Battlestar Galactica: No Exit

Quando conhecemos metade da história

Uou. O último gole de uísque dado pelo Almirante Adama após autorizar o recém-reintegrado chefe Tyrol a utilizar a gosma com nanorrobôs cylon para recuperar a carcaça decadente da velha Galactica funcionou também como um gole de uísque televisivo, uma talagada de álcool forte transmitida em raios catódicos rasgando os neurônios como se pudesse desopilar a torrente de informação que foi No Exit, episódio da sexta passada da fase final de Battlestar Galactica. Tudo culpa da publicidade, que nos deixou anestesiados em relação a frases de efeito e não nos preparou quando os primeiros teasers do episódio anunciavam que “Você saberá a verdade”. Mais do que um chavão para atrair a audiência, a chamada do sexto capítulo da última parte da série deveria ser enfatizada para refletir melhor o teor das revelações. Mas antes de falarmos delas, vamos a duas informações periféricas que em outros episódios teriam importância central, mas devido às duas tramas principais de No Exit, foram sussurradas timidamente, como notas de rodapé.

Em ambas, um Adama e uma líder que morre. A tal “dying leader” profetizada nas escrituras de Pítia sempre foi associada à personagem de Mary McDonnell, a presidente Laura Roslin, que, pela metade da série, descobre-se vítima de um câncer terminal. Ao se ver nas profecias místicas, Roslin cresce como autoridade e figura-materna perante a humanidade e seu personagem ganha contornos densos e teatrais. Mas desde o episódio anterior a No Exit, descobrimos que há outra líder enfrentando seus últimos dias: a própria Galactica astronave de combate, que foi diagnosticada com uma enorme rachadura em seu casco que revelou-se uma das muitas cicatrizes de um problema estrutural. Ao ver a nave com que guiou o restante da humanidade de volta à Terra caindo aos pedaços, o Almirante Adama primeiro cede à resistência pessoal de ter um cylon como mecânico-chefe e devolve ao chefe Tyrol seu antigo cargo. Mas depois de proibir o uso de tecnologia cylon para recuperar os ferimentos da nave, o velho comandante acaba cedendo e entregando sua “garota”, como ele mesmo se refere à nave, aos cuidados e medicamentos de seu antigo inimigo.

Na nave Colonial I, Roslin se recompõe da chacina que exterminou o conselho presidencial e, percebendo que seus dias estão no fim, passa o bastão para o filho de Bill Adama, Lee, que gagueja mas não titubeia em assumir o cargo de vice-presidente. Pontos para a atuação de Jamie Bamber, que desde que largou o uniforme militar para assumir o papel político conseguiu deixar a fragilidade dramática em segundo plano, mostrando-se cada vez mais seguro no papel – ainda mais se lembrarmos que ele sempre é confrontado com os dois melhores atores da série, McDonnell e Edward James Olmos, que interpreta seu pai.

Como disse, essas duas histórias seriam suficientes para tecer um bom episódio de Battlestar Galactica, ainda se fizermos o paralelos entre as ajudas que a nave e Laura receberam – seu câncer foi aplacado devido a substâncias encontradas no organismo dos cylons. Mas No Exit não foi apenas um bom episódio – foi a primeira parte da explicação final sobre os principais enigmas do seriado. Ela foi dada por dois personagens: Ellen Tigh, a misteriosa quinta cylon, ressurge na nave da ressurreição logo após seu próprio marido sacrificá-la, ainda em Nova Caprica e passa a discutir seu papel com o cylon de número 1 (Harry Dean Stanton, em sua melhor atuação em toda série), e Sam Anders, que após ser baleado na cabeça, começa a lembrar de uma série de memórias que haviam sido deletadas no passado.

Sam nos guia pelo lado racional da história e começa a lembrar-se da origem dos chamados Final Five, os cylons que não haviam sido revelados até o final da terceira temporada. Quatro deles recobram parte de suas consciências ao mesmo tempo, em plena Battlestar Galactica, quando ouvem, de dentro de sua cabeça, uma versão para “All Along the Watchtower”, de Bob Dylan. E todos são personagens com fácil acesso ao comando da frota: o assistente de Adama, Saul Tigh, o piloto Sam Anders, a assistente da presidente Tory Foster e o mecânico-chefe Galen Tyrol. Todos, ao chegar a uma Terra devastada pelo apocalipse nuclear, têm lembranças vívidas de que viveram naquele planeta, há mais de dois mil anos. É neste momento em que Saul lembra-se de quem era o quinto cylon – sua própria mulher, Ellen, a quem, ironia das ironias, tragédia das tragédias, envenenou ao descobrir que ela colaborava com os robôs (antes de ele mesmo descobrir-se um cylon).

Sam explica que os cinco cylons reinventaram a tecnologia de ressurreição ainda na Terra e que, prevendo o apocalipse-robô, preparam-se para cair fora caso aconteça algo – é quando as bombas começam a explodir e eles reencarnam em novos corpos colocados em uma nave na órbita do planeta. Tendo visto seu próprio planeta destruído, eles rumam às doze colônias – o sistema solar dos protagonistas de Battlestar Galactica – para avisar sobre os riscos de se criar inteligência artificial. Mas sem a tecnologia dos saltos intergaláticos, eles levam 2 mil anos – sempre se ressurgindo – para chegar e chegaram atrasados, pois a guerra entre humanos e cylons já havia começado. Mas isso nunca é contado de forma linear ou racional – Sam lembra sempre em ondas, misturando memórias com alucinações, delírios febris e a sensação de poder esquecer de algo que lembrou-se subitamente, entrecortado por baforadas de fumaça do rabugento Dr. Cottle, sempre mais preocupado com a saúde de seu paciente do que por revelações místicas (cabe abrir um parêntese para a participação do ator John Hodgman no papel do neurocirurgião que opera Sam – além de ator, Hodgman também é comediante embora seja mais conhecido pelo papel de “PC guy” nas clássicas propagandas da Apple. Sua participação, no entanto, é insípida e não acrescenta nada ao seriado, tirando o fato de que Hodgman é notório fã de Battlestar).

Do outro lado do universo, vemos Ellen recobrar suas memórias após renascer 18 meses antes da ação que acontece em Galactica, quando Tigh a envenenou em Nova Caprica. Durante esse um ano e meio assistimos a um diálogo quase arquetípico entre criador e criatura – que nos conta a segunda parte da saga narrada por Sam. Quando os cinco cylons chegam às dozes colônias, o próprio número 1, o primeiro cylon de aparência humana (ou, no jargão da série, o primeiro “skinjob”), os assassina e os faz renascer com suas memórias apagadas, para que possam assistir à destruição da humanidade de camarote e os coloca em diferentes planetas. Só que algo fez com que os cinco sobrevivessem ao primeiro ataque massivo e pudessem, sem ter consciência, se reencontrar na própria astronave de combate Galactica. E depois reprogramou os cylons restantes para não lembrarem que eles existiam – daí o fato de ele ter “encaixotado” a linha do número 3, D’Anna (pois ela lembrou dos “final five”).

Mas essa história é contada no meio de um debate rude entre Ellen e John Cavil, o nome de batismo do cylon número 1, que recusa sua humanidade. Segue um discurso instantaneamente clássico, pronto para entrar no bastião das frases de efeito da ficção científica filmada, em que John lamenta aspirar à perfeição da máquina ao mesmo tempo em que está preso ao corpo limitado do ser humano, num texto que mistura ironia, nerdismo, poesia e senso de epicidade, resumido em uma frase emblemática: “Eu quero ver raios gama, quero ouvir raios X, quero sentir o cheiro da matéria escura”. É muita referência pop embutida em uma frase dita quase como choro manhoso, sem o menor senso de ridículo, ao mesmo tempo em que avança o discurso final do replicante Roy Batty (Rutger Hauer, em Blade Runner) alguns passos adiante e encerra um discurso que lamentava perceber uma supernova com o equipamento sensitivo humano.

Toda ênfase do discurso de Cavil é aplacada pela calma de Ellen. A forma como Ellen reage à reclamação de Cavil traz uma nova – e densa – psicologia para o seriado. Afinal, ela é a figura materna, a cientista cujo trabalho foi crucial para a existência dos seres que hoje tentam exterminar os humanos por considerá-los erros. E não consegue se encantar com a vontade da criatura que inventou querer tudo, mais, melhor, mais rápido.

Mas todos os habitantes da Terra eram cylons? O que deu início à guerra que dizimou a vida no planeta? E as profecias de Kobol? E Starbuck, o que – ou quem – é ela? Ainda foi citado o nome de um novo cylon, o oitavo, aumentando aí o número de skinjobs para o mítico 13 e tornando ainda mais complexo o jogo de quem-é-quem. Chamado de Daniel, o novo cylon teria sido um dos criadores dos skinjobs, como os final five (final six, então?) e que ele teria tendências artísticas. Ao lembrar que a própria Starbuck também pintava, não demorou para surgirem especulações de que ela seria Daniel num corpo de mulher. Ou que poderia ser o pai dela, até hoje não referido na série. Ou um dos personagens de Caprica, a nova série do universo BSG que estreará no ano que vem e se passa 50 anos antes dos acontecimentos do seriado principal. Ou todas alternativas ao mesmo tempo. Mas tanto faz.

Porque, diferente de Lost, Battlestar Galactica não é apenas um jogo em que o espectador é convidado a especular – e sim um palco. Um tabuleiro em que diferentes facetas da humanidade são confrontadas umas às outras sempre em situações limite, quase sempre colocando em risco a vida de muitas pessoas ou do resto da humanidade. Toda mitologia e elementos religiosos ou icônicos disponíveis no seriado estão ali para aumentar o espectro de certezas e dúvidas de nossos personagens. E aos poucos parecemos chegar à conclusão de que essa vai ser a separação cogitada para homens e cylons – não o material de que eles são feitos, mas justamente sua natureza espiritual, em que, aparentemente, ser humano representa uma evolução em relação ao robô, e não o oposto, como dizem as máquinas.

So say we all.

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