Indie

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“Pra mim é tipo o nosso Incesticide, eu inclusive quis chamar de AustIncesticide”, ri o guitarrista Benke Ferraz sobre o recém-lançado disco de sobras que não entraram em seus dois discos mais recentes, Lá Vem a Morte e Sombrou Dúvida, ambos compostos e gravados em uma casa em Austin, no Texas, nas três temporadas entre 2016 e 2018 quando o grupo goiano passou pelos Estados Unidos nos anos passados. A referência à coletânea de músicas soltas que o Nirvana tinha espalhadas e que foram reunidas após o sucesso de Nevermind não faz jus à Manchaca – Volume 1, que ao mesmo tempo em que reúne sobras, demos, ensaios e versões cruas de músicas dos dois discos (além de outras pérolas, como a versão “João 3 Filhos” que Dinho mandou para Ava Rocha eternizar em seu Transa), reforça a importância do período nos EUA para o amadurecimento do grupo como banda. O disco tem esse título tanto porque a casa em que moravam e ensaiavam nos EUA ficava numa rua que tinha este nome (que quer dizer “atrás de” em um idioma nativo norte-americano) e acaba sintetizando uma era na história da banda, principalmente porque esta era foi encerrada abruptamente pela atual pandemia. E não é volume 1 à toa, o guitarrista promete que o 2 sai até novembro. Bati um papo com Benke sobre como esse novo trabalho reflete a maturidade da banda e a importância destes dois discos – e deste material que está vindo à tona agora, que mistura jam sesions, demos, versões caseiras e outtakes.

Quando vocês pensaram em transformar esse material num disco só? Foi antes ou depois da quarentena?
Bem antes. Na verdade estamos devendo o Manchaca desde o natal para o fãs que nos acompanham assiduamente.
Queríamos lançar exclusivo no Bandcamp, sem mexer muito no que estava largado dessas sobras. Só soltar mesmo uma parte daquele material, não queria nem masterizar. Mas quando apresentamos essa primeira versão para o selo OAR, eles sentiram que valia a pena dar um tempo pra aparar algumas arestas e também lançar oficialmente nas plataformas – tinha ficado para abril a princípio, antecipando a turnê que faríamos em maio pela Europa. Nesse tempo fomos melhorando a mix de algumas músicas – e também cavando mais fundo nos arquivos perdidos ali nos HDs, perdendo o pudor de usar algumas canções que julgávamos fazer parte de um próximo disco de estúdio. Enfim, a idéia vem de antes, mas tomou essa forma de arrematar a narrativa dos anos de gravação no Texas com o passar da quarentena.

Vocês lembram por que escolheram essa casa como lugar para ficar em Austin?
Foi tudo um esquema meio clássico de produção, onde não decidimos muito detalhes, só tentamos arquitetar o cenário ideal para produzir algo em meio as turnês longas que teríamos pelos EUA. Um dos sócios da OAR, o selo que lançou todos discos dessa “era Manchaca”, é dono do Space, estúdio onde gravamos em 2017 e 2018 e essa casa ficava ao lado do estúdio, estava recém desabitada e era perfeita. A idéia era usarmos o estúdio nessa primeira ida em 2016, mas acabamos preferindo montar os equipamentos que havíamos alugado pela casa mesmo e mal fomos ao estúdio.

Manchaca só reforça que Lá Vem a Morte e Sombrou Dúvida são parte de um mesmo processo e período. Conte como vocês chegaram a essa sonoridade e como vocês dividiram entre esses dois discos?
Antes mesmo de pensar no processo e no que estávamos vivendo naquele momento, tem o fato de que com as gravações na Manchaca temos os primeiros registros do Ynaiã em estúdio conosco, depois de quase dois anos de estrada, começando em 2016 por esse processo caseiro, onde eu fazia toda engenharia e produzia as sessões. Algumas canções já tinham arranjos com banda, mas a maioria estava pra ser arranjada ali na casa mesmo – então o ritmo era bem espaçado e disperso… Não havia aquela rotina que o prazo de um estúdio te impõe. Gravávamos as guias com um violão ou guitarra, Ynaiã improvisava pelas músicas, eu buscaria ali os loops de bateria legais. Pras canções que pediam mais essa liga de banda poderia rolar deles gravarem juntos, acho que “Foimal” “Corredor Polonês” rolou a base toda com Dinho, Fefel e Yna, mas eu mesmo não acho que cheguei a tocar um take ao vivo ali na casa, só nos improvisos mesmo (como “ASMR Manchaca”).
Ai no ano seguinte, fomos para o SXSW pela segunda vez, e depois do festival – ou antes, hehe – passamos duas semanas no Space, ensaiando de segunda a quinta e gravando de sexta a domingo. Ali estávamos em um estúdio profissional, com um engenheiro profissional, Tim Gerron, que elevou bastante o nível da captação e também abriu as possibilidades pra explorarmos o que desenvolvemos ali na casa, mas dessa vez com todos focados em tocar simplesmente. O processo de lapidar os arranjos, com um engenheiro competente do outro lado da sala, fez a gente poder ter um registro da banda tocando de maneira livre e com uma potência. Sem nos limitar também a ter que trabalhar só com o que foi feito ao vivo, ele podia editar e rearranjar questões estruturais das canções conosco, sem afetar ali as sonoridades orgânicas, uma vez que as performances estavam bem gravadas e tocadas.

Manchaca também revela o processo de criação das músicas, mas vocês veem como um making of, um extra dos dois discos, ou ele é mais do que só uma coletânea?
Com Manchaca percebi que gostamos mesmo de nos esquivar dessas definições, né… Ao mesmo tempo que acho massa demais poder falar que minha banda tem uma coletânea temática, não uma coletânea qualquer de “greatest hits”, hehe. Inventamos um tema, amarramos os pontos e jogamos pro mundo. Assim como foi o Lá Vem a Morte, sendo lançado inicialmente como um “EP longo” e depois se firmou naturalmente, reinvidicando um lugar como terceiro disco de estúdio. O mesmo com o Sombrou, que traz com o nome uma provocação meio escapista e também chegou sem saber se era o terceiro ou quarto disco de estúdio.

Ele também retrata o período de consolidação da banda como quarteto. Quanto tempo vocês tocavam por dia? O quanto vocês tocavam e improvisavam e o quanto trabalhavam na pós-produção, outra característica deste período da banda?
O período da casa, como falei antes, foi bem disperso. A gente tava vindo de turnês bem gratificantes, mas muito cansativas – começamos uma turnê abrindo pro Andrew Bird por casas clássicas dos EUA e eu fui pego por algo tipo zika vírus – não fui pro medico la com medo de ser quarentenado – no segundo show da turnê. Tive febres, dores nas juntas e toquei sentado boa parte desse primeiro mês – o Dinho chegou nessa turnê com diagnóstico de um cisto na garganta. Então a coisa toda de ficarmos na casa tinha um ar de “rehab” também, ter a oportunidade de nos recuperar fisicamente depois de, sei la, 60 shows seguidos ali. A convivência entre nós é sempre boa, mas também pegava pesado ali a saudade de casa, aquela depressão potencializada pela maconha transgênica dos gringos, hehe.
Então não consigo dizer exatamente, tinha dias que não faríamos absolutamente nada, até porque comigo guiando o processo de produção as coisas ficavam muito a cargo dessa pós, né… Muitas vezes era abstrato pro Ynaiã o que seria usado daquilo que ele tocava acompanhando uma guitarrinha que Dinho gravou, etc. Mas também havia noites onde fazíamos improvisos infinitos também, gravando três horas de tocada livre. Em uma dessas saiu a faixa “Manchaca” que encerra o Desvio Onírico, a mesma onde Dinho começou a puxar os versos cantando “Sombra ou Dúvida / Sombrou Dúvida”.

O que vocês têm feito neste período de quarentena?
Tentamos manter um contato constante, até porque a manutenção das finanças é bem delicada num período sem shows, mas felizmente tudo se controlado. Venho mixando/produzindo cada vez mais, mas agora com toda essa movimentação para o Manchaca, já estou me sentindo sobrecarregado, hehe. Quanto aos meus sócios: Dinho não para de compor e de criar bons laços pela música, só durante a quarentena saiu parcerias dele com Tagore, Betina, Kalouv, capaz que esqueci alguma. Fefel vai lançar um disco top com a Alejandra Luciani, num projeto fresquinho ai, chamado Carabobina e o Ynaiã acabou de se mudar pro Rio, voltando pra perto da família e estando mais próximo de conseguir alguma boquinha ali no Projac, pode ser que comece a tocar com a Iza também.

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Os Stones segue sua saga de avisar para todos que a caixa do Goat’s Head Soup, o disco da banda de 1973, está para sair e entre as novidades, há “Scarlet”, faixa perdida que o grupo inglês havia gravado com Jimmy Page e que já ganhou clipe com um ator da moda, remix do War on Drugs e agora ganha outro retrabalho a cargo grupo Killers, que chamou o francês Jacques Lu Cont para dar um tapa na faixa.

Não ficou bom nem ruim… Ficou passável.

Um gole de Fernê

Foto: Julia Maurano

Foto: Julia Maurano

O nome da banda originalmente era Folk Project e reunia amigos de diferentes escolas da Zona Oeste de São Paulo que se reuniram, como o nome entrega, para tocar folk. “Mas o projeto foi tomando outras formas na medida em que nossas personalidades ultrapassaram as referências, assim, o som foi ficando menos acústico, mais intenso e catártico”, me explica a vocalista do Fernê, Manuela Julian, em entrevista por email. Aos poucos as guitarras foram entrando nas composições, rugindo microfonias que deixavam a vocalista mais à vontade para soltar-se e liberar a banda para entrar num estágio entre o indie e o noise, mas sem nunca deixar a melodia e a melancolia sair do primeiro plano. O quinteto agora prepara-se para lançar o primeiro EP e antecipa o primeiro single, “Consolação”, em primeira mão para o Trabalho Sujo.

Além de Manu, que também canta na banda Pelados, o Fernê ainda conta com outros nomes em ascensão da cena paulistana em sua formação, como o cantor e compositor Chico Bernardes, irmão do Tim d’O Terno, que deixa o violão de lado para assumir a guitarra e vocais, e o baterista Theo Cecato, que toca com a Sophia Chablau e Laura Lavieri. Completam a formação o baixista Tom Caffe e o guitarrista Max Huszar, sendo que este último entrou após a gravação do EP, que aconteceu no ano passado. “Gravamos o EP no Estúdio Canoa, com o querido Thales Castanheira como produtor e técnico”, lembra a vocalista, “foram tardes muito gostosas onde gravamos todo o som ao vivo, direto na fita cassete. Muita música, papo e baião de dois.”

Entre as referências musicais, citam desde bandas contemporâneas como Fleet Foxes, Beach House e Grizzly Bear quanto clássicos como Nick Drake, Tortoise, Neil Young e claro, Clube da Esquina e Mutantes. “Caetano Veloso e Björk são exemplos de artistas que unanimemente ocupam um lugar especial para todos nós, chegamos a fazer covers deles por isso”, explica Manu, mencionando “Terra” e “Hunter” como versões escolhidas.

O disco, que leva apenas o nome da banda, será lançado no início de setembro, pelo selo Seloki, e devido à quarentena, o grupo obviamente não fará shows. “Já que estamos entocados e separados, infelizmente não temos previsão para um show: estamos esperando um momento mais apropriado pra nosso reencontro”, continua a vocalista, que promete que uma audição em primeira mão do EP através da conta da banda no Instagram (@ferne.insta).

“Olha, passar pelo processo de lançamento sem poder tocar ao vivo é uma tristeza, porém, estamos aproveitando esse momento para elaborar nossa linguagem visual e ideias para o projeto de maneira profunda, o que achamos que querendo ou não é um processo importante”, continua a vocalista, reforçando que eram essencialmente uma banda de shows, “estamos morrendo de saudade do palco…”.

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O Yo La Tengo abriu a quarta-feira anunciando o lançamento de mais um EP, o segundo lançado nesta quarentena (depois do ótimo ambient instrumental We Have Amnesia Sometimes). Sleepless Night é um projeto em parceria com o artista japonês Yoshitomo Nara, que escolheu com o grupo versões de músicas para tocar em sua exposição de retrospectiva no Los Angeles Country Museum of Art. São músicas de Bob Dylan, Flying Machine, Delmore Brothers, Ronnie Lane e dos Byrds reunidas no disco com a faixa inédita “Bleeding”. O grupo escolheu “Wasn’t Born To Follow”, composta por Carole King e Gerry Goffin e eternizada pelos Byrds, para mostrar no anúncio do disco, cuja capa é desenhada pelo próprio Nara.

O disco será lançado em outubro e já está em pré-venda. Abaixo, sua capa e a ordem das músicas:

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“Blues Stay Away” (dos Delmore Brothers)
“Wasn’t Born to Follow” (dos Byrds)
“Roll On Babe” (de Ronnie Lane)
“It Takes a Lot to Laugh” (de Bob Dylan)
“Bleeding”
“Smile a Little Smile for Me” (do Flying Machine)

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Autora do melhor disco brasileiro de 2019, a carioca Ana Frango Elétrico está só começando – e com dois discos festejados, um livro no forno e uma reputação em construção, tanto no Brasil quanto no exterior, ela começa a repensar os próximos passos da carreira, depois de um período de reclusão criativa no início da quarentena. Aproveitei a deixa para conversar com ela sobre processo criativo, sobre assumir as produções de seus trabalhos e sobre como foram estes primeiros anos de sua carreira, como foco maior no sensacional Little Electric Chicken Heart, que agora está virando vinil. E ela aproveita para falar de novidades que vêm por aí – e mais rápido do que a gente possa pensar.

O Bom Saber é meu programa semanal de entrevistas que chega primeiro para quem colabora com meu trabalho, como uma das recompensas do **Clube Trabalho Sujo**. Além da Ana, já conversei com Bruno Torturra, Dani Arrais, Negro Leo, Janara Lopes, Tatá Aeroplano, João Paulo Cuenca, Eduf, Pena Schidmt, Roberta Martinelli, Dodô Azevedo, Larissa Conforto, Ian Black, Fernando Catatau, Mancha, André Czarnobai e Alessandra Leão – todas as entrevistas podem ser assistidas aqui no Trabalho Sujo – ou no meu canal no YouTube, assina lá.

tameimpala2020

O grupo australiano Tame Impala finalmente mostra ao vivo seu quarto disco, The Slow Rush, que iria começar a ter seus primeiros shows ao vivo um pouco antes de começarmos essa quarentena. E o grupo de Kevin Parker se apresentou no formato trio, batizando-se de Tame Impala Soundsystem, e trazendo versões mais pista para três faixas de sua safra mais recente de canções – duas de seu disco mais oitentista, “Breathe Deeper” e “Is It True”, e uma que foi lançada no começo dos trabalhos do novo disco, “Patience”. O show aconteceu dentro da programação remota do Tiny Desk Concert da emissora pública norte-americana NPR.

washedout-2020

No começo deste mês o grupo Washed Out mostrou seu novo disco, o excelente Purple Noon, em que retoma sua sonoridade já clássica depois do experimento funky Mister Mellow. E para marcar o lançamento do disco, cuja atmosfera foi inspirada no filme franco-italiano O Sol por Testemunha, de 1960, com sua vibe de por do sol no Mar Mediterrâneo, o grupo apresentou-se ao vivo na beira do mar, ao por do sol, numa apresentação deslumbrante…

“Time to Walk Away”
“Reckless Desires”
“Too Late”
“Face Up”
“Hide”
“Paralyzed”
“Leave You Behind”

De quebra, o cérebro e coração da banda, Ernest Green, apresentou novamente parte do repertório do disco em um show na cozinha de casa gravado para a rádio KEXP, ao lado de sua companheira e também integrante da banda, Blair Greene.

“Paralyzed”
“Time To Walk Away”
“Face Up”
“Too Late”

E o disco tá lindão…

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Que maravilha essa transformação a que Kieran Hebdan submeteu em uma das faixas do disco mais recente de Kevin Parker. O remix que o senhor Four Tet fez para “Is it True?” tira a faixa mais besta do disco novo do Tame Impala, The Slow Rush, dos anos 80 para elevá-la espiritualmente rumo a uma dimensão fluida entre beats da virada do século e acordes ambient que parecem sempre terem existido, aprofundando a canção para além de seu ar pop vespertino original.

bonifrate-diversionismo

Um Sonic Youth aqui, um Belchior ali, um Plato Dvorak com Frank Jorge acolá, um Alceu Valença mais adiante… A disparidade de autores reunidos no primeiro disco de versões lançado por Pedro Bonifrate nesta quinta-feira dissipa-se quando enfileirados na ótima surpresa que é este Diversionismo: versões & fantasias (2004-2020). “Volta e meia pensava em juntar essas versões que fiz por aí e que achei que ficaram legais, inventivas em relação às gravações originais, num álbum só pra elas”, me explica por email, falando de um disco que inevitavelmente soa folk e psicodélico, derretido e solar como a maioria de seus trabalhos, seja em carreira solo, seja à frente do falecido grupo Supercordas.

“Engraçado é que a maioria dessas versões foram encomendadas pra tributos de artistas que certamente não seriam meus primeiros escolhidos se eu fosse pensar em que versões fazer por mim mesmo”, continua quando pergunto sobre as músicas escolhidas para o disco. “Por exemplo, eu acho que se ouvi um disco inteiro do The Fall foi uma ou duas vezes no máximo”, Bonifrate lembra da versão que fez para o tributo ao grupo inglês de Mark E. Smith, proposto pelo dono do selo Midsummer Madness, Rodrigo Lariú. “Ele me passou algumas sugestões e “Psykick Dancehall” me chamou atenção pela letra que achei muito bonita, então foi quase como musicar uma poesia”. Bonifrate também lembra desta maravilhosa versão, que soa como um encontro de Neil Young com George Harrison, como marco para definir o rumo deste disco. “Eu realmente gostei muito de como ficou, o Lariú também, mas ainda ficaria pequeno pra ter um álbum cheio”, relembra.

Diversionismo só começou a ganhar uma cara a partir da quarentena de 2020. “Durante o isolamento tive vontade de fazer com ‘Home of the Brave’, do Spiritualized, o que eu já tinha feito ao vivo uma vez ou outra e isso já inteiraria uns 30 minutos e achei que estava de bom tamanho. Já estava organizando o material pro disco quando o Pedro Montenegro pediu um cover de qualquer música brasileira pro programa dele na Soho Radio de Londres, o BarKino. Então fiz ‘Íris’ do Alceu pra ele e a coisa ficou ainda mais redonda”.

E entre um Sonic Youth quase indígena (“100%” como se fosse “My Wild Love” dos Doors), um Belchior renascido no Magical Mystery Tour (com uma lisérgica “Hora do Almoço”, gravada no disco-tributo organizado pelo Scream & Yell) e uma “Happiness is a Warm Gun” tocada num saloon, ainda há espaço para um afrossamba! “O tributo aos Afro-Sambas d’A Escotilha me pegou totalmente de surpresa, eu podia escolher quase qualquer faixa e não me via fazendo nenhuma, é tão tipo não-a-minha-onda que não visualizei”, lembra Pedro. “Mas no final ouvi o ‘Lamento de Exu’ e pensei ‘ah isso é bem abstrato, consigo fazer algo com isso’. Depois ouvi a versão de 1990 do Baden Powell sozinho e ela sim me encheu de ideias, e acabei fazendo uma das gravações minhas de que mais gosto.”

“Acho que essa aleatoriedade dos convites ditou a onda dessa compilação, as leituras me parecem improváveis em tantos aspectos, e acho isso ótimo”, prossegue. “Só a do Spiritualized, a do Alceu Valença e a dos Beatles partiram de uma vontade própria de fazer aquelas canções especificamente.” Quando pergunto se alguma ficou de fora, ele força a memória. “Se ficou, foi outra do Spiritualized que foi a primeira coisa que eu fiz quando tive um gravador de fita de 4 pistas na minha frente lá pra 1998, mas não consegui encontrar no meio de tantas fitas, e acho que hoje deve soar bastante tosca, até pros meus padrões”, confessa.

Ainda mais isolado devido à quarentena, ele segue no meio do mato em sua cidade-musa Paraty. “Olha, não posso dizer que estamos na pior. Moramos perto da natureza, temos duas crianças na casa que dão muito trabalho mas muita alegria também, e por enquanto temos esse ‘privilégio’ do isolamento social – que nada mais é do que um direito que só é garantido a poucos no Brasil. É doido como dá trabalho ficar em casa, tanta coisa pra fazer, pra limpar, pra secar, pra esfregar, pra martelar, pra rastelar e eu já me pergunto como é que eu conseguia existir trabalhando de 8h-17h antes disso”, confessa.

Quando fala na primeira pessoa do plural, refere-se a ele e à esposa, Thalita Silva, que cada vez mais participa do trabalho de Pedro, cantando desta vez em três canções, além de aparecer na capa do disco. “Na real ela já estava na capa do Museu de Arte Moderna (2013) e gravou uns vocais pra última faixa, ‘Canção de Pelúcia’. Volta e meia ela grava umas vozes, teve ‘Rock da Paçoca’ do Toca do Cosmos EP (2014), ‘Rã’ do Lady Remédios (2017), e na ‘Parte VI’ do Mundo Encoberto (2019) ela não só canta solo como toca caixa, meio que de um jeito como se toca a Caixa do Divino, do Maranhão, porque ela toca num grupo de caixa daqui de Paraty há alguns anos. Ela tem uma musicalidade muito intuitiva e uma voz muito bonita e aerada, que sempre cai bem.”

Mas nem só de versões vive o velho supercorda em 2020 e já anuncia mais um disco solo, o primeiro desde que seu antigo grupo acabou. “Um novo álbum como Bonifrate já está quase pronto, com canções próprias e inéditas”, revela. “O Diogo Valentino está terminando de mixar aí em São Paulo e deve sair nos próximos meses. Fora isso, vamos tentando ficar vivos e sãos pra encarar esse mundo esquisito que vem logo depois da curva.”

Billie-Eilish-my-future

A cada passo em direção a seu novo disco, Billie Eilish reforça a mudança que tem atravessado como artista, sublinhando que não quer mais ser vista essa caricatura de enfant terrible com it-girl da geração Z que lhe transformaram e vem aproveitando este estranho 2020 como plataforma para esta mudança. Começou ainda em 2019, quando, com a contemplativa “Everything I Wanted” mudou o tom de sua abordagem, sublinhando a presença do irmão Finneas em seu processo criativo e entrou no novo ano, quando ela mostrou “No Time to Die”, música que compôs para o próximo filme de James Bond antes de entrarmos em quarentena. Agora ela surge como coadjuvante de luxo da eleição para presidente dos EUA, mostrando a recém-lançada “My Future” pela primeira vez ao vivo na convenção do partido democrata dos EUA que oficializou o nome de Joe Biden como . Não sem antes passar seu sabão no momento político atual de seu país.

“Você não precisa que eu diga que as coisas estão uma bagunça – Donald Trump está destruindo nosso país e tudo que nos importa. Precisamos de líderes que resolvam problemas como mudança climática e o covid – não os neguem. Líderes que lutarão contra o racismo sistêmico e a desigualdade. Começa votando contra Donald Trump e por Joe Biden. O silêncio não é uma opção e não podemos ficar de fora. Todos nós temos que votar como se nossas vidas e o mundo dependessem disso – porque eles dependem. A única maneira de ter certeza de nosso futuro é fazê-lo nós mesmos. Por favor registre; por favor vote.”

Mais uma vez acompanhada do irmão e de um baterista, ela dominou completamente a cena, cantando seu novo single com leveza e desenvoltura, ciente de todo o simbolismo da situação: o fato de votar pela primeira vez por ter apenas 18 anos, o fato de representar os nascidos no século 21 que, como ela, pode votar pela primeira vez para presidente em 2020 e estar cantando uma música chamada “My Future” em um evento que poderá decidir o futuro dela, de seu país e de todo mundo.

Ela vai longe…