Brasil

Os quatro tão quietinhos e soltaram, na surdina, uma música nova, através da segunda edição do tributo aos anos 80 em forma de compilação em MP3 organizada pelo Buffet Libre, chamada Rewind (que, no geral, é bem fraca, mas tem uma coleção de adeptos devido à sua larga aceitação de colaboradores). A própria faixa do Bonde não é grandes coisas: uma releitura didática de “Papa’s Got a Brand New Pigbag“, do Pigbag, em que a corneta sintética do funk carioca substituiu os metais originais e uma letra que limita a repetir “põe o peru pra dentro/põe o peru pra fora” como se a vocalista recebesse – e bem – por cada vez que repete a frase. Bem meia-boca.


Bonde do Rolê – “Papa’s Got a Brand New Pigbag

Num ano em que uma das principais protagonista foi uma menina de 15/16 anos, quatro moleques um pouco mais velhos que isso (mas com menos de 20 anos) surgiam de Colatina, no interior do Espírito Santo, cantando a seguinte canção:

“I was born in the 90s and asked my mom
“Why did i came so late?”
Cause all my friends born in 80s
And i’m still lost in 90s
Oh my god, something isn’t OK

When i go to the club
Waiting DJ play J-Lo
The only thing i hear is another Devo song
I wish Spice Girls were younger
So they could save the world

I was born in the 90s

(91 or 92 or 93 or 94)
We were all born silly guys
Now all we think is about fuck

(I’d say I love Prince if you stay
Come and wash my “Purple Rain”)

I still love my walkman
Cause these ipods are only trends

Come to my house
Spend the afternoon watching friends
Then we could go my room
Do the “Macarena” dance
Can’t touch this?
Can’t touch this?
Don’t go on baby cause it’s not working
I’m horny but I’m not a slut
I was born in the 90s

Save my posters of Backstreet Boys
My Nintendo and Lion King box
Hold on mother I’m coming home tonight”

Toda “I Was Born in the 90s” é noventista: irônica, cospe referências como se precisasse delas para parar em pé, transformando pós-punk inglês em hit de rádio, enquanto finge apatia e casa riffs secos com bateria crua e camas de teclado que resvalam no gótico. E a música é uma demo. Forma e conteúdo não se distinguem e faz com que a Gangue do Mickey soe moderna e retrô ao mesmo tempo – algo como se o tema dos anos 00 fossem a volta dos anos 00.

32) Mickey Gang – “I Was Born in the 90s (Demo)

Destacando um das notícias do Leitura Aleatória anterior, a entrevista que o Globo fez com o consultor jurídico da ABPD vem cheia de pérolas como essa:

Existe uma cultura de compartilhamento e há quem jogue arquivos na internet com o propósito de ajudar aos outros, tendo até trabalho para converter arquivos, mas com um espírito de comunidade, com a ideia de estar ajudando o próximo. Como acabar com a ideia de que se está ajudando alguém e não cometendo um crime?
É uma cultura meio Robin Hood. Você pode assaltar o meu armazém, tem uns caras querendo comer um cachorro-quente e então vamos assaltar o McDonalds. O cara que receber o cachorro-quente vai ficar feliz da vida, o dono não vai ficar nem um pouco. Não é assim que a sociedade funciona. Ou então, se é assim, vale para tudo. Atenção! Se vale para isso vale para tudo. Pô, tô sem dinheiro, você tem cartão de banco? Poxa, não tenho, então vamos quebrar um caixa-forte.

Vale ser lida na íntegra – e o Nogueira sublinha os pontos mais interessantes do papo.

A vantagem com que Florianópolis conta por não ter estabelecido uma cena musical própria em qualquer esfera de reconhecimento nacional é que não há expectativa em relação ao que pode sair de lá. E, sim, há uma certa fervura na cena da ilha que tem a ver com a ida do ex-VJ Gastão para a lá (e a posterior inauguração de sua casa noturna, a Célula), a criação da cooperativa de bandas Clube da Luta e da coluna do jornalista e compadre Marquinhos Espíndola, a Contracapa, e, claro, ao trabalho incansável de bandas como Pipodélica e Ambervisions que passaram a década insistindo em fazer música. Aí qual é a surpresa quando o primeiro nome da nova geração é uma dupla que desce a bordoada em sets com grooves sincompados e distorcidos? A dupla Discobot não faria feio nem em São Paulo nem em qualquer outra cidade do mundo e, pelo jeito, eles são só o começo de uma novíssima geração. Falarei mais disso durante essa semana. Enquanto isso, sente esse set que, gravado ao vivo, enfileira só remixes:

Discobot @ Music Holiday (MP3)

Nirvana – “Smells Like Teen Spirit (Patrick Alavi Rerox)”
Dirty Secrets – “5 Feet of Snow (Miami Horror Remix)”
Cut Copy – “Lights & Music (Moulinex Remix)”
Heartsrevolution – “CYOA (Flosstradamus Remix)”
Chromeo – “Fancy Footwork (Mr. Miyagi Remix)”
Teenage Bad Girl – “Hands of Stranger (Yuksek Remix)”
Tronik Youth – “Laugh Cry Live Die (Grum Remix)”
The Galvatrons – “When We Were Kids (Bag Raiders Remix)”
VHS or Beta – “Can’t Believe a Single Word (LA Riots Remix)”
Playdoe – “It’s That Beat (Toxic Avenger Remix)”
Justice – “DVNO (LA Riots Bootleg Remix)”
MSTRKRFT – “Vuvuvu”

O Superman

Olha como a Época recebe o novo presidente americano:

Aí tu entra na matéria e eles tascam de cara:

Depois da posse mais festejada da história americana, Obama vai começar seu governo com os olhos voltados para o exemplo de Abraham Lincoln

Er…

Indiegraça

Um blog de MP3 começa a rascunhar um quadro da primeira década do século no pop brasileiro



Existe um pop brasileiro dos anos 00 como houve em décadas anteriores, que pode ser visto como uma geração? Além das viúvas da MPB, das bandas intermináveis dos anos 80, dos jingles da TV vendidos como música e das sobras da axé music, do pagode e da música sertaneja, existe sim uma cena independente sólida, com protagonistas (e até antagonistas), escalões, referências, discos clássicos, shows históricos, momentos de catarse e modelos de negócios e gestão. Por mais que pareça estar às brechas do grande mercado, todo esse cenário se comunica, se freqüenta e se conhece a ponto de não serem mais encarados como movimentos esparsos e isolados. Pra mim é cada vez mais evidente que veremos, nos próximos dez anos, estas mesmas bandas que começaram a dar seus primeiros passos no século 21 fazendo a história da música brasileira e, aí é mais torcida minha, tirar o vínculo de pop com a adolescência que ainda existe no país.

Porque, não sei se você já percebeu, se você faz, ouve ou gosta de música pop depois dos, hmm, chutando…, 28 anos, no Brasil, é automaticamente rotulado de imaturo. Toda rebeldia juvenil e graça descartável que movem o melhor pop desde seu nascimento são usadas como forma de rebaixar o ouvinte como tendo um gosto musical infantil – e que isso pode ser refletido no resto de suas ações. O estereótipo do roqueiro velho sem ter onde cair morto é rogado em discussões de boteco como se fosse praga e inevitavelmente são evocadas a rudeza, a simplicidade, a selvageria e o ruído do gênero como forma de denegri-lo. Seu interlocutor provavelmente se considera um “amante da boa música” e desfila discos de jazz e MPB como se exibisse vinhos, gravatas, charutos – enquanto você sabe muito bem o que ele poderia fazer com esse charuto.

É claro que esse elitismo chinfrim do “bom gosto adulto” existe fora do Brasil, mas aqui ele atende pela singela sigla de MPB. O “gênero”, inventado nos anos 70, é responsável por engessar a expansão de consciência da música brasileira entre o virtuosismo jazzista e o formato voz e violão, tratando a bossa nova como se fosse o segundo sopro de Deus. A partir dali, qualquer manifestação fora deste formato era visto como “primitiva” e “rústica”. Se ainda lembramos que, nos tempos da ditadura, a MPB era a trilha sonora de uma geração que se opunha fortemente à “dominação cultural” dos Estados Unidos, o pop ainda era rotulado de “produto capitalista” e “alienante”. E tome aspas.

Ou seja: ou você faz música pop ou você faz MPB. Ou faz música descartável, desimportante, de fácil aceitação mas de difícil retenção ou deixará seu legado para a história. Papo furado. Quem acompanha a produção musical brasileira sabe que o som que menos tem importância – e que é mais facilmente aceito – hoje em dia é a própria MPB. A onipresença de cantores de barzinho inclusive nas paradas de sucesso (afinal de contas, o que são artistas como Seu Jorge, Ana Carolina ou Jorge Vercilo?) é só a ponta do iceberg deste problema chamado MPB – se formos além, perceberemos que o número de combinações de regravações, parcerias e discos ao vivo é finito e teremos uma geração inteira que cresceu ouvindo mais músicas regravadas do que compostas em sua época.

Por outro lado, onde ouvir essa tal produção musical pop brasileira que eu digo que é tão madura e sofisticada quanto a MPB? Primeiro: ela não é tão madura e sofisticada quanto a MPB – nem sequer aspira a isso. Essa geração dos anos 00 junta dois aspectos do pop produzido na década anterior – a vontade de experimentar com todo os generos musicais que reuniam em um denominador comum bandas tão diferentes como Chico Science & Nação Zumbi, Raimundos, Skank, Planet Hemp e Graforréia Xilarmônica e a tentativa romântica e heróica de criar um mercado independente na marra que unia selos e bandas com nomes e refrões em inglês. Esse segundo ponto especificamente foi crucial na consolidação de um pop em caráter nacional graças à forma como esta cena abraçou a internet. Se muita gente ainda se empolga ao descobrir o funcionamento de redes sociais como o MySpace, saiba que a raiz disso já acontecia no Brasil há mais de dez anos – incluindo aí até a troca de MP3.

O que nos leva ao assunto que deu origem a todo esse meu blábláblá – o blog Freak To Rock You, que reúne apenas discos do pop dos anos 00 para download gratuito. Com uma longa carta de intenções em forma de um disclaimer, os quatro autores – que também tocam outro blog de discos em MP3, o Glamourous Indie Rock’n’Roll – pintam uma paisagem que claramente valida o que eu disse no primeiro parágrafo, tirando toda interferência do caminho. E assim, resgatam discos que nem sequer existem mais – pois saíram com tiragem pequena, foram lançados de forma caseira ou foi material retirado da internet – e os colocam ao lado de discos que muita gente só ouviu falar de seu lançamento, mas nunca pode ouvi-lo de fato.

Está tudo lá, desde nomes que freqüentam o mainstream (Nação Zumbi, Pitty, Los Hermanos e Cansei de Ser Sexy), a outros que já estão estabelecidos neste mercado independente (como Jumbo Elektro, Mombojó, Cascadura, Superguidis, Móveis Coloniais de Acaju, Vanguart, Gram, Lucy & the Popsonics, Cachorro Grande, Júpiter Maçã e Ludov), diversos coadjuvantes esforçados e até uns EPs, como o King of the Night do Copacabana Club, o Pra Onde Voam Os Ventiladores de Teto no Inverno? do Bidê ou Balde, o Onda Mortal do Cansei (com os mashups tocados ao vivo, hits dance mal-tocados e uma versão inacreditável pra “Humanos” do Tókyo) e um “fan pack” da Mallu Magalhães, com músicas que ela gravou antes de lançar o disco (além de “10 fotos em HD” – uia). Dá até pra tentar adivinhar o gosto de cada um dos quatro a partir de seus posts (me corrijam se eu estiver errado): o Henrique é mais completista indie um tanto conservador, a Hay curte o som quando dá pra dar uma dançadinha, o Lucas é mais pop e curte canções e o мaяv é o gaúcho da história.

Pode até ter alguém que chie para tirar seu disco do blog (eu bem que queria saber quem…), mas é como pedir para sair de uma foto oficial da década, que já está quase chegando à sua pose final. Olha a responsa, hein!

Frank Jorge 2009

Frank Jorge está com disco novo na praça e, mesmo tendo sido lançado no finzinho de 2008, entra na minha contagem como sendo de 2009 (mal aê, Frank, a lista já tá fechada :P). Volume 3 segue a saga inaugurada no histórico Carteira Nacional de Apaixonado, com suas letras confessionais e cançonetas pop para serem cantadas por qualquer um. Às primeiras audições, o principal diferencial que notei é a ênfase maior no aspecto latino do álbum, que já dava um molho nas faixas do disco anterior, Vida de Verdade (“Não Pense Agora” me lembra “Quizás, Quizás, Quizás”). Mas Volume 3 é só mais um veículo para o aguçado senso pop do velho Frank, que, além de um precioso tino para a canção, ainda consegue soltar pérolas de sabedoria como “Elvis mesmo decadente é bem melhor que muita gente”, “tudo o que eu queria era entender porque as bandas dos anos 80 estão sempre em nova turnê”, “Tiradentes foi dentista” ou “veja bem rapaz você nunca deve duvidar de uma garota quando quer amar” no meio de suas letras. O Mini acompanhou tanto o processo de maturação quanto o lançamento do disco e fala um pouco mais sobre a nova fase de Frank Jorge.


Frank Jorge – “Eu Demiti um Amigo


Frank Jorge – “O Que Sobrou do Mundo

Hoje começa o festival que a Alavanca está realizando no Centro Cultural São Paulo e quem abre as apresentações, pontualmente às 19h, são os Supercordas, do Rio (maldita pontualidade – mais um show dos Cordas que eu vou perder). No show eles vão tocar músicas do segundo disco, que estão finalizando – entre elas a ótima “Mágica”, que tem um videozinho aí em cima. Mas se você perder o show de hoje, domingo o Bonifrate – um dos Supercordas – se apresenta em versão solo no Café Elétrico. E, pra mim, esse cara lançou o melhor disco de 2007… Olha o nível:


Click. Wind. Repeat.

É sério. Ainda sobre a banda de Amarante e Moretti, ainda sobrevoando o Sobremúsica: a turnê do Little Joy segue crescendo de tamanho e incluiu a primeira cidade que não é capital de estado no trajeto. Do jeito que as coisas andam, periga até eles barrarem a histórica turnê do Information Society no Brasil nos anos 90, que teve data até em Santarém.


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É, parece que é isso mesmo – só que o Coppola é o Roman, filho do hômi, veterano de clipes (já tem em sua bagagem trabalhos com os Strokes, Ween, Green Day, Daft Punk, Supergrass e Phoenix). Quem tá vendo essa história é o Bruno do Sobremúsica.