Dois tipos de groove

E hoje, qual vai ser? Sugiro duas:

FRANKAFRICA.13

18/08/2006 A festa Frankafrica, que acontece todas as quartas-feiras no Sarajevo, agora tem também edição mensal no Bar 13. A discotecagem fica por conta de DJ Tahira, MZK e Ramiro (afrobeat, funk, hip hop, ska, latinidades, brasilidades). Quanto: R$ 5 (até meia-noite) e R$ 10. Onde: Bar 13, Rua Alagoas, 852, Higienópolis, tel. 3666-0723, das 21h às 03h

E tem o Dolores, hoje e amanhã:

DJ DOLORES E A APARELHAGEM
Choperia. Proibida a entrada de menores de 18 anos. R$ 15,00; R$ 11,00 (usuário matriculado). R$ 5,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes). R$ 7,50 (acima de 60 anos e estudante com carteirinha).
Dia(s) 18/08, 19/08 Sexta e sábado, às 21h.
SESC Pompéia

Cinco Perguntas Simples: Rodrigo Gorky

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Em 1996, quando você ia a uma loja e acabava com sua mesada – em 96 eu tinha 15, vai! -, o disco tinha o ‘grande objetivo’ de ser escutado a qualquer hora e também por questões afetivas… Dez anos depois e o disco perdeu completamente esse propósito, hoje em dia é muito mais ‘item de colecionador’ do que uma maneira a mais da banda/artista ser escutado.

2) Como a música será consumida no futuro? Quem paga a conta?
Acho que nesse mesmo caminho que estamos trilhando – MP3s à solta, CDs pirata a preço de banana – especialmente aqui no Brasil – o que percebi lá fora é que existe um mercado pra pagar 99c por um mp3… E acho que a autonomia das pessoas pra ouvir a música do jeito que ela quer vai aumentar – você faz o download das partes da música em trilhas separadas (ou compra essas partes, como no u-myx) e monta do jeito que quiser.
Isso quebra bastante aquela barreira entre os artistas e os consumidores e atrás do mp3, é a melhor coisa que apareceu na indústria da música. E quem paga a conta ? Acho que fica pendurada ali no caixa das gravadoras que não conseguem se adaptar a tudo isso…

3) Qual a principal vantagem desta época em que estamos vivendo?
De novo, a palavra é autonomia – você como artista pode conseguir o reconhecimento de um modo extremamente fácil e você como consumidor perde toda a parte burocrática de 10, 20 anos atrás.

4) Que artista voce só conheceu devido às facilidades da época em que estamos vivendo?
Acho que tudo que tenho escutado nos últimos anos tem sido por essas facilidades! A preguiça aliada à facilidade de abrir o soulseek e baixar o disco daquela banda que você viu nos arquivos do seu amigo que só escuta coisa legal é a grande culpada.

5) O estado da indústria da música atual já realizou algum sonho seu que seria impossível em outra época?
Com certeza! Quando que ia imaginar, por exemplo, ter as acapellas da maioria das coisas que gosto? E conseguir ouvir um preview do disco vindo diretamente daquela banda que você gosta? Ouvir o show do Daft Punk no dia seguinte, sem ter estado lá?

O Gorky é DJ do Bonde do Rolê

Vida Fodona #047: É pra ser assim

Dois covers finíssimos, mangue beat sussa, clássico obscuro dos 90, suingue synthgay, “qual teu vício?”, Prince com Gnarls Barkley, groovezeira comendo solta, concretismo pop, pista conceitual, o novo Michael Jackson, muzakismos, indiesmo lindo e o começo do tributo ao Arthur Lee.

– “Rebel Rebel” – Rickie Lee Jones
– “The Ballad of El Goodoo” – Evan Dando
– “Deeper into Movies” – Yo La Tengo
– “Addiction” – Kanye West
– “Small Town Boy” – Bronski Beat
– “Lo-Fi Dream” – Nação Zumbi
– “Estética Terceiro Mundo” – Gabriel Muzak
– “Gimme Your Love” – Sisters Love
– “Reborn” – Marilyn Barbarin & The Soul Finders
– “The Groove I’m In” – Florence Miller
– “Disco Six Six Six” – Girls Against Boys
– “Nothing” – Walter Franco
– “That Old Spell” – Cassiano Fagundes
– “Discosis” – Bran Van 3000
– “Crazy Times” – Team9
– “Run It” – Chris Brown (ft. Juelz Santana)
– “Andmoreagain” – Love

Ah, vem, vai…

Verde-cinza

Boulevard of Broken Songs

Tá na mão

O disco de estréia de Dean Grey é, como ele mesmo coloca no título de uma de suas faixas, uma praça de canções quebradas. A brincadeira de dois mashupeiros (de quem irei falar em quintas vindouras, aguarde) era criar um personagem que fundisse pedaços de músicas alheias à íntegra do álbum American Idiot, do Green Day (o nome de nosso herói é um anagrama do nome da banda california). Deu em American Edit, com a mãozinha no mouse estilizada naquele esquema arte de guerrilha, lembrando uma granada.

E, como nesse mundo pós-pós-moderno que vivemos tudo é referência, Mr. Gray já veio com discurso pronto e – sabendo que estava infringindo direitos autorais – pedia que as pessoas mandassem grana pras instituições de caridades apoiadas pelo Green Day. Pôs seu disquinho no ar em seu próprio http://www.americanedit.net/ , e esperou a reação dos fãs e das gravadoras. No disco, Billy Joe Armstrong, Mike Dirnt e Tré Cool são lindamente atropelado por pedaços de Kanye West, Queen, Eagles, Dire Straits, Beatles, Sex Pistols, Who, Johnny Cash, Gary Glitter, Oasis, Aerosmith e U2, o que nos ajuda a reposicionar o próprio Green Day na história do rock. Enquanto ainda teimamos em admitir que a banda não passe de um punkzinho pop ou um popzinho punk que deu certo até demais, o certo é que lá se vão dez anos do Dookie – uma pequena jóia, concorde (ouça, antes de fazer cara feia, porra) – e os caras continuam aí com música na cabeça das pessoas e bem na fita. Isso não implica em qualidade – e sim, tamanho – aponta Dean Gray, ao juntá-los no mesmo barco das bandas citadas assim.

O disco foi (hmmm, como se fala best-seller nessa época de download?) um sucesso online a ponto de, como sabiam os criadores desde o início, incomodar a gravadora do Green Day, a Warner, que mandou a cartinha pedindo pra eles desistirem daquilo. A música que batiza esse post – colidindo “Boulevard of Broken Dreams” com “Dream On” do Aerosmith (aquela que o Eminem sampleou) e “Wonderwall” do Oasis – chegou até a tocar na Jovem Pan brasileira, vejam vocês… E não foi ninguém que me contou.

Como previsto, todo mundo quis saber que disco era aquele que incomodava uma major – e, dos P2Ps, vários servidores começaram a distribuir o conjunto de MP3, num ato de subversão feliz que se torna, felizmente, cada dia mais comum. E, como antes aconteceu com o Danger Mouse (Grey Album, Jay Z + Beatles… Tu não sabe dessa história? Deve saber, pelo menos de orelhada, mas outra quinta eu conto direito…), rolou até uma famigerada Dean Grey Tuesday, em referência à terça cinza do Danger Mouse – depois eu conto, já falei!), em que no dia 13 de dezembro do ano passado, vários servidores de internet disponibilizaram o álbum de graça, em protesto à Warner, que havia tirado o disco do ar com base na lei – sendo que até o Billy Joe havia curtido American Edit.

Daí que o site hoje é uma compilação das notícias que foram geradas a partir do advento que transformou-se o disco. E, embora os MP3s não estejam hospedados no site do “sujeito”, o encarte e rótulo para o disco podem ser encontrados por ali (numa clara e irônica referência ao fato de o disco ainda existir), mas basta dar uma fuçada sem o mínimo de esforço na internet que você encontra o disco inteiro pra baixar.

E não acredita em mim: baixa e vê se é isso memo. Aqui, ó.

Speak serious…

Inda bem que o Inter levou do São Paulo ontem, hein… E o melhor: cagada do Ceni (aliás, será que já tá no YouTube?)!

Loucuras da Metade da Estação

Era pra ter saído no site da revista com a fotinho, tipo parodiando as fichinhas do rock que vinham antes. Mas aí o publicador deu pau e não tá aceitando foto. Quando arrumar no site, eu tiro essa desculpa daqui. Mas, como as coisas do blog da Bizz, é uma parada que tem dia fixo. Ou seja, toda quarta, vamo ter uma dessas.

Figurinha 1: Rodrigo Lariú

Larry You

Nome: Rodrigo de Sousa Lariú
Ocupação: Produtor? Produtor serve pra tudo né… Quando eu quero tirar onda eu coloco diretor de TV.
Data de nascimento: 29/05/1973
Você lembra da primeira vez em que ouviu falar sobre música independente?
Lembro da primeira vez que ouvi música independente sem saber o que era música independente. Foi nos programas de surf, Vibração e Realce, com The Smiths. Antes disso eu ouvia FM e os discos dos meus pais. Eu não fazia idéia do que era o mercado por trás disso. Só fui me dar conta do que era música independente quando fiz minha primeira entrevista para o então fanzine Midsummer Madness, com a banda Squonks, de Niterói – banda da Simone, ex Dash, ex Autoramas; do Leandro atual Stellar e outros dois figuras da cidade. Como fui eu quem entrevistou a banda e escreveu a matéria, percebi a graça de fazer aquilo e não apenas ler o que saia nos jornais e revistas da época. Música ganhou outro sentido, parecia que, mesmo não sabendo uma nota musical, eu fazia parte daquilo.

Quando foi que você percebeu que tinha algo diferente que parecia promissor neste mercado?
Nunca pensei em promissor no sentido financeiro se é isso q você está perguntando. Jamais achei que fosse um mercado promissor ou um bom negócio. O fanzine e depois a gravadora surgiram da frustração de não ter coisas boas para ler e para ouvir. Talvez, a única a vez que pensamos – aí já incluindo meus atuais sócios – em futuro atrelado a mercado independente foi no lançamento dos dois primeiros discos do MM, PELVs e Cigarettes em 1997. De acordo com nossas contas, podíamos ter um lucro de mais de 50% em cada cópia vendida. Podíamos… não tivemos.
Mas se você fala de promissor no sentido artístico, aí foi logo depois desta primeira entrevista com o Squonks. Eu começei a receber várias fitas demos, algumas de amigos zineiros, outras direto das bandas. E quando você começa a receber demos como a primeira do Killing Chainsaw, o vinil do Pin Ups para Stiletto, as duas primeiras demos do Second Come, Virna Lisi, Pato Fu na sua caixa do correio é extremamente excitante.

Qual o melhor show de banda indie brasileira que você já assistiu?
Eu sou muito suspeito para falar isso sem citar qualquer banda do mm. Mas tirando shows incríveis de Valv, ESS, Pelvs, Luisa mandou um beijo, Nervoso, Jess Saes etc, talvez o show do Killing Chainsaw no Retrô na mesma noite que o Cocteau Twins tocou em SP… Foi incrível ! Eles quebraram tudo, Gozo na guitarra era alucinante, as músicas perfeitas, redondas, um barulho dos infernos! E era especial ver uma banda tocando com perfeição as músicas que estavam numa fita cassete que com certeza não estava ao alcance de todos – mas deveria estar! E era por causa de arrebatamentos como aquele show do Retrô que a gente fazia fanzine. Como era possível o RESTO do mundo não conhecer aquela banda? Curiosamente, o Killing foi a única banda que não foi capa nem teve matéria especial no midsummer madness…

Qual o melhor festival independente que você já foi?
Escolher um é difícil. O Screamadelica em São Paulo não foi dos mais organizados mas tinha a melhor escalação pro meu gosto musical – Brincando de Deus, Comespace, Grape Storms e Cigarettes. Os Juntatribos foram um purgatório para quem estava lá mas, vendo agora, em perspectiva, o primeiro Juntatribo foi fundamental. Os de Goiânia na virada do século eram imperdíveis, assim como o primeiro CPF, com as Breeders.

Qual o melhor disco/fita/CD independente brasileiro de todos os tempos?
Porra, só pergunta difícil. Em agosto de 2006 eu acho Thrumming Soothingly – Stellar, a melhor fita, considerando as do MM, e a primeira demo do Killing Chainsaw, a melhor fita, desconsiderando as do MM. E o Better When You Love (Me), do Brincando de Deus, o melhor disco. Mas mês que vem já podem ser outros.

O que você fez neste mercado que lhe deixou particularmente satisfeito e orgulhoso?
Ser sempre do contra, mesmo quando me provam o contrário mais tarde – e atualmente eu admito o erro, antes nem isso. É aquela birra de sempre achar que o mundo conspira contra você – já me fez perceber grandes injustiças como já me fez pagar altos micos. Mas assim que é bom. Os discos que a gente lançou, o festival Algumas Pessoas Tentam te Fuder, o prêmio Indie Destaque – tudo é bola dentro.

Conselho pra quem tá começando
Desconfie do conselho dos outros. Mas escute mesmo assim.

Site e como as pessoas podem te encontrar.
Pô, o site do Midsummer Madness tá uma novela. Tá certo que fomos um dos primeiros selos independentes a ter um website, lá em 1997. Se a gente não o tirasse do ar no começo deste ano ele ia completar 10 anos com o mesmo visual… Daí é foda né. Desde janeiro que estamos quebrando a cabeça com a programação do novo site do Midsummer Madness mas é tudo por uma boa causa: teremos todo nosso catálogo online – quase 500 músicas, parte da história do rock indie nacional –, vídeos, páginas das bandas, voltaremos a lançar bandas – coisa que paramos de fazer com o naufrágio dos CDs e CD-Rs em 2004. Eu acho cada vez mais importante ilhas de música boa no meio da inundação de bandas online que é hoje em dia. Acho que a inflação de bandas em sites como MySpace e Tramavirtual mais frustram e afastam o público “médio” – não o fã inverterado ou aqueles que já são do meio – do que antes, com as fitas e CDRs. Procurar música na internet pode ser neurotizante. É bom quando alguém que você confia dá uma dica certeira e eu espero que o www.mmrecords.com.br vire referência de bom gosto quando entrar no ar, o que deve ser em setembro próximo.
Por enquanto, o site acima tem link prum blog provisório e as pessoas me acham no info@mmrecords.com.br
Com www.mmrecords.com.br no ar, boa parte da história recente do rock brasileiro, do underground também vai entrar no ar junto com o catálogo do mm. Lembra da idéia jurássica da coleção Clássicos MM? Pois é, vai rolar online, com capinha e tudo. Aguarde.

The Bug

Grampeado

Mas se você não vai sair de casa (tem o Guizado e o Da Lua, já falei), a dica é, dez da noite, Telecine Cult – nada menos que “A Conversação”, o filme que o Coppola fez entre os dois primeiros Poderoso Chefão e o Apocalypse Now (quer mais? Não dá, né…). Filmão sobre espionagem e grampos analógicos, a melhor atuação do Gene Hackman (melhor que o Operação França 2, inclusive) e que faz muito sentido pra essa época de nóia que estamos atravessando.

Mas se você for sair, grava. Não te arrependerás.

Curumin deu a dica…

Guizado

Cruzei com o Curumin e ele me avisou que ia rolar show do Guizado (não conhece? Dá mole…) hoje, na baladinha Frankáfrika que os broders do Radiola Urbana fazem com o Tahira ali no Sarajevo. Ó o serviço:

O Sarajevo fica na rua Augusta, 1385, tel. 3253-4292. A festa rola a partir das 23h e mulher não paga até meia-noite.
Show: Guizado
Discotecagem pista 1: Radiola Urbana (afrobeat, funk, hip hop, ska,
latinidades, brasilidades)
Discotecagem pista 2: Chars “Dub Vibes”

Lunático

Essa também saiu na Folha de hoje, mas pelo jeito, só na edição paulistana, porque não tá online. Enfim, segue…

Marcelinho Da Lua mostra seu set hoje no Studio SP

“É quase o final do ciclo”, explica o DJ carioca Marcelinho Da Lua, que discoteca hoje no noite Coleta Seletiva, do coletivo Instituto, no Studio SP. “Só não é o final ainda porque tem essa etapa que começa hoje”, continua. Ele fala do lançamento do terceiro clipe extraído de seu disco de estréia, “Tranqüilo”, lançado em 2004, e de seu próprio site oficial, o www.marcelinhodalua.net. Na verdade, mais uma desculpa para tocar na cidade com seu trabalho solo do que motivos para reaparecer com um show.

“Mesmo porque não é um show, é um set de DJ com um MC”, explica Da Lua, chamando a atenção para a presença do MC Ângelo, único integrante de sua banda a o acompanhar nesta vinda a São Paulo. “A idéia desta noite de quarta é fazer o meu set tradicional, com um pouco de jungle, um pouco de reggae, umas coisas latinas e outras brasileiras”.

Set que é responsável por manter o nome de Da Lua como um dos principais DJs do gênero na atividade: há quase oito anos, ele comanda, ao lado do DJ Yanay e do jornalista Calbuque, a noite Febre, dedicada ao jungle e drum’n’bass e que hoje acontece todas as quintas-feiras na Casa da Matriz, em Botafogo.

Da Lua também é integrante do trio Bossacucanova, que tempera a bossa nova clássica com pitadas digeríveis de música eletrônica, o que tem garantido mais apresentações no exterior do que no Brasil. “Estamos conseguindo equilibrar isso melhor”, continua o DJ, “porque realmente estávamos fazendo mais shows lá fora do que aqui. No ano passado, talvez um pouco antes, conseguimos chegar mais perto do nosso público daqui”.

Foi a conexão Bossacucanova que o aproximou do cantor e compositor Marcos Valle, ícone da MPB for export, com quem toca na quinta e na sexta-feira, em apresentações no Bourbon Street e no Tom Brasil. O show de quinta é apenas para convidados, mas o de sexta é aberto ao público, com ingressos que vão de R$ 30 a R$ 200.

“Conheço o Marcos desde 94 e ele é parceiro do Bossacucanova”, lembra o DJ, “chegamos até a compor juntos, na faixa ‘Queria’ do nosso último disco, além de tocarmos músicas dele”. Além de Da Lua, os shows de Marcos Valle contam com a participação da cantora Roberta Sá, do músico e compositor João Donato, do cantor Ed Motta e do músico Celso Fonseca. A curadoria deste show foi de Nelson Motta.

Mas voltando para a carreira solo de Da Lua, ele já fala em um segundo disco. “Mas comecei agora, vou lançar, se tudo der certo, depois do carnaval do ano que vem”, conta, explicando que já está pensando em parceiros para o CD, a exemplo do primeiro. “Vou repetir um pessoal, como a Mart’nália e o Black Alien, mas quero incluir o BNegão, o Fred Zeroquatro, os caras do Ultramen, o João Donato…”, enumera, “na verdade, o disco ainda tá muito no começo, por isso só pensei em duas coisas: ter mais brasileiros do que gringos como convidados e ter uma atmosfera setentona, aquela sonoridade entre 70 e 74, que é a época que eu mais curto em termos de som. Claro que há excessões, mas aquele som é demais”.

DJ Marcelinho Da Lua na noite “Seleta Coletiva” – Hoje, a partir das 23h, no Studio SP (R. Inácio Pereira da Rocha, 170, Vila Madalena, São Paulo. Tel: (11) 3817 5425). Ingressos: R$ 15,00 (com nome na lista, R$ 10,00 – lista@studiosp.org)

O Homem Duplo

Essa saiu na Folha de hoje

De volta para o futuro

The two hemisphere in my brain... are competing?

Dirigido por Richard Linklater e com Keanu Reeves, “A Scanner Darkly” é baseado em um insólito conto de Philip K. Dick

Filme estreou no mês passado nos EUA; projeto de uma cinebiografia do escritor americano está em andamento, diz sua filha

O maior atentado terrorista que não aconteceu, uma facção criminosa seqüestra um jornalista para que se veicule em rede nacional um comunicado sobre direitos dos presidiários ou o lento genocídio no Líbano tratado como um assunto corriqueiro em capas de jornal. A realidade atual parece assombrada pelas projeções fatalistas dos livros de Philip K. Dick (1928-1982), cuja influência permanece cada vez mais presente.

E – tudo bem, exagero –também o fato de um filme do diretor de “A Escola do Rock” estrelado por Keanu Reeves, Wynona Ryder, Woody Harrison e Robert Downey Jr. ainda não ter previsão de estreiar nos cinemas brasileiros, cogitado até mesmo para partir direto para o DVD, sem projeções na tela grande.

Este parece ser o triste fim do inacreditável “A Scanner Darkly”, dirigido por Richard Linklater, que estreou no mês passado nos EUA, sem mover ponteiros consideráveis nas bilheterias mas ganhando altas notas da crítica. Baseado num dos livros mais insólitos do autor – “O Homem Duplo”, que só tem versão em português em Portugal – o filme é inteiramente feito usando a técnica da rotoscopia, em que atores são filmados e transformados em animação a partir de seus movimentos originais. Linklater já tinha usado esta técnica em seu pequeno clássico “Waking Life”, uma animação cabeçuda em que ponderava sobre o sentido da vida a partir de diálogos de pessoas diferentes em lugares diferentes.

“Nós nos envolvemos muito para trazer essa história para a tela”, explica Laura Leslie, 36, filha mais velha do escritor. “Eu e minha irmã Isa tivemos acesso ao roteiro original de Ric, mas antes de concordarmos em confiar a história para ele, sentimos que precisávamos conhecê-lo pessoalmente. Como o livro é muito autobiográfico, tínhamos que saber se a sua visão era fiel ao texto”.

“Ficamos muito satisfeitas com o filme”, continua Laura, responsável pelo espólio do escritor. “Isa expressa isso ainda melhor quando ela diz que o livro foi escrito como uma carta de amor do nosso pai aos seus amigos que se perderam com o uso de drogas. Ric o adaptou lindamente. Ele também captou o humor maravilhoso entre os personagens principais no começo do livro”. Este humor é valorizado pelos diálogos entre os personagens de Robert e Woody, que se empolgam em diálogos chapados sobre assuntos diferentes, atores que têm seu próprio envolvimento com drogas – o primeiro foi para a cadeia graças a drogas pesadas, o segundo é um conhecido ativista pró-maconha.

“Scanner Darkly” se passa num futuro bem próximo (daqui a sete anos), quando o governo monitora as ações de todos os cidadãos e usa a dependência em drogas pesadas – em especial, a “substância D”, droga futurista em cápsulas que permeia todo o filme. No meio de tudo isso, temos o personagem de Keanu Reeves – um policial viciado que é posto para vigiar seus próprios amigos – revivendo seu Neo de “Matrix”, trilogia que, apesar de não citar, vinha coberta de referências à obra de Philip K. Dick.

Mas o Neo de K. Dick não sabe se ele é Neo ou Thomas Anderson, não tem certeza de qual realidade em que ele realmente vive (é um amoroso pai de família, um drogado ou um policial?) e mantém uma constante guerra entre os hemisférios direito e esquerdo de seu cérebro.

Pelo filme, alguns dos temas favoritos do escritor, como a fragilidade ao determinarmos o que é real, o estado-policial que controla tudo, o tráfico de drogas como justificativa para a paranóia generalizada, tanto individual quanto institucional. Itens de ficção científica que K. Dick usava para divagar sobre a natureza da existência e da realidade, o propósito da vida, o sentido de tudo. Filosofava fingindo escrever histórias futuristas.

“Certamente há muitos aspectos da vida atual que ele já estava preocupado e escreveu sobre isso no começo dos anos 50”, continua Laura. “O que ele pensou que era paranóia naquela época infelizmente se tornou rotineiro hoje em dia. Eu poderia listar dez coisas que apareceram em seus livros que agora são comuns, como homens-bomba, no conto “Impostor”; a internet, num livro inédito chamado “The Acts of Paul”; espionagem doméstica, que era um tema comum em vários livros, entre outros…”

Além de “A Scanner Darkly”, que deve sair em DVD nos EUA no final deste ano, outros projetos retomam cada vez mais o nome de K. Dick. Além de dois livros saindo no Brasil (“O Homem do Castelo Alto” e “Valis”, veja ao lado), ainda está sendo produzido o filme “Next”, baseado no conto “Golden Man”, com Nicholas Cage, Jessica Biel e Julianne Moore. Adaptado para o cinema pela primeira vez no ano de sua morte (“Blade Runner”), a obra de K. Dick cada vez rende mais adaptações para o cinema, como as recentes “Minority Report” e “O Pagamento”.

“Minha esperança é que estas adaptações façam com que as pessoas descubram o trabalho do meu pai e venham conhecê-lo em livro”, continua Laura; “Encontrei muitas pessoas que falaram para mim que foram apresentadas à obra de Philip K. Dick graças a ‘Blade Runner’”. Ela e a irmã Isa acabaram de constituir a empresa Electric Shepherd (Rebanho Elétrico, em referência ao título original do livro que originou o filme “Blade Runner” que, em inglês, perguntava se os andróides sonham com ovelhas elétricas), dedicada a supervisionar adaptações dos livros de PKD – mas elas não adiantam os títulos com os quais estão trabalhando.

Mas Laura comenta a anunciada cinebio sobre seu pai, com Bill Pullman vivendo o escritor. “Não estamos envolvidas com este projeto, nem ninguém que conheceu ou escreveu sobre o meu pai. Tememos que esta biografia possa focalizar apenas nos componentes sensacionalistas da sua vida”, lamenta.

“Isso fez com que concluíssemos que nós devemos ser a força-motriz por trás de um filme mais compreensivo sobre o nosso pai. Desde o ano passado, estamos trabalhando em uma cinebiografia de nosso pai com cuidade e de forma seletiva, trabalhando com pessoas em Hollywood que reconhecem o trabalho dele e em quem podemos confiar para lidar com as complexidades de sua vida. Acreditamos termos encontrado parceiros sensíveis e cuidadosos em Paul Giamatti (de “Anti-Herói Americano” e “Sideways”) e a na Anonymous Content (produtora de filmes como “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” e “Quero Ser John Malkovitch”)”, revela.

“O Homem do Castelo Alto” e “Valis” chegam às livrarias até o final do ano

Se o filme não chega ao Brasil, o mesmo não pode se dizer sobre os livros. A editora Aleph, responsável pelo relançamento no Brasil de clássicos da ficção científica como “Neuromancer” de William Gibson e “Laranja Mecânica” de Anthony Burguess, lança dois livros de K. Dick ainda este semestre.

O primeiro deles chega às livrarias no começo de setembro e é uma de suas obras-primas. “O Homem do Castelo Alto”, publicado em 1962, se passa no começo dos anos 60 em um mundo em que o Eixo ganhou a Segunda Guerra Mundial e dividiu os Estados Unidos em duas metades: a Costa Leste ficou com a Alemanha e a Costa Oeste com o Japão. Outras conseqüências da vitória nazista garantem o extermínio dos povos africanos, a transformação do Mediterrâneo em lavoura e a colonização espacial.

Mas a maior parte da ação acontece na Los Angeles orientalizada, em que um oficial do exército japonês e um judeu fugitivo têm seus caminhos estranhamente cruzados à medida em que um é fascinado pela memorabilia americana da primeira metade do século e o outro é um falsificador destes itens. Acrescente à história um misterioso escritor – o personagem do título – que lançou um livro clandestino em que fala de um mundo em que os Aliados venceram a Guerra e um matador de aluguel posto em seu encalço, discussões sobre autenticidade e cópia e personagens guiados pelo I-Ching (como era o próprio autor durante a escrita do livro) e, voilá, um clássico.

“Valis”, o segundo livro de K. Dick a chegar nas livrarias este ano, não é propriamente ficção. O livro foi escrito após um surto esquizofrênico (ou uma revelação divina, ele mesmo nunca soube responder) que aconteceu com o escritor no meio dos anos 70, quando ele passou dois meses achando que habitava duas épocas diferentes ao mesmo tempo e parecia ter descoberto o sentido da vida.

Escritor da geração seguinte à época de ouro da ficção científica (de nomes como Arthur C. Clarke e Isaac Asimov), K. Dick escrevia constantemente e fazia livros para pagar as contas, se submetendo a sessões de escrita que duravam dias e eram abastecidas com comprimidos e bolas para não dormir. Aliado ao fato de ter perdido a irmã gêmea no parto e a casos de esquizofrenia na família, o consumo de drogas o isolou e o tornou paranóico, levando, em última instância, à visão que teve na década de 70.

“Valis” (1978) é um calhamaço que funciona, ao mesmo tempo, como tentativa de explicar o que aconteceu naquele período e de exorcizar fantasmas que o acompanhavam desde então. O livro nunca foi publicado no Brasil, ao contrário de “Castelo Alto”, que foi publicado nos anos 60, mas está fora de catálogo.

Philip K. Dick no cinema
Cinco filmes baseados na obra do autor

“Blade Runner” (1982), de Riddley Scott, com Harrison Ford e Rutger Hauer.
Um exercício de estilo fantasiado de divagação sobre a existência, “Blade Runner” não apenas extinguiu o futuro clean de “2001” como inventou o cyberpunk, como estética.

“O Vingador do Futuro” (1990), de Paul Verhoeven, com Arnold Schwarzegger e Sharon Stone.
Douglas Quaid é um pai de família que sonha em ser um agente secreto salvando Marte da destruição ou é um agente secreto que apagou a própria memória para ser apenas um pai de família?

“Minority Report” (2002), de Steven Spielberg, com Tom Cruise e Max Von Sydow.
E se um policial, cuja missão é prender antecipamente assassinos antes de eles cometerem um crime, cometer um crime? Quem o prende?

“O Pagamento” (2003), de John Woo, com Ben Affleck e Uma Thurman.
Michael Jennings é um engenheiro que desmonta lançamentos da concorrência e os remonta para seu chefe – mas para isso, ele sempre deleta o que fez, para não vender para ninguém. Até que um dia, ele começa a ser perseguido – sem saber porquê.

“A Scanner Darkly” (2006), de Richard Linklater, com Keanu Reeves e Wynona Ryder.
Uma fantasia que se camufla com partes de 4 mil pessoas diferentes (só assistindo!), insetos imaginários, realidades paralelas, drogas sintéticas e um final lindamente phildickeano, com monólogo mea culpa e a poesia da resistência. Espetacular – e isso sem contar o visual.