Crítica

angelolsen-2020

Ao escolher lançar a versão suntuosa das canções que vinha trabalhando desde 2017 antes de mostrar seus rascunhos em público, Angel Olsen operou um pequeno milagre. Whole New Mess, o disco que releva quase um ano após apresentar seu deslumbrante All Mirrors, nos coloca em uma posição como se pudéssemos ver o processo de criação de trás pra frente – e como as canções de Olsen são joias de quilate ímpar, esta reversão criativa nos faz acompanhar um desabrochar ao contrário, para dentro, como se, a partir da beleza da flor, do deserto ou da borboleta, descobríssemos o esplendor da semente, do grão de areia, da lagarta. Gravado apenas com sua voz e guitarra, o conjunto de canções de Whole New Mess reescreve All Mirrors como uma confissão – e o que antes carregava Angel Olsen aos píncaros da exuberância emocional agora a arrasta em uma dolorosa sessão de terapia, revertendo completamente o brilho do disco que conhecemos inicialmente. E se a versão inicial começava falando em “esquecer é esconder” (na eterna “Lark”), a nova canta que “não demorará muito até que realmente se mostre” (na faixa-título), invertendo a expectativa a partir de seu próprio ponto de vista, mexendo na ordem e no título das músicas à medida em que retira maquiagem, penteado, figurino, pele, carne e osso, deixando apenas o registro espectral de sua alma, suspensa entre acordes e por seu timbre forte e delicado, que às vezes vem cru, outras embalsamado por reverb ou por algum teclado. Não é um All Mirrors do mundo invertido, mas um mergulho nos paradoxos propostos por quaisquer sentimentos, uma radiografia da alma de cada uma das canções, que se reverte de volta para nós, fazendo inclusive a faixa-título do disco anterior (que agora chama-se “(We Are All Mirrors)”, assim mesmo, entre parênteses) ganhar uma nova leitura: “De pé, de frente, todos os espelhos se apagam / A beleza se perde, pelo menos, por vezes, ela me conheceu”, canta o refrão logo depois de confessar, à abertura que “tenho visto todo meu passado se repetindo, não tem fim”. Que disco maravilhoso.

Lovecraft-Country-Episode-2-Whiteys-on-the-Moon

Estou comentando cada episódio da série Lovecraft Country, produzida por JJ Abrams e Jordan Peele e inspirada no universo de H.P. Lovecraft num programa semanal chamado Lovecraft Country Blues. Saca só:

nick-cave-alone

Era inevitável que o concerto que Nick Cave deu sozinho no mítico Alexandra Palace, em Londres, aparecia online logo depois de ser transmitido em regime fechado – só não achei que fosse aparecer tão logo e justo no YouTube. A apresentação reforça o sentimento de solidão global que nos atravessa nesses dias de isolamento social. Armado apenas de sua voz e um piano de cauda, Cave equilibra-se entre a solenidade e o desolamento e se seus shows tradicionais o fazem ir da raiva à prece, aqui estes sentimentos se transformam em desespero e desalento, e atravessando diferentes momentos de sua carreira (que versões absurdas para “Mercy Seat” e “Jubilee Street”, ele tocou poucas canções de seus discos mais recentes, ambos carregados da tristeza e do luto da perda de seu filho adolescente, puxou duas canções de seu grupo tosco Grinderman (que, sem guitarras e rosnados, parecem rascunhos de canções menores de Bob Dylan) e uma inédita, “Euthanasia”, e a primeira versão ao vivo para Idiot Prayer”, que batiza a apresentação. Assista antes que tirem do ar.

“Spinning Song” (em versão falada)
“Idiot Prayer”
“Sad Waters”
“Brompton Oratory”
“Palaces of Montezuma”
“Girl in Amber”
“Man in the Moon”
“Nobody’s Baby Now”
“(Are You) The One That I’ve Been Waiting For?”
“Waiting for You”
“The Mercy Seat”
“Euthanasia”
“Jubilee Street”
“Far From Me”
“He Wants You”
“Higgs Boson Blues”
“Stranger Than Kindness”
“Into My Arms”
“The Ship Song”
“Papa Won’t Leave You, Henry”
“Black Hair”
“Galleon Ship”

taylor-swift-2020

O belo Lover, de 2019, já havia feito Taylor Swift se reerguer do tropeço que foi Reputation, de 2017, e agora ela parecia que iria colher os frutos disso, numa ascendente contínua que seria consagrada com a turnê do disco do ano passado, que encerraria este ano com ela no topo do elenco do festival de Glastonbury deste ano, mas aí veio o coronavírus – e todos os planos foram pro brejo. Mas de forma inesperada, ela consegue retomar a escalada majestática que acompanha sua discografia nos últimos dez anos lançando algo completamente improvável: um disco-surpresa produzido durante a quarentena. Não bastasse fugir de toda a calculada estratégia que ela faz em sua carreira, Folklore, anunciado poucas horas antes de ser lançado nas plataformas digitais, é uma pequena obra-prima acústica e foi gravado ao lado de pouquíssimos – e improváveis – colaboradores, Aaron Dessner do National, Justin Vernon (o Bon Iver, você sabe) e seu produtor de longa data Jack Antonoff, além de um certo William Bowery – que muitos supõem ser seu atual namorado, o ator Joe Alwyn. É isso: Taylor Swift lançou um disco de indie folk no meio do maior evento global desde a Segunda Guerra Mundial.

E que maravilha de disco. Ela recolhe-se ao tom intimista da quarentena e cerca-se de mestres da canção que voltam-se para o acústico com a mesma curiosidade que ela, mas sem tirar o pé do século 21, que paira sobre o disco como um fog eletrônico, que pixela a visão como uma versão digital das ondas de calor que distorcem a imagem que vemos através das chamas. Folklore está longe de ser um disco ortodoxo, como se quisesse abraçar a utopia de um tempo que nunca viveu, e por mais que evoque cordas cátedras (“Epiphany”), ar country (“Betty”) ou dedilhados solenes (“Illicit Affairs”), se localiza essencialmente no século 21, depois que o gênero passou pela feliz deformação alt.country no final na virada do milênio. É um disco de folk que reverencia o Nixon do Lambchop e o Summerteeth do Wilco tanto quanto Nashville, Johnny Cash ou Woody Guthrie. Conversa, de alguma forma, com o primeiro single do excelente 1989, “Out in the Woods”, quando prenunciou que iria lançar algo completamente diferente em 2014. E é com este auxílio instrumental que ela compõe algumas de suas melhores canções: “Cardigan”, “Seven”, “Mad Woman”, “August”, o dueto com Bon Iver em “Exile” e a magistral “The Last Great American Dinasty”, que é o mais perto que Taylor Swift chegou de Bob Dylan. E isso não é pouco – ela está criando seu próprio folclore, precioso o suficiente para que ela retome sua ascensão rumo ao topo do pop. E fazer isso em plena pandemia é admirável.

Neil-Young-1975

Homegrown, o disco que Neil Young lançaria no inicio de 1975 mas preferiu engavetar para só lançar agora, começa com um solavanco brusco, como se fosse uma porta emperrada de uma casa de fazenda que não visitamos há décadas. Ela abre no primeiro empurrão, revelando um ambiente sonoro reconhecível, que vai sendo desenhado primeiro pelo baixo, violão e bateria, que são seguidos por uma guitarra pedal-steel que nos ajuda a nos acostumar com a escuridão. Quando o mestre canadense começa a cantar “Separate Ways” abrem-se as janelas e o sol finalmente pode entrar no disco, depois de anos. Os timbres dos instrumentos – a bateria delicada conduzida por ninguém menos que Levon Helm, a guitarra chorosa de Ben Keith, o baixo truculento e calado de Tim Drummond, o violão e a gaita de Young – pairam no ar como uma névoa de poeira, erguida do chão pela luz e pelo movimento. É o lugar que esperávamos encontrar, mas há algo diferente.

Engavetado pois lembrava do relacionamento que Young estava terminando na época (junto à atriz Carrie Snodgress), Homegrown perdeu-se com o tempo e algumas de suas canções apareceram em outros seus discos, mas seu lançamento nos leva àquele momento dos anos 70 em que o cantor e compositor canadense estava vivendo seu auge musical. O artesanato de suas canções segue intacto como se estivéssemos ouvindo as gravações de Harvest ou Tonight’s the Night, mas há uma sensação caseira e confortável que torna o novo velho disco mais despretensioso e tranquilo, mesmo com as presenças mágicas de nomes como Helm, a cantora Emmylou Harris e Robbie Robertson.

O disco apresenta uma coleção de canções que nos faz lembrar de um passado que mal lembramos, mas que é estranhamente familiar. É como revirar fotos de um casamento passado, encontrar pertences de um parente morto, anotações pessoais de outros anos. Há uma tristeza daquilo ter se perdido, mas ao mesmo tempo um calor ao lembrarmos de como era, algo que Neil traduz em três grupos distintos de canções: baladas melancólicas (“Separate Ways”, “Try” e “Mexico” abrem o disco com essa sensação, que volta ao final, com “Little Wing” e “Star Of Bethlehem”), canções do campo (“Love is a Rose”, “Kansas” e “White Line”), faixas country com algum sabor rock (a faixa-título, “We Don’t Smoke It No More” e “Vacancy”), apenas a falada “Florida” destoa destes grupos, mas acaba funcionando como uma longa e estranha introdução para “Kansas”.

Ao cancelar o lançamento de Homegrown, Neil Young decidiu tirar da gaveta o disco Tonight’s the Night, que havia gravado em 1973 mas não estava certo de lançá-lo por ser uma homenagem ao guitarrista Danny Whitten, que havia falecido há pouco. Ao adiar Homegrown indefinidamente, o canadense abriu espaço para o disco anterior, que logo que saiu foi consagrado como uma de suas obras-primas. O disco relançado este ano não tem a força e o sentimento profundo dos grandes clássicos de Neil, mas seu despojo e intimidade o tornam um belo retrato do artista longe das pressões que o atravessavam à época. Discaço.

Um novo patamar

norahjones

Em seu oitavo disco, Pick Me Up Off The Floor, a cantora, compositora e pianista norte-americana Norah Jones encontra timbres e ambiências que ajudam a lapidar de forma mais precisa seu pop perfeito, abandonando de vez as afetações plásticas do jazz pop que a revelou e afinando suas canções com os experimentos a que se propôs nos últimos anos. Na última década ela tirou onda com sua versatilidade musical na coletânea Featuring… (mostrando músicas ao lado de nomes como Foo Fighters, Herbie Hancock, Willie Nelson, Outkast, Q-Tip, Talib Kweli, Belle and Sebastian, Ray Charles, Ryan Adams, Dolly Parton e outros) e gravou duas vezes com o produtor Danger Mouse, primeiro no projeto Rome, que ainda contava com o italiano Daniele Luppi e Jack White, depois no ótimo álbum, Little Broken Hearts, de 2012. Ela retomou o piano no belo Day Breaks, de 2016, e agora amarra tudo num disco que, apesar da sonoridade moderna (mesmo querendo soar retrô), poderia ser gravado nos anos 60 ou 70. É seu melhor disco – e se ela seguir esse padrão daqui pra frente, não tem com o que se preocupar…

Isso sem contar a ambiguidade que letras como “This Life”, “Hurts To Be Alone”, “To Live” e “Were You Watching”, todas maravilhosas, ganharam ante a quarentena…

jaar2020

Depois de lançar 2017-2019, um abalo sísmico em forma de disco, no início deste ano com o pseudônimo Against All Logic no início do ano, o produtor americano-chileno Nicolas Jaar lança mais um disco em 2020 – o primeiro disco com seu nome de batismo desde Sirens, um dos melhores discos da década, lançado em 2016. Mas Cenizas – “cinzas”, em espanhol – é um mergulho para dentro em que o produtor deixa toda a expansão rítmica de lado e nos convida para uma viagem erma e distópica, como se antevesse os dramas da atual quarentena ao nos confinar solitários em nossas casas – e nossos corpos. O próprio confinamento foi ponto de partida do disco, este voluntário, quando Jaar se isolou sem álcool, cigarros e café para parir o disco sem outros estímulos a não ser os seus próprios. O resultado é um disco denso e delicado, uma esfinge sem olhos que nos persegue pelo tato, empilhando ralas camadas de um jazz alienígena, estranhamente familiar, compostos por temas ocos e secos, mas fortes e intensos e que conversa com seu primeiro disco desde o título daquele álbum, Space Is Only Noise. Impaciente e incrédulo, é o segundo grande disco que Jaar produz no mesmo ano, exibindo sua maestria em ambos extremos de uma pista de dança futurista e sem esperanças.

glover2020

Donald Glover vem lentamente acalentando sua escalada. Começou na TV, primeiro escrevendo pro seriado 30 Rock da Tina Fey e depois compondo pro elenco da série cult Community. Na paralela, lançou-se como rapper com o pseudônimo de Childish Gambino, mas foi com seu nome batismo e na TV que ganhou fama de fato, quando criou a série Atlanta, em 2016, que conta a história de um rapper iniciante e seu primo empresário (vivido pelo próprio Glover). Mexendo as peças do tabuleiro do showbusiness com precisão e paciência, ele construiu sua carreira em momentos únicos e magistrais, como o clipe de “This is America”, o filme Rihanna Island (chamando apenas Rihanna para ser seu par) ou vivendo personagens icônicos como Lando Carlrissian no filme Han Solo ou o Simba no remake filmado do clássico desenho Rei Leão. E agora acaba de lançar um disco de surpresa.

Donald Glover Presents 3.15.20 não é propriamente uma surpresa porque ele revelou o álbum no domingo passado, quando o colocou para tocar por um doze horas em loop no site Donaldgloverpresents.com, tirando-o do ar no mesmo dia. Agora ele chega com o disco em todas as plataformas digitais batizando-o com a data de sua primeira transmissão ao mesmo tempo em que desafia formatos e rótulos. O disco está publicado como um longo disco de 57 minutos em nome de Donald Glover em seu canal no YouTube, mas seu codinome musical, Childish Gambino, o publicou com os nomes das músicas – que, salvo duas exceções, são apenas as marcações de minutagem dentro da contagem contínua de tempo do álbum. O disco ainda por cima não tem capa – ou melhor, traz apenas um quadrado branco como apresentação visual.

donaldglover-31520

Eis o nome das músicas:

“0.00”
“Algorhythm”
“Time”
“12.38”
“19.10”
“24.19”
“32.22”
“35.31”
“39.28”
“42.26”
“47.48”
“53.49”

O Genius.com conseguiu pegar os nomes originais das canções quando elas foram transmitidas pela primeira vez:

“We Are”
“Algorhythm”
“Time”
“Vibrate”
“Beautiful”
“Sweet Thing”
“Warlords”
“Little Foot”
“Why Go To The Party”
“Feels Like Summer”
“The Violence”
“Under The Sun”

Mas no fundo o que importa é a música – e Glover esmerilhou. Se seu disco mais recente (Awaken, My Love!, de 2016) emulava o P-Funk de George Clinton demais, desta vez ele ampliou sua cartilha de referências e agora reverbera Outkast, Frank Ocean, Kanye West, Prince e Stevie Wonder, soando tanto soul quanto rap, tanto funk quanto R&B. E num amálgama de referências de épocas diferentes, ele sobe mais um degrau em sua carreira, chegando a um novo patamar, entrando discretamente, mas sem humildade, no panteão da música contemporânea atual. Lançado sem muita explicação (e com participações de nomes como Ariana Grande, Kadhja Bonet e seu filho Legend), ele afirma que é seu último disco como Childish Gambino – e 3.15.20 soa como isso, o fim de um capítulo – e o início de outro. Além de ter sido lançado sem mesuras no meio de uma pandemia. Discaço.

Yuksek bateu!

yuksek-nosso-ritmo

E o disco novo do produtor francês Yuksek é uma pérola flambada na música brasileira para dançar. Nosso Ritmo, escrito assim mesmo em português, segue as obsessões do produtor, que ainda habita o terreno da disco music e sua transformação em house entre o final dos anos 70 e o começo dos anos 80. E então ele começa a investigar os paralelos brasileiros desta mesma sonoridade na época e nos convida a um mergulho em uma irresistível pista de dança, que mesmo com o 4 x 4 do beat característico do produtor, consegue absorver texturas e levadas típicas do funk samba e do samba soul do mesmo período (ele menciona nominalmente Marcos Valle, Gilberto Gil e Di Melo) – e convida vários compadres para juntar-se ao disco, entre eles Breakbot (que ao lado de Irfane protagoniza um dos melhores momentos do disco, a deliciosa “Only Reason”), Zombie Zombie, Confidence Man, Jean-Sylvain de Juveniles, Polo & Pan, entre outros.

Mas três momentos específicos têm brasileiros na mistura e são presenças decisivas. Dois deles – minha favorita “Bateu”, que foi lançada como single em 2017, e “Corcovado” – contam com o apoio preciso da dupla Fatnotronic, composta por Rodrigo Gorky e Philip A. O terceiro momento é a releitura de “Mais Kriola”, do saudoso Hélio Matheus. Discaço.

Futuro insípido

idoru-grimes

Se Art Angels havia levado o pop futurista da canadense Grimes para um mundo distópico e claramente artificial, em seu novo álbum, Miss Anthropocene, ela conclui esta transição abandonando completamente a graça e a leveza que ainda restavam no disco anterior. Agora ela prende-se apenas na estranheza e num futuro abstrato e descartável, que embora agradável e correto, torna-se esquecível a cada canção. Ao aliar o lançamento do álbum a dois clipes da música “Idoru” – quase idênticos, diga-se de passagem -, ela parece abandonar a paisagem do pop contemporâneo para fechar-se em uma biosfera própria, como outras artistas de sua categoria, como Björk e Billie Eilish. Mas ao distanciar-se do elemento mais incomum de seu ecossistema – as doces melodias e letras precisas, justamente o elemento pop -, ela parece concluir sua transição rumo à irrelevância. Uma pena.