“My finger on your trigger”

Essa saiu na Folha de hoy:

Let me tell you how it will be...

A redescoberta de Revolver

Embora não tão incensado quanto discos mais emblemáticos como “Sgt. Pepper’s” (marco-zero da psicodelia), “Rubber Soul” (manual de boas maneiras do britpop) e “Abbey Road” (o réquiem do grupo), o disco que os Beatles lançaram há 40 anos aos poucos tem seu papel redefinido na história do pop. Antessala da fase estúdio do grupo de Liverpool, “Revolver” é revisitado em duas obras online, que ajudam a traçar o espectro de abrangência do disco ao mesmo tempo em que jogam novas luzes sobre sua influência.

O primeiro deles é “Abracadabra – The Complete Story of the Beatles’ Revolver”, escrito pelo funcionário do governo inglês Ray Newman nas horas vagas de seu trabalho oficial. “Escrevi isto por diversão”, conta no prefácio do livro. “Não escrevo sobre música profissionalmente nem sou um jornalista na área. A idéia surgiu depois de algumas perguntas que eu tinha sobre o disco que seus biógrafos sentem-se felizes em passar por cima. De onde Paul McCartney tirou a idéia de ‘Eleanor Rigby’? Quem ensinou George Harrison a tocar cítara? E quem deu LSD para John Lennon pela primeira vez?”.

Após uma pesquisa detalhista e aprofundada sobre os meses que antecederam o lançamento do disco de 1966, Newman não esperou editora: diagramou seu livro e o colocou para download gratuito no site http://www.revolverbook.co.uk.

“As pessoas parecem saber tudo que existe sobre ‘Sgt. Pepper’s’, que é meu segundo disco favorito dos Beatles, mas ‘Revolver’ ganha menos atenção no ‘Anthology’ (biografia oficial do grupo), por exemplo”, explica o escritor em entrevista, “eu amo este disco e não conseguia encontrar mais informações sobre ele, e era frustrante”.

“Comecei muito casualmente, tentando escrever um ensaio, mas comecei a descobrir questões o quanto mais pesquisava”, continua a explicação. “Minha grande dúvida era saber como quatro jovens que haviam composto ‘Love Me Do’ quatro anos antes criaram algo tão excitante, esquisito e cool como ‘Revolver’”.

Ray divide os novos interesses dos três Beatles da frente em grupos respectivos: Lennon descobre o ácido lisérgico, Paul McCartney se aventura pela alta cultura e movimentos de vanguarda, George Harrison traz a música indiana. Cada um destes universos é compartilhado em grupo, com “Tomorrow Never Knows” sendo um exemplo emblemático do modus operandi beatle da época: a idéia de Lennon era fazer uma música em um único acorde como os músicos indianos que já estavam inseridos na cultura londrina desde o início dos anos 60. McCartney trouxe os efeitos sonoros e loops de fita magnético que causam a estranheza na paisagem da canção, e Ringo Starr criou a batida trôpega e hipnótica que dá a sensação de tontura da música.

Newman conta que a primeira cítara de George – a de “Norwegian Wood”, do disco anterior – era quase decorativa, que Paul havia pensado em usar osciladores de freqüência em vez de um quarteto cordas em “Yesterday” e que John havia se contentado em viver uma vida de casado longe da vida cultural londrina.

Ainda juntos
No processo de pesquisa, Newman ficou pasmo ao descobrir que “Revolver” foi, de fato, o último disco dos Beatles como um grupo. “Foi surpreendente descobrir o quanto Lennon, McCartney e Harrison compartilhavam idéias na época. Eu sempre havia imaginado, por preguiça, que ‘Eleanor Rigby’ era uma canção de Paul e ‘Taxman’ era de George mas, na verdade, Paul disse ter sido influenciado pelo interesse de George em música indiana quando compôs ‘Eleanor’ e ‘Taxman’ tem letras de Lennon e um solo de guitarra de Paul. Eles ainda eram um grupo na época. E eram amigos!”.

“Sem contar a pura história sensacionalista que é a primeira noite com LSD: coelhinhas da Playboy, tentativas de orgia, perseguições de carro!”, brinca o autor, que já estuda propostas para publicar o livro fora do mundo virtual – por enquanto, só na Inglaterra.

Produtor inglês recria o álbum faixa-a-faixa

Além de “Abracadabra”, outro lançamento online mostra a longevidade de “Revolver” – mas aqui a nostalgia e pesquisa são deixadas para trás. “Revolved”, uma homenagem feita pelo produtor inglês Chris Shaw, busca referências em diferentes épocas para olhar para frente.

O disco – que, como o livro de Newman, só existe na internet – é uma releitura faixa-a-faixa do disco de 1966 à luz da cultura mashup. De cara, a faixa de abertura “Taxman” perde seu baixo e bateria originais para serem substituídos pelo instrumental de “New Pollution” do americano Beck. Mais à frente “I’m Only Sleeping” funde-se com “Glory Box” do Portishead, “For No One” é assombrada por “Close to Me” do Cure e “Tomorrow Never Knows” ganha ares fantásticos com um tema de John Barry para um filme de James Bond. “Revolved” pode ser encontrado no endereço http://revolved.blogspot.com/

“Mashup” é uma enorme subcultura de produtores caseiros que começaram jogando vocais de hip hop e R&B sobre bases de bandas de novo rock – na época, há cerca de cinco anos, chamávamos isso de “bastard pop”. Mas a cultura atingiu um novo patamar quando o DJ Danger Mouse foi revelado para o mercado e público ao colidir o álbum branco dos Beatles com o Black Album do Jay Z. Ao subverter a estética “clássica” de ambos gêneros e ignorar os direitos autorais, o produtor criou uma pequena obra-prima moderna e seguiu para produzir um dos melhores discos do ano passado – “Demon Days”, do Gorillaz – e atinge brilho próprio ao associar-se com o MC Cee-lo no projeto Gnarls Barkley, uma das melhores coisas deste ano.

Assim, vários produtores iniciantes vêm usando desse subterfúgio para chamar atenção para seu trabalho, uns mais felizes que os outros. E só entre os álbuns clássicos, já desvirtuaram o “Pet Sounds” dos Beach Boys (duas vezes, “Bastard Pet Sounds” e “Hippocamp Ruins Pet Sounds”), o “London Calling” do Clash (que virou “London Booted”) ou o “Yoshimi” dos Flaming Lips (“Yoshimi Battles the Hip Hop Robots”). E, pelo andar da carruagem, é só o começo.

Um finde no norte, outro no sul

Depois de uma ótima estada na capital do Pará (conhecendo a cidade, a cena e o festival Se Rasgum ao mesmo tempo, depois eu escrevo aqui…), volto à ilha da magia pra pegar a segunda parte da primeira vinda do Gang of Four por aqui. Se você foi ao show de São Paulo, sabe que é imperdível. Se você não foi, dê um jeito de ir!

Vida Fodona #050: Qüinqüagésimo

Temos ecos de Belém, nova do Rapture, Gossip com MSTRKRFT, hitzinho islandês, Gorillaz remixado, Mark Ronson no Jamiroquai, nova do Gram, Prince retrabalhado pelo Basement Jaxx, o bom e novo Gnarls Barkley, o Erasure da Itália, Cuiabá pop, Avalanches mandando ver no Wolfmother, o musical do Outkast, jovem guarda punk, Lucio Maia na cadeira elétrica, a faixa-título do novo do Justin, Diplo Roots e a nova do homem-baranga.

– “Life is Like a Musical” – Outkast
– “Eletrocutado” – Maquinado
– “El Mañana (Metronomy Remix)” – Gorillaz
– “Just a Thought” – Gnarls Barkley
– “Semáforo” – Vanguart
– “Mulher Vulgar” – Suzana Flag
– “Disco do Roberto” – The Feitos
– “All the Critics Love You in New York (Basement Jaxx Remix)” – Prince
– “Hush Boy” – Basement Jaxx
– “Don Gon Do It” – Rapture
– “FutureSex LoveSound” – Justin Timberlake
– “Listen Up (MSTRKRFT Re-lick)” – The Gossip
– “Zulu/Zumbi” – Mamelo Sound System
– “Feels Just Like You Should (Mark Ronson Remix)” – Jamiroquai
– “Woman (Avalanches Millstream Remix)” – Wolfmother
– “Seat Yourself (Diplo Remix)” – Roots Manuva
– “Back to Discos” – Loto
– “Eple” – Røyksopp
– “Seu Minuto, Meu Segundo” – Gram
– “Supercool” – João Brasil

Simba!

Cinco Perguntas Simples: Dagoberto Donato

1) O disco (como suporte físico) acabou?
Não. Ainda há espaço para ele. Acredito que ainda haverá por anos. O que acontece é que, cada vez mais, ele deixa de ter o papel principal e passa a atuar como coadjuvante. O fato é que o CD ainda vende. Não como antes, mas vende. Ainda acredito também na banda que faz um showzão e tem a barraquinha pra vender o CDzinho a um preço amigo depois da apresentação. O que não rola é comprar CD de major a 40 reais enquanto ele tá dando mole de graça na net.

2) Como a música sera consumida no futuro? Quem paga a conta?
Boa pergunta. Me dá uma resposta que eu vendo para uma major. Rachamos os lucros.

3) Qual a principal vantagem desta epoca em q estamos vivendo?
A principal é que você pode ser seu próprio filtro. Lembra quando a gente lia na Bizz sobre aquela banda que lançou um CD fabuloso nos confins do Oaklahoma, juntava dinheirinho pra comprar CD importado e muitas vezes quebrava a cara? Isso não existe mais. Acho lindo como a informação está descentralizada e o acesso à música fácil. Você acha a musiquinha num MP3 blog – nem precisa ler o que o cara escreveu -, site de gravadora ou ouve falar da banda. Escuta uma vez. Gostou? Baixa mais, compra o disco. Não gostou? Já era. Próxima.

4) Que artista voce soh conheceu devido aas facilidades da epoca em q estamos vivendo?
Muitos. Todos os dias. Meu favoritos do último mês: Beirut, Lily Allen, Dead Indians,Simian Mobile Disco, Tokyo Police Club, Plus-Tech Squeeze Box.

5) O estado da industria da música atual jah realizou algum sonho seu que seria impossivel em outra epoca?
Acho que aqui não se trata da indústria, mas da tecnologia. Acho que seria difícil a existência de festivais como os que rolam hoje em dia (Tim, CPF, Coquetel Molotov, etc), com bandas desconhecidas do grande público do país caso não houvesse um pequeno, mas considerável, número de pessoas um pouco mais informadas musicalmente. E muito dessa informação deve-se à tal facilidade de acesso que citei em alguma pergunta anterior. Vi Flaming Lips ao vivo na mesma noite que Sonic Youth. Vi Arcade Fire junto com Wilco. Vi o Damo Suzuki tocando com músicos brasileiros. Vi Four Tet, LCD Soundsystem, Liars e Kid Koala no mesmo festival. Acho o tipo de coisa que seria impossível alguns anos atrás.

Dagoberto Donato é editor da Trama Virtual.

American way-of-life 2

Essa saiu da Folha de sábado.

Crítica cinema: ‘A Casa Monstro’ remete aos anos 80

Dá pra gastar linhas e linhas para falar de “Casa Monstro” e repetir-se na obviedade. Falar do processo de animação que mistura atuação com computação gráfica, encaixar o filme na linha do tempo desta nova era de ouro da animação, dos atores hollywoodianos que participaram do filme ou do filme ser produzido por Robert Zemmeckis (“Forrest Gump”) e Steven Spielberg. Mas, mais do que isso (tá no release e todo mundo vai falar disso…), o filme que estreou esta semana é um filme de época.

Uma época quase clássica, consolidada no imaginário de uma geração inteira, tão emblemática quanto a Swinging London da década de 60, o American Way of Life dos anos 50, os Roaring 20s americanos ou o Rio de Janeiro da fase clássica da bossa nova. Esta época acontece nos Estados Unidos durante os anos 80, quando o público adolescente invade o mercado de entretenimento como seu principal alvo e consumidor.

“Casa Monstro” é uma história de terror irracional e tradicionar, sem as tentativas de explicar o medo ou as táticas de choque de terror moderno. Aponta para Freddy Krueger e “A Hora do Espanto”, embora mire numa idade mais baixa. Nada de banhos de sangue ou sustos pesados – o ar do filme é leve como “Garotos Perdidos” ou “Goonies”.

E é nestes anos 80 que o filme é localizado. Aquele da porta com três janelas, aqueles coletes com uma letra grande no peito, bonés e crianças andando de BMX. “Super Vicky”, “ET”, “Alf”, “Picardias Estudantis”, “De Volta para o Futuro”, “Porky’s”, todos John Hughes clássicos (“Curtindo a Vida Adoidado”, “Clube dos Cinco”), “Caras e Caretas” – é este o universo de “Casa Monstro”, com “Pong” no videogame, a babysitter que vira gótica (ou seria melhor “dark”?) depois que os pais do garoto saem ou o retrato clássico da festa americana do Dia das Bruxas. Até no fato de Kathleen Turner – um ícone oitentista – dublar o monstro do título há esta referência.

Divertido e fluído, o filme conta a história de um velho que espanta a criançada que se aproxima de uma casa amaldiçoada. De um pressuposto simples, “Casa Monstro” embarca numa montanha russa de emoções light – a entrada na puberdade, o primeiro amor, o amor impossível – e acerta em cheio no clichê de “filme para a família”.

Bom como eu tenho sido contigo

bob-dylan-

Essa saiu na Folha de ontem, mesqueci de linkar.

Bob Dylan recria seus “tempos modernos”

Compositor lança seu 32º disco de estúdio e encerra trilogia iniciada em 97

Sonoridade de novo CD do compositor norte-americano oscila entre o country e o rhythm’n’blues e revisita legado do século 20

Nem sempre houve cidades, carros, asfalto, publicidade, poluição, fábricas, multidões engarrafadas em rotinas vazias de sentido, crises permanentes, neuroses coletivas. É difícil lembrar que a paisagem que nos acostumamos era bem diferente nos últimos cem anos. A mudança que o século vinte proporcionou ao planeta criou um presente contínuo que faz com que nós esqueçamos de onde – a raça humana – viemos.

“Tempos Modernos”, resume Bob Dylan, 65, ao batizar seu 32º disco de estúdio com o mesmo título do clássico filme de Charles Chaplin, lançado em 1936, cinco anos antes do próprio Dylan nascer. O disco é o item de número 50 em sua discografia, entre discos ao vivo, coletâneas e reedições e é o terceiro capítulo de uma trilogia de obras-primas inaugurada com “Time Out of Mind” de 1997 e seguida de “Love & Theft”, cujo lançamento coincidiu exatamente com o dia em que aqueles aviões derrubaram o World Trade Center em Nova York. De propósito (e o que é sem querer em sua biografia?), Dylan se equivale a Chaplin na tentativa de resumir seu século de criação a partir de seu principal legado: a modernidade.

É ela quem arruma o mundo a partir das deformações demográficas criadas pela era industrial. É ela quem organiza o mundo a partir de uma estética prática, casual e confortável, e cria toda uma harmonia a partir do caos inicial. Como se pudesse voltar no tempo, Dylan recria a música contemporânea do meio do século como se fosse possível prever que, graças aos Beatles – que, uma década depois, absorveram a fragmentada música americana dos anos 40 e 50 como uma única manifestação cultural e a explodiu para o resto do planeta – , aquela seria a trilha sonora do século.

Não é exatamente rock’n’roll, pois na contemporaneidade de “Modern Times” (Columbia), o rock ainda não existe. Há apenas uma variedade de ritmos musicais, uns vindo da música country, outros do rhythm’n’blues, que fingem não se freqüentarem ou se parecerem, mas que, como veríamos mais tarde com os Beatles, e como Dylan nos apresenta em seu novo disco, é tudo farinha do mesmo saco.

Toda discografia de Dylan é uma grande tentativa de driblar o tempo, e de simultaneamente usar as próprias referências como molde para qualquer detalhe de seu futuro. Assim, começou calcado em Woody Guthrie, abraçou o rock, começou a cavocar suas origens musicais nas Basement Tapes, voltou-se para o country e daí para o gospel, o pop, o folk, o rhythm’n’blues e o rock de novo. Cercou a base de sua própria música e criou o cânone americano a partir de sua própria música – o próprio bardo americano.

Só que durante os anos 90, essa sua tentativa de contar o presente a partir de seu passado pessoal, esbarrou em alguns discos belos mas mal-resolvidos, como dois de versões de clássicos do início do século (“Good As I Been To You” e “World Gone Wrong”) e seu “MTV Unplugged”. Irregulares, eles pareciam indicar a velhice precoce de um geninho que parecia que nunca iria envelhecer.

Até que ele parou de regravar e voltou a compor, em 1997, ao iniciar este arco de três discos que é aparentemente encerra-se com “Modern Times”. De lá pra cá, retomou firme sua veia autobiógrafa e dispôs-se a contar tudo de novo: a caixa de CDs que trazia o melhor de sua pirataria (“Bootleg Series – Volumes 1-3”, de 1991) foi transformado em um projeto de resgate contínuo destas gravações não-oficiais (a série está no sétimo volume, hoje); Scorsese filmou sua primeira era de ouro (no longo e minucioso documentário “No Direction Home”) e escrevou o primeiro livro de sua autobiografia (“Crônicas – Volume 1”).

E agora, com “Modern Times”, volta a redesenhar seu século a partir de sua qualidade essencial. Para Dylan, modernidade não são publicitários baixando músicas do MySpace para remixar em comerciais de energéticos. “Moderno” foi o rádio, o arranha-céu, o chiclete, o cinema, o disco, o carro, o rock’n’roll, os Estados Unidos ou o táxi que rasga a capa. Hoje, o mundo supera cada um destes aspectos, reinventando o século vinte e um como negação do anterior. Para este, pede Dylan, arrume outro adjetivo, porque o “moderno” é seu.

Faixa a faixa

“Thunder on the Mountain”
Lento rock’n’roll clássico, que ecoa Chuck Berry, Carl Perkins e Jerry Lee Lewis. Dylan assume o piano e enfileira palavras como um pastor em plena missa. O eco da eletricidade seca preenche os vazios do instrumental minimalista, criando um som ao mesmo tempo oco e fantasmagórico, como os discos de Elvis Presley pela Sun Records. Essa sonoridade se repete por todo o álbum, por cortesia do produtor “Jack Frost”, um dos inúmeros pseudônimos do velho Bob.

“Spirit on the Water”
Jazzinho bluesy, a canção é uma baladinha de amor ponteada por uma guitarra econômica e precisa e percussão mínima. Dylan sussurra e anasala a voz ao mesmo tempo, quase querendo soar como um velho rádio.

“Rollin’ and Thumblin’”
Blues terminal, à moda de “If I Had Possession Over the Judgement Day” de Robert Johnson e de seus seguidores de Chicago, a faixa desce a ladeira quase bêbada, com cuidado para não desenvolver velocidade demais – e cair.

“When the Deal Goes Down”
Uma balada country, com slide guitar, arrastada e singela, que nem parece falar do tema que, junto com sexo, percorre o disco: a morte.

“Someday Baby”
Outro rock’n’roll revisitado, suas raízes country e rhythm’n’blues expostas sem vergonha, poderia ser lançada nos anos 40, 70 ou 90 que faria igualmente sentido.

“Working Man’s Blues #2”
A voz áspera faz a sombra pós-11 de setembro pesar na faixa mais política – não sem um toque de doçura – e mais folk do disco – não sem um toque de blues. É onde faz seus comentários mais específicos em todo “Modern Times” – critica o status quo americano, o sistema de classes, o capitalismo e outras invenções modernas. Dylan clássico.

“Beyond the Horizon”
“Além do horizonte, seja primavera ou verão”, canta quase saudoso, “o amor espera para sempre, para um e para todos”. Outra cândida balada folk, que canta o amor de forma quase juvenil.

“Nettie Moore”
Bumbo onipresente e solitário, ele atravessa a faixa marcando o tempo como se esperasse o Juízo Final. Sobre esta marcação, Bob murmura a canção mais árida do disco, único resquício de século dezenove no álbum.

“The Levee’s Gonna Break”
Rock’n’roll grave e mórbido, é um blues que ganha contornos urbanos e menos drásticos com a presença elétrica de duas guitarras insistentes. “Se continuar chovendo, o dique vai quebrar”, avisa, didático e apocalíptico, metafórico e literal.

“Ain’t Talkin’”
O clima que guitarras, piano e rabeca sintonizam no início da canção é tão parente da introdução de “Ballad of a Thin Man” quanto de Nick Cave e Tom Waits. quanto de Nick Cave e Tom Waits. Ritmo marcado por um pandeiro, a faixa cresce devagar, interminável, com o pesar de uma última faixa que parece um testamento.

Vida Fodona #049: Tempos Modernos

Uma única música brasileira e o Cure tocando Doors, a primeira do novo do Dylan e o Phil Collins andando de submarino amarelo, a nova do Rapture e o Outkast em versão countrypunk, a história do disco Rock & Roll de John Lennon e o Four Tet remixando o David Holmes, um ícone emblemático do punk-funk e o megahit subliminar “Over and Over”. Toca o play aê, agora que a festa tá animando…

– “Thunder on the Mountain” – Bob Dylan
– “Hello I Love You” – Cure
– “Moody” – ESG
– “Funga Funga” – Trio Soneca
– “Hey Ya” – Supersuckers
– “Memphis” – John Lennon & Chuck Berry
– “You Can’t Catch Me” – John Lennon
– “Taxman” – Junior Walker
– “That’s All Yellow” – CCC
– “Rain” – Beatles
– “Get Myself Into It” (Serge Santiago UK Edit) – Rapture
– “Standing in the Way of Control” – The Gossip
– “Over and Over” – Hot Chip
– “69 Police (Four Tet Remix)” – David Holmes


Chega junto.

Tempos Modernos

Depois de lançar livro, documentário e programa de rádio, o velho Bob agora é garoto-propaganda do iPod.

Rebatido

Esse saiu nessa Ilustrada de domingo:

Filmes revivem geração beat entre o culto e a redundância

Houve um tempo em que qualquer informação adicional sobre qualquer ícone da cultura alternativa (de onde fosse: da contracultura clássica, do indie rock ou dos quadrinhos para adultos) era tratada como ouro puro, principalmente aqui no Brasil, quando quase sempre consumimos estes nomes em segunda mão. Antes da vinda da internet, imagens em movimento ou trechos de entrevistas de quem fosse já era suficiente para reunir fãs em audiências ritualescas.

Passado recente, este tempo já era. Hoje, arquivos digitalizados e conexões de banda larga garantem o rápido acesso a imagens corriqueiras de nomes consagrados – aparições na TV se espalham pelo YouTube, biografias entopem as bancas de revista, sites despecam aos milhões ao simples clique no Google. Por isso, o lançamento de dois DVDs perdem o seu impacto justamente por seu maior mérito ser a presença eletrônica da santíssima trindade da geração beat: Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William S. Burroughs.

O pacote conta com a primeira aparição em DVD do filme “Chappaqua”, de Conrad Rooks (vencedor do Leão de Prata no Festival de Veneza de 1966), e com a dupla de documentários “Kerouac: O Rei dos Beats”, de John Antonelli, e “Burroughs: Poeta do Submundo”, de Klaus Maeck.

“Chappaqua” é um dos inúmeros exemplos do cinema experimental dos anos 60 que ficaram redundantes e presos ao passado com o advento do vídeo digital – literalmente, qualquer criança de hoje realiza filmes como os daquele período (ao menos, em termos técnicos). Por trás da obra, temos o empolgado Conrad Rooks que, filho de um alto executivo da Avon nos EUA, resolve usar o cinema como terapia e contar sua história para o mundo.

Sai-se exatamente na média, colidindo todos os clichês do cinema alternativo da época com delírios enfadonhos e “mutcholocos”. O perfil autobiográfico fala de seu próprio processo de desintoxicação de drogas numa clínica européia e mostra que Rooks estava em dia com a modernidade da época – daí a presença não apenas de Ginsberg (chato, como sempre) e Burroughs (genial, como sempre), como de Ornette Coleman, de Ravi Shankare do grupo Fugs.

Como cinema, “Chappaqua” é quase uma bad trip, fundindo experimentalismo barato com idéias pueris quase à maneira dos Beatles em seu “Magical Mystery Tour”. Mas, como o filme psicodélico dos Fab Four, o de Rooks funciona quase como um documentário de uma época em que não era preciso fazer muito sentido para ser aceito. Bons tempos, de fato.

Já os documentários martelam no prego e no dedo, cada um deles. O de Kerouac é correto e bem realizado, e começa e termina com sua clássica entrevista ao apresentador Steve Allen, quando foi apresentado ao público médio americano. Cuidadoso, John Antonelli entrevista pessoas diretamente envolvidas com o autor e traça um retrato didático do papel de Kerouac na literatura americana e no pop mundial.

Mas o de William Burroughs, por mais triste que possa parecer, é pífio. Gira em torno de uma leitura feita pelo autor em 1991 (acompanhada por urros constrangedores da platéia) e uma entrevista transbordando obviedade por parte do entrevistador, com clipes de “cut-ups” inspirados na técnica inventada por Burroughs.

Opta por ser não-linear e se perde no meio do caminho, com o entrevistador Jürgen Ploog mais interessado em ver o autor repetir suas máximas (“a linguagem é um vírus”, seus conselhos a jovens autores, sua fascinação com armas, seu exílio em Tânger) do que travar alguma tentativa de diálogo com o autor. Uma pena: mesmo com momentos de brilho proporcionado pelas leituras entusiasmadas feitas pelo velho Bill, o documentário não chega nem a cutucar a curiosidade dos leigos ou a fazer os iniciados suspirarem – no máximo, de tédio.

Engraçado é que, entre os extras do filme sobre Kerouac, há um trailer de um documentário sobre Burroughs que não é o filme dirigido por Klaus Maeck. Com abordagem similar ao de Antonelli, parece mais palatável e respeitoso. Afinal, um documentário não precisa ser genial – basta ser correto para já estar no lucro.

CHAPPAQUA: ALMAS ENTORPECIDAS
Distribuição: Magnus Opus (R$ 39)

KEROUAC: O REI DOS BEATS e BURROUGHS: POETA DO SUBMUNDO
Distribuição: Magnus Opus (R$ 78,50)

Parque Sul

Senso de estética deixa qualquer coisa apresentável. Veja só esse link e tente conter a vontade de forwardeá-lo pra sua namorada ou pra mina que tu tá xavecando em vão. How cute…