeo – e assim temos uma geração que passou toda sua vida no holofote, mesmo que particular.

Há quem aposte que o futuro será assim e cada uma de nossas vidas será um reality show pronto para ser assistido por quem se dispuser a nos procurar. Google e Facebook são os primeiros a levantar essa bandeira, com seus respectivos CEOs (Eric Schmidt e Mark Zuckerberg) afirmando categoricamente que a privacidade acabou.

É claro que essa é uma discussão interminável, mas com vidas publicadas em blogs, YouTube e redes sociais numa ponta e o Wikileaks na outra, uma coisa está ficando cada vez mais clara: será muito difícil manter segredos nos anos que vêm por aí. Não que isso seja especificamente ruim…

Narrativa 2.0
Tim Burton brinca com o Twitter

No fim de novembro, o diretor Tim Burton propôs a seus fãs uma experiência conjunta: escrever uma história no Twitter. Criou o site BurtonStory.com, que redireciona todos os tweets marcados com a hashtag #BurtonStory para lá. O tweet de abertura, escrito por Burton, dizia que “Stainboy, usando sua óbvia expertise, foi chamado a investigar a misteriosa gosma brilhante no chão da galeria” – e daí em diante, a história seguiria em modo 2.0. E sempre que uma parte é aprovada pelo autor, ela aparece no site, dando gancho para uma nova leva de sugestões.