Bob Dylan, 70 anos

A Raq escreveu a capa do Caderno 2 de hoje sobre o aniversário de 70 anos do velho Bob e eu escrevi o texto abaixo, que foi no pé da página dela.

O último nome de um dos grandes legados norte-americanos

A importância de Bob Dylan pode ser medida de muitas formas. Ele foi um dos personagens centrais na luta pelos direitos civis nos anos 60, ajudou o rock a entrar na maturidade e se tornar o principal gênero musical da segunda metade do século passado, misturou alta e baixa cultura em letras que citavam a Bíblia, Shakespeare e os beats, expandiu a duração da música pop, fez a country music sair da Disney particular em que estava se enfiando (Nashville) e reabilitou Johnny Cash, apresentou maconha aos Beatles, duvidou (várias vezes) da religião, da cultura de seu tempo e dos próprios fãs. Montado no cavalo da contradição, foi o último caubói do Velho Oeste chamado Estados Unidos – ironicamente um judeu de Minnesota que fez sucesso entre os intelectuais nova-iorquinos.

Mas Dylan talvez mereça ser lembrado como o sujeito que salvou um dos maiores legados do século passado: a canção norte-americana.

Uma tradição que se iniciou quando definiram que os novíssimos discos de vinil não podiam carregar mais do que quatro minutos de música – e, portanto, não serviam para gravar música erudita. Foi inventado um gênero que misturava a tradição popular ao modelo fordista de produção – e logo os cânticos do povo eram enquadrados ao formato introdução-estrofe-refrão-estrofe-solo-refrão, que funcionou como terreno fértil para novos mestres como os Gershwin, Cole Porter, Irving Berlin, Johnny Mercer e Louis Armstrong. A canção popular, como o carro, o jeans, o cinema e o computador, é um dos grandes legados da cultura americana do século passado para a História.

Mas aí veio o rock, que começou truculento e rude como uma espécie de baião ianque, e a música começou a perder sutileza e nuances. Com o rock veio a guitarra elétrica e o barulho – e em menos de dez anos após a aparição de Elvis Presley, a canção norte-americana estava fadada a sumir sob uma avalanche de microfonia, berros e quadris sacolejantes.

E depois veio Dylan, a princípio quietinho com seu violão e voz mirrada, e chamou a responsabilidade para si. E fugindo do óbvio, detectou as principais tendências de seu tempo como forma de fugir delas. Negou o título de porta-voz de uma geração, foi elétrico quando ser elétrico era sinônimo de adolescência, se isolou no campo quando o movimento hippie veio bater à sua porta, não teve medo de expor seus sentimentos e ansiedades numa persona arredia, canta – até hoje – as mesmas músicas cada hora de um jeito diferente. Mas ainda são canções. Ainda seguem a tradição inventada no tempo em que o vinil era uma novidade tecnológica tão excitante quanto a música digital hoje em dia. Comemorar seu aniversário é obrigação de todos nós.

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Sem Resultados

  1. Fabiane disse:

    Amei o texto, e concordo plenamene que ele salvou a música americana. É nosso dever comemorar esse dia. o/

  2. Marcelo disse:

    O cara é bom no que faz, assim como aqui no Brasil, Chico Buarque( vinícios antes) elevou a letra da canção popular a um patamar parnasiano, Bob Dylan( que é mais velho que Chico) elevou o rock a grande arte.

  3. Vocês tem a faca e o queijo, influenciam pessoas e expõe suas ideias livres de críticos. E mesmo assim eu vejo vocês citarem sempre as mesmas repetitivas palavras de ordem e sempre com comentários taxativos e nada menos do que óbvios sobre velhos que estão mais importados com a qualidade dos seus dentes do que com críticas, comentários ou, as norteadoras, palavras de ordem.
    Descordo de toda essa comparação, mas entende que tu deve gostar de ouvir as músicas do Bob Dylan, e deve entender as sacadas nas letras, as jogadas fora das letras e achar algo muito genial ali. Mas comentários romanticos são simples, avulsos, como papéis de enrolar cigarro.
    De qualquer forma eu não desmereço o texto, pelo contrário é ótimo, bem escrito. A finalidade foi alcançada nos dois comentários acima. O cara é lenda, o cara é monstro.
    Mas quando um vagabundo vier assaltar vocês pra quem irão rezar?

  4. Pô, bicho, escrevi esse texto pro Estadão…

    Quando um vagabundo vier me assaltar, eu entrego a grana pq nao reajo a assalto. Rezar ajuda? No creo.

  5. Por isso que eu digo que tu tem a faca e o queijo na mão.. as pessoas que leem isso aqui vão acreditar piamente no que está escrito.

    Então, nem Bob Dylan nem ninguém poderá te salvar. A escolha é tua de reagir ou não.. e quem escuta, entende a música, é tu também.

  6. Saquei. Mas isso de ter a faca e o queijo na mao… Temo pela pressa. Nao a tenho.

  7. É que as pessoas estão interessadas em ter entertrenimento, e é isso que eles querem passar pra elas. O jornal é entertenimento, tudo é supérfulo. Quando se aborda coisas sérias, fica meio infantil.
    É disso que eu falo, existem várias formas de tu obter a informação, tu busca o que tu quer achar. E é obvio que editores, jornalistas, enfim, ‘vocês’ tem noção disso. Só que as vezes é interessante sacar que as ideias podem e devem destoar dos textos.

  8. Mas eh o q tento fazer! E nao condeno o entretenimento, nao! Pelo contrario, diversao eh necessidade.

  9. Ninguém condena o entretenimento… ele é muito mais antigo do que se pensa e além disso é o responsável por todas as mudanças culturais. Tu só faz teu trabalho, assim como eu faço o meu, e assim como o Dylan faz o dele.
    _

  10. patricia disse:

    só discordo na parte q diz q canta sempre as mesmas músicas,ano passado o cara fez um álbum novo c 10 canções inéditas ….