American Water – Silver Jews

O último ressuscitado do dia, prometo.

***

silverjews.jpg

Apesar de dividir sua banda com Steve Malkmus, do Pavement, Dave Berman é categórico ao afirmar que, se podemos falar de projeto paralelo nessa história, é o Pavement que é o projeto paralelo do Silver Jews. Explica-se: uma vez que formou sua banda no fim dos anos 80, convocou os colegas de faculdade Steve Malkmus e Bob Nastanovich, antes mesmo deles montarem o Pavement, para ajudarem na parte instrumental de seu projeto musical, batizado de Silver Jews. Com o estouro do Pavement em 92 (graças ao magnum opus do lo-fi, Slanted and Enchanted), os olhares sobre a banda de Berman triplicaram e todos passaram a se referir ao grupo como um brincadeira alheia de Steve Malkmus.

Mas basta passear por American Water, o segundo disco da banda, pra saber quem manda. Berman gosta de escrever sobre coisas comuns, sobre a vida real, sobre situações reais e de balbuciar sua voz preguiçosa por cima de suas letras.

Seu novo disco é fruto de sua nova filosofia de vida, inventada por ele mesmo, que a chama de “Nova Abertura” (New Openness). Interessante e prática, ela prega que você deve fazer exatamente o que tem vontade de fazer o tempo todo, seja isso uma coisa ruim ou boa. Não conter-se, deixar-se soltar o tempo todo, não guardar segredos nem sentimentos.

Sem querer esconder, ele já abre American Water explicando seu novo estilo de vida em “Random Rules”. Explica que “em 1984 fui hospitalizado por aproximar-me da perfeição” e passa a reconhecer a naturalidade do erro como parte da vida (e, mais, a perfeição é encarada como doença, anormalidade). “Não existe guia quando quem manda é o acaso”, esclarece no refrão, “ninguém deve ter duas vidas/ E agora que você já sabe que meu nome do meio é certo e errado/ Temos duas vidas pra nos darmos hoje à noite”.

Continua contando as vantagens de sua vida aberta em “People”: “Momentos podem ser monumentos pra você/ Se sua vida é interessante e verdadeira”. E fala de aproveitar a beleza real de momentos simples: “Eu adoro ver arco-íris na mangueira de jardim/ Gosto da cidade e da chuva na cidade/ Garotos suburbanos com nomes bíblicos”. Conclui esticando as pernas que “faz sol e calor e é ótimo estar vivo”.

O que ele prega é que em vez querermos passarmos uns por cima dos outros, pra subir na vida, vamos continuar do jeito que estamos e aproveitar as coisas boas que a vida nos proporciona em cada momento. Esquecer-se da própria individualidade em prol de um futuro incerto é sinônimo de infelicidade e ele continua a falar sobre isso. “Fomos educados com réplicas de estradas tortuosas e falsas/ E dia após dia tocamos pandeiro em troca de salário mínimo neste belo cenário” (em “We Are Real”), “você acredita em finais MGM?” (“Like like the the the Death”).

E sem papas na vida, ele cria belíssimas imagens de situações rotineiras, pelo simples ato infantil de observar e deixar-se comparar sem pensar se vai soar ridículo ou não. “Minha roupa de esquiar tem botões que parecem espelhos de loja de conveniência/ E eles me ajudam a ver, que todo o quarto agora é parte de mim”, “os becos são as notas de rodapé das avenidas”, “Quando algo quebra faz um som bonito”, “Deixe o espelho expressar o quarto”. Uma bela surpresa é o country de coração partido de “Honk If You’re Lonely Tonight”, em que o autor diz que seu sorriso parece esconder sua dor, mas que o adesivo no pára-choque do seu carro (o título da música – “buzine se estiver solitária hoje à noite”) entrega tudo.

Musicalmente o grupo soa tímido, bêbado e aliviado ao mesmo tempo, como se Nick Cave nascesse na Califórnia. A base musical tem elementos de rock, folk e country, mas tudo tocado de forma despretensiosa e sem firulas, em especial a bela guitarra de Malkmus, em algum lugar entre Tom Verlaine e Robbie Robbertson. Para os fãs do Pavement, American Water soa como um apêndice a Brighten the Corners, com Malkmus mais do que à vontade com o pop formal. Mas é impossível pensar em Pavement depois de três ou quatro audições – Berman convence-lhe fácil que ele é o assunto aqui.

Você pode gostar...

Sem Resultados

  1. 27/01/2009

    […] Em 99, o Alexandre Matias publicou uma ótima resenha deste disco, que veio acompanhada de uma entrevista com David Berman. Leitura obrigatória! […]

  2. 28/01/2009

    […] pra quem quiser saber mais, a resenha do American Water tá aqui, o link pra baixar o disco que o Last Splash descolou é esse e a entrevista com Berman (feita há […]