“As Caravanas” é a grande música de 2017

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As Caravanas, recém-lançado disco de Chico Buarque, é o disco que esperávamos que Chico lançasse há anos, mas que ele preferia manter-se na inércia de seu último grande disco, Para Todos. Desde o início dos anos 90 Chico vem lançando álbuns mornos (o último realmente interessante é As Cidades, do século passado) numa inércia que vinha pela idade, pela preguiça (um direito sagrado, não custa frisar) e pela dedicação à sua produção literária, onde parecia estar dedicando-se mais.

Mas veio a polarização política do Brasil, Chico tornou-se alvo de uma ideologia retrógada que insiste em dar as cartas no Brasil, virou meme e viu-se empurrado mais uma vez para o holofote das discussões. E não apenas lança um disco com o esmero e amplitude sonora de seus grandes trabalhos como compõe esta que já é uma de suas grandes canções, a faixa que batiza o disco, que dá pra cravar, sem crise, que é a música mais importante do ano.

Resposta dura e sofisticada à depredação moral que vem se abatendo sobre o país, “As Caravanas” é irmã caçula de “Vai Passar”, mas o foco é dedicado à parte tensa desta outra canção (“Dormia / A nossa pátria mãe tão distraída / Sem perceber que era subtraída/ Em tenebrosas transações”) do que ao regozijo com a passagem do sanatório geral citado ao final. Parecia que tinha passado, não passou e amanhã ainda há de ser outro dia, mas Chico prefere falar do hoje, do agora – e mostrar como o passado segue firme, presente, ao nosso redor (com o arranjo dramático e a guitarra de Luiz Cláudio Ramos e o beatbox de Rafael Mike, do Dream Team do Passinho).

“É um dia de real grandeza, tudo azul
Um mar turquesa à la Istambul
Enchendo os olhos
E um sol de torrar os miolos
Quando pinta em Copacabana
A caravana do Arara
Do Caxangá, da Chatuba

A caravana do Irajá
O comboio da Penha
Não há barreira que retenha
Esses estranhos
Suburbanos tipo muçulmanos
Do Jacarezinho
A caminho do Jardim de Alah
É o bicho, é o buchicho, é a charanga

Diz que malocam seus facões
E adagas
Em sungas estufadas e calções disformes
Diz que eles têm picas enormes
E seus sacos são granadas
Lá das quebradas da Maré

Com negros torsos nus deixam
Em polvorosa
A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné

Sol, a culpa deve ser do sol
Que bate na moleira, o sol
Que estoura as veias, o suor
Que embaça os olhos e a razão
E essa zoeira dentro da prisão
Crioulos empilhados no porão
De caravelas no alto mar

Tem que bater, tem que matar
Engrossa a gritaria
Filha do medo, a raiva é mãe da covardia
Ou doido sou eu que escuto vozes
Não há gente tão insana
Nem caravana do Arara”

Ave Chico.

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4 Resultados

  1. Francisco Águas disse:

    Eu achei Chico (2011) um álbum muito bom. Sinhá é uma música antológica. Além de ter canções bonitas como Nina e Barafunda. Carioca também tem Ode aos Ratos que é de uma inventividade muito grande. Não creio que tais álbuns sejam irrelevantes. Mas concordo que Caravanas é uma música altamente relevante! Creio que ficará no panteão das músicas clássicas do cancioneiro do autor. É uma música arrepiante.

    • Alexandre Matias disse:

      Não acho que são irrelevantes, mas não têm o brio deste disco novo. As músicas citadas são boas (“Sinhá” mais que “Ode aos Ratos”, que é só uma boa experiência).

  2. Bruno Ribeiro disse:

    Concordo que “Paratodos” tenha sido seu último grande disco. Nos que vieram depois destaco apenas a já citada “Sinhá” como uma obra-prima ou, pelo menos, uma obra em que Chico conseguiu imprimir a sua potência máxima. Ainda não ouvi todas as faixas de “As Caravanas”, mas com certeza a faixa-título é de antologia. Tudo nela soa atual – atualíssima porque traduz o clima de ódio e divisão social que toma conta do país – e ao mesmo tempo atemporal, como geralmente são as canções definitivas. Não é uma canção fácil de ser cantada e por isso talvez não entre para o rol das canções que permeiam o inconsciente coletivo, mas certamente será lembrada como uma das composições mais fortes e importantes de sua carreira. Nada mal para quem continua na ativa aos 73 anos de idade.

  3. Eu odeio Chico Buarque – Como me tornei uma semi celebridade.
    Estou sendo cotado para um reality show de um canal à cabo. Dei entrevista em um talk show de um comediante na madrugada. Fiz comercial de material esportivo de segunda linha. Fui contratado como dj (mesmo sem ser dj) para festas noturnas no interior. Fui jurado em programas de calouros. Cheguei a dar autógrafos, a tirar selfies com fãs. O vídeo que me lançou ao semi estrelato foi o mais visualizado no YouTube no ano. Telejornais faziam matérias sobre o vídeo.
    Minha vida mudou radicalmente. De repente me tornei uma celebridade da segunda divisão. Minha vida pacata e completamente anônima evaporou-se instantaneamente. Passei a ser reconhecido nas ruas, deixei meu emprego de auxiliar de contabilidade em um pequeno escritório no triângulo mineiro.
    Tudo porque em uma pelada de futebol, encerrei a famosa carreira de peladeiro de ninguém mais, ninguém menos do que Francisco Buarque de Holanda! Com um carrinho violento, covarde e vil, rompi os ligamentos dos dois tornozelos do dono do Polytheama!
    http://blogodofranciscoaguas.blogspot.com.br/2017/09/eu-odeio-chico-buarque-como-me-tornei.html