Jornalismo

A minha coluna no 2 de ontem foi sobre o The King of Limbs, e mesmo tendo sido fechada antes do lançamento do disco, na sexta, não invalida o que foi publicado ontem.

Sem medo de ousar
Radiohead e o artista do século 21

Aconteceu de novo, na semana passada. Depois de mais de três anos do lançamento de seu disco mais recente, In Rainbows, o grupo inglês Radiohead pegou todo mundo de surpresa ao anunciar, na segunda-feira, que seu novo disco estava pronto e seria apresentado ao mundo em menos de uma semana. Foi exatamente como aconteceu em 2007. Na época, o Radiohead começou a postar notícias cifradas em seu site para, em menos de uma semana, anunciar que tinha disco novo pronto e que ele seria lançado online em menos de uma semana. Não bastasse isso, o grupo liderado por Thom Yorke ainda ousou ao propor que o próprio público dissesse quanto gostaria de pagar pelos MP3 – mesmo se não quisesse pagar nada.

Corta para 2011 e o anúncio de The King of Limbs foi feito igualmente no susto. A grande diferença, no caso, foi que desta vez a banda não perguntou quanto valia a obra. E propôs preço para o disco ainda inexistente: US$ 9. Além da versão digital, a banda também avisou que lançaria uma edição “física” do álbum, que incluiria, além do CD, dois discos de vinil, cartões e “625 pequenas obras de arte”, seja lá o que isso queira dizer. Também anunciou que o disco talvez fosse o primeiro “álbum-jornal” do mundo, também sem explicar nada sobre o que seria isso. Quem comprar a versão não digital teria de desembolsar US$ 48, preço de envio incluso, e esperar para recebê-lo a partir do dia 9 de maio.

Até o fechamento desta coluna, o álbum ainda era um mistério, mas é bem provável que hoje, pleno domingo, você já tenha lido as primeiras impressões sobre ele e talvez já o tenha até ouvido. Mas mesmo que você nem saiba o que é Radiohead (na minha nada modesta opinião, a melhor banda do mundo hoje, ponto final), saiba que eles são os pioneiros e talvez o maior nome entre os grandes do entretenimento mundial na forma de lidar com o mercado digital.

Basicamente porque eles não têm medo de experimentar. E não só musicalmente. Há uma reclamação constante de que para o Radiohead é muito fácil fazer isso, uma vez que a banda surgiu e cresceu nos tempos em que as grandes gravadoras mandavam no que deveríamos ouvir. Mas eles poderiam simplesmente continuar vendendo seus discos sem nenhuma novidade. Ao contrário, eles não apenas abraçam a novidade como não têm medo de ousar.

E sabem que, para o artista do século 21, arte e mercado têm de ser vistos como se fossem a mesma coisa.

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Minha coluna no Caderno 2 ontem foi sobre o Twitter em 2011…

O último ano do Twitter?
O passarinho azul subiu no telhado – e parece que vem outra bolha por aí…

Tweets, trending topics, retweets, seguidores, hashtags, unfollow, #FF, @username… Toda essa terminologia já era conhecida de um punhado de usuários do Twitter antes da explosão da rede social, em 2009. Em 2010, o mundo inteiro abraçou o site – até mesmo o Brasil, tradicionalmente acostumado a uma vida digital paralela à do planeta, entrou na rede em grande estilo, emplacando vários termos e hits nacionais para o resto do mundo. Mas se em 2010, o Twitter indicava ter embalado num crescimento que parecia não ter volta, 2011, no entanto, dá sinais que pode ser o último ano da rede social do passarinho azul. Ou pelo menos como a conhecemos.

O Twitter já vinha dando sinais de desgaste no fim do ano passado, quando o tráfego de dados na rede caiu drasticamente em outubro, segundo o site Alexa. Especula-se que a queda só não foi maior pois a rede social foi traduzida para novos idiomas e começou a agregar usuários em países em que ainda não estava presente. A queda de audiência poderia estar ligada à nova interface do site, que estreou no segundo semestre do ano passado e desagradou muitos de seus cadastrados.

A crise política no Egito também ajudou o Twitter a ganhar uma sobrevida e pareceu repetir o feito de 2009, quando o site foi crucial nas eleições presidenciais do Irã. Como disse o comediante norte-americano John Stewart à época: “Não foi o Twitter que salvou o Irã. Foi o Irã quem salvou o Twitter”. Não é exagero dizer o mesmo do Egito em relação ao site. Só que o momento é exatamente oposto: em 2009, a rede social ainda não tinha vivido seu grande momento popular.

O principal aviso de que, provavelmente, o passarinho do Twitter pode estar com seus dias contados veio na quinta-feira da semana passada, quando o jornal Wall Street Journal publicou que os executivos da rede social estariam conversando tanto com o Google quanto com o Facebook para tentar vender o site – e teriam ouvido ofertas que pagariam entre US$ 8 e 10 bilhões pelo serviço.

Uma vez comprado – seja por quem for –, uma coisa é certa: o Twitter vai mudar. E, pelo histórico dos dois possíveis compradores, pode até acabar. Mas isso ainda é terreno de especulação.

Mas um número citado pelo jornal chama atenção – o de que a rede, hoje com mais de 150 milhões de usuários, teria sido avaliada em US$ 4,5 bilhões em dezembro. Em menos de dois meses seu preço dobrou? E se lembrarmos que, nesta mesma semana, o blog Huffington Post foi vendido à America Online por mais de US$ 300 milhões, não duvide que estamos às vésperas de uma nova bolha digital, como a de 1999.

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Minha coluna no Caderno 2 de ontem foi sobre o jornal do iPad…

Um jornal para o iPad
E o futuro (fechado) da Apple

Na quarta-feira da semana passada, depois de muita especulação, finalmente foi lançado o jornal sem papel imaginado pelo magnata das telecomunicações Rupert Murdoch. The Daily é um jornal que só pode ser lido no iPad. Funciona como uma revista eletrônica diária, cuja diagramação se adapta à forma como se segura o tablet, além de conter conteúdo multimídia, como vídeos, áudio e infográficos em movimento. Cada edição custa US$ 0,14 (a assinatura anual custa US$ 39,99), mas, nos dois primeiros meses, o aplicativo é gratuito para os clientes da operadora norte-americana Verizon.

Mas mais do que uma tentativa de ver como funciona um veículo feito para ser consumido em apenas um tipo de aparelho, a aparição do Daily acontece junto de uma mudança drástica na política comercial da Apple. A empresa agora só permite que se baixe aplicativos gratuitos para seu tablet se isso ocorrer em sua própria loja, a App Store. De graça, agora, só se for via Apple.

É um momento interessante e, talvez, crucial para a sobrevivência do modelo de negócios ao redor do hypado tablet. Não custa lembrar que o iPod, o MP3 player que fez a Apple voltar ao cenário digital no início do século, só foi um sucesso de vendas porque permitia a inclusão de músicas que pudessem ser adquiridas em outro lugar além da loja da Apple. Será que se o iPod só tocasse músicas compradas na iTunes ele seria o sucesso que foi? Acho que não.

Outra nuvem que paira sobre o novo negócio da Apple é a própria presença de Rupert Murdoch, cuja empresa, News Corp., comprou o MySpace por meio bilhão de dólares em 2005. Foi o suficiente para a rede social, então a maior do mundo, começar a desandar. O futuro do MySpace, hoje, é mais do que incerto. Mau agouro?

E quem pode desafiar o poder da Apple e de Murdoch são os próprios usuários, como o norte-americano Andy Bayo, que pegou o conteúdo do Daily e o transformou em um tumblr (http://thedailyindexed.tumblr.com), aberto para quem quiser ler. Sem pagar.

Cara Microsoft
“Queria continuar no Hotmail, mas…”

O rapper Dan Bull ficou conhecido no fim de 2009 quando fez uma carta aberta em forma de vídeo à cantora Lily Allen reclamando do fato de ela ter sido descoberta na internet e na época se voltar contra os downloads ilegais. O alvo da nova missiva musical do norte-americano agora é a Microsoft. Num longo e-mail cantado, ele reclama que a empresa só dá passos errados hoje em dia.

McLuhan 100

2011 é o ano McLuhan – e escrevi a capa do Link sobre este assunto, além de traduzir um texto do David Carr sobre o novo livro do Douglas Coupland sobre o sujeito e entrevistar o filho do homem, Eric McLuhan.

O Século McLuhan

Woody Allen e Diane Keaton estão na fila do cinema, em crise (como sempre), enquanto alguém logo atrás deles exibe seu intelectualismo de araque (como sempre acontece em filas de cinema). O papo do coadjuvante começa a irritar Woody Allen, que inclui sua inquietação na briga com sua mulher.

Até que, em dado momento, o sujeito fala em Marshall McLuhan, sobre a influência da TV na cultura atual – é a gota-d’água para nosso herói, que vira-se para a câmera e lamenta a situação. O falastrão, então, interfere o lamento de Woody e começa a se gabar como acadêmico, que teria autoridade para falar sobre McLuhan. É quando Woody recorre a um absurdo genial – e puxa ninguém menos que o pensador canadense para a cena em que, sem pestanejar, crava: “Você não conhece nada sobre o meu trabalho!”.

E quem conhece? Teórico pop e acadêmico transgressor, Marshall McLuhan é o grande pensador da era digital. Um gênio que anteviu a vida eletrônica pautada pela comunicação total dos tempos da internet quando ela nem existia. A partir dos efeitos do rádio na cultura mundial, passou a analisar o impacto da publicidade e da mídia na vida das pessoas, pregando, nos anos 1960, uma transformação que ainda segue em curso. E em 21 de junho de 2011, ele completaria um século de vida, o que faz que este seja o ano de seu centenário.

Entre as comemorações, surge uma biografia que tem como título justamente a frase que McLuhan em pessoa profere no filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de 1977, citado no início. You Don’t Know Nothing of My Work! assinado por Douglas Coupland, outro pensador pop que, em 1991, definiu seus contemporâneos como Geração X, e é uma tentativa de apresentar o trabalho de McLuhan à geração digital.

“Achei o livro divertido”, diz Eric McLuhan, o filho do pensador canadense que se propõe a ser seu sucessor intelectual. Michael McLuhan, irmão de Eric que toma conta do espólio do pai, não é tão otimista: “Achei um lixo. Seus insights sobre Marshall são poluídos com devaneios rasos como o que cogita que ele poderia ser autista – uma fantasia completa – e as páginas de blablabla e jogos de palavras que só distraem o leitor.”

O fato é que o autor de termos e expressões como “aldeia global” e “o meio é a mensagem”, por mais que seja popular, ainda está longe de ser compreendido. Como um Marx ou um Freud da era digital, ele antecipou problemas e discussões que só começamos a entender décadas depois de serem cogitados. Morreu em 1980, deixando sua obra em aberto para considerações alheias. O ideal seria, como no filme, puxar McLuhan do nada para o meio da discussão. É como diz Allen no fim da cena: “Quem dera pudesse ser assim na vida real.”

Entrevista: Eric McLuhan
“A aldeia global encolheu”

O sr. acredita que o trabalho do seu pai é compreendido?
É evidente que o trabalho de meu pai tem atraído a atenção de muitos na mídia atual. Há um dilúvio de material sobre ele – entrevistas e vídeos – repentinamente disponível online, mas só uma pequena porcentagem daqueles que estão interessados em seu trabalho tem alguma ideia do que ele estava falando. No geral, ele é tão incompreendido como sempre foi.

Como o sr. vê a obra de McLuhan à luz da web? A aldeia global ficou ainda menor?
A aldeia global foi criada para explicar os efeitos do rádio na primeira metade do século 20. Com os satélites e a web, alcançamos o teatro global, em que todos estão no palco e não há limites entre o elenco e o público. A aldeia global é parte do conteúdo do teatro global e talvez seja por isso que as pessoas a percebam de forma tão clara, pois ela não está mais no centro, e sim faz parte de algo ainda maior.

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Minha coluna de ontem no 2 ainda seguiu falando da vinda do Wozniak ao Brasil.

Amigos digitais
O pai do PC e o futuro de sua invenção

Há uma semana, terminava a quarta edição da Campus Party, maior evento de cultura digital do País, e sua principal atração, mesmo com as presenças do ex-vice-presidente norte-americano Al Gore e do inglês Tim Berners-Lee, conhecido como o “pai da web”, não dá para dizer que nenhum deles chamou tanta atenção quanto o bonachão Steve Wozniak. Ele foi o criador do computador pessoal como o conhecemos (do formato monitor-teclado-mouse-gabinete) e foi cofundador da Apple – o grande trunfo de Steve Jobs foi perceber que poderia vender a invenção de Wozniak para o público em geral.

Sua palestra foi a mais disputada de todo o evento – e não era para menos, afinal os participantes da Campus Party se espelhavam em sua trajetória: um nerd sem vida social que, enfurnado em seu quarto e com uma ideia na cabeça, conseguiu mudar o mundo como o conhecemos e virar uma lenda viva. Grande parte de sua apresentação consistiu nisso: uma grande palestra de autoajuda em que Wozniak elegeu valores não convencionais no mundo dos negócios como o motivo para seu sucesso. Falou em trabalhar apaixonadamente, em alçar metas que os outros consideram impossíveis e no papel que o bom humor, a transgressão e a brincadeira têm na vida de pessoas que são consideradas geniais. Foi ouvido em silêncio quase solene, interrompido por risadas cúmplices e suspiros de admiração. Estava em casa, afinal.

Pouco antes de sua apresentação e da coletiva oferecida para o resto da imprensa, pude entrevistá-lo e, em vez de jogar a conversa para seu passado, preferi conduzir a conversa para o futuro de sua invenção.

Comecei o papo com a mesma argumentação que defendo aqui há duas semanas – de que aparelhos como o iPad e o Kinect estão mais próximos de degraus rumo ao futuro do computador pessoal do que de aparelhos que estarão em nossa rotina num futuro próximo. Ele concordou e disse que o que ambos aparelhos trazem de novidade diz respeito justamente à interação entre homem e máquina, mais do que novos tipos de produtos. E falou que, no futuro, eles lidarão com computadores como se fossem outras pessoas. “Se tornará bem difícil saber se você está lidando com um computador ou com uma pessoa de verdade”, profetizou.

Exagero? Pode parecer, mas quem diz isso não é um futurólogo ou um provocador, mas o sujeito que, nos anos 70, imaginou que os computadores, geringonças que ocupavam quartos inteiros nas décadas anteriores, seriam utilizados por qualquer pessoa, em casa. E se lembrarmos que boa parte da internet já funciona a partir de uma inteligência artificial bem diferente daquela que vimos nos filmes, não é difícil imaginar que, como o próprio Woz acha, teremos amigos digitais nas décadas a seguir.