Alerta #62: Rosie and Me

O Brasil sempre importou modismos estrangeiros como uma forma de buscar assunto para compor suas próprias músicas – nunca foi pré-requisito, mas o que fazia sucesso no exterior (seja na França, nos EUA, na Inglaterra, na América Latina ou na Itália) sempre encontrava eco em nosso jovem país, que sempre dava um jeito de, com o tempo, abrasileirar timbres, tempos, temas. Não é privilégio do Cansei de Ser Sexy: Carmen Miranda já cantava “Disseram Que Eu Voltei Americanizada” depois de sua temporada em Hollywood.

Nos final dos anos 50, o cool jazz era o indie rock de seu tempo e o apartamento da Nara Leão era o equivalente ao Midsummer Madness nos anos 90. Era onde uma turma que não gostava do som que tocava nos rádios e nas ruas e buscava, nos discos importados, refúgio e conforto. A sorte da turma de Nara foi a aparição de João Gilberto, que sozinho, transformou um bando de adolescentes fanáticos por jazz na primeira geração de um gênero que não existia nos anos 60, mas que tornou-se onipresente a partir dos 70: a MPB.

O sucesso da bossa nova fez com que outro modismo americano passasse despercebido por aqui e suas referências e necessidades fossem assimiladas de outra forma, sendo ignorado no Brasil em seu tempo. Antes da Beatlemania varrer o mundo no começo dos anos 60, a folk music estava se tornando um dos principais novos gêneros no início daquela década (ao lado da californiana surf music e daquele gospel tão macio e novo que chamavam de soul). Mas como o Brasil tornou-se obcecado com a bossa nova pouco antes dos tanques mineiros chegarem a Brasília, em 64, este gênero acabou suprindo o refúgio no violão e em valores nacionais defendidos, nos EUA, pela nova tribo folk, que habitava o Greenwich Village, em Nova York. No Brasil, todo o vínculo que a folk music representava nos EUA tanto com a questão dos direitos civis quanto com os valores de um país tentando encontrar a própria identidade podem ser resumidos em duas rupturas de fundadores da bossa nova: quando Carlos Lyra se junta ao grupo de teatro Arena e quando Nara Leão chama Zé Kéti e João do Vale para o palco do espetáculo Opinião. Esses dois artistas podem ser considerados os principais responsáveis por nos isolar de uma geração inteira de artistas americanos, como Kingston Trio, Joan Baez, Weavers, Odetta, Peter Paul & Mary, Phil Ochs, John Denver, Pete Seeger e Bob Dylan. E sorte nossa: imagine se, nos anos 60, o discurso folk americano fosse adaptado para o Brasil – ia soar forçado e alienante, como se a jovem guarda tivesse alguma pretensão política. Felizmente, não foi o caso.

Isso explica principalmente o revival folk que estamos atravessando atualmente. Todos esses artistas – e o cânone que eles geraram – têm sido revisitados e descobertos nos últimos anos e aos poucos estão sendo apropriados por diferentes gerações, criando essa cena folk que até o final de 2007 era só uma vontade, mas depois de 2008 – e dos shows do Dylan, Will Oldham, Conor Oberst e Bill Calaham no Brasil, da festa Folk This Town, dos discos de Mallu Magalhães e a ascensão do Vanguart – tornou-se fato. E, aos poucos, surgem artistas comprovando isso.

Um destes é a dupla Rosie and Me, de Curitiba. Quem me deu o toque sobre eles foi o Vinícius, mas eles já estão chamando atenção no exterior antes mesmo de surgir no radar da cena independente brasileira. Não é difícil entender porquê – canções compostas por melodias singelas e refrões irresistíveis são emolduradas por arranjos discretos e leves, funcionando como veículo para o jogo entre as vozes de Roseanne Machado – doce e de textura levemente áspera – e Alex Sousa – de timbre grave e informal. “No começo éramos só eu e o Alex”, lembra Rosie. “Na época ele morava no Rio e eu em Curitiba. Eu costumava gravar as bases das músicas no meu computador e depois ele sincronizava e complementava os arranjos no computador dele, tudo a distância. Foi um impulso disponibilizar as faixas na internet, era tão lo-fi que o Rosie and Me era mais entre a gente. Em uns dois meses o número de ouvintes aumentou inesperadamente. Foi quando decidimos convidar alguns amigos e formar a banda”.

“Nosso primeiro show foi em novembro do ano passado no Wonka Bar em Curitiba”, continua Alex. “Fomos convidados para abrir o show de lançamento dos nossos amigos do Je Rêve de Toi. Foi de última hora e, apesar do nervosismo, foi divertido tocar pra uma casa cheia e receptiva. Era estranho ver gente que sequer conhecíamos cantando algumas das nossas músicas. Na formação tínhamos a Rô no vocal e violão, eu no vocal e synth, o Guilherme no baixo e o Tiago na bateria. Estes são os membros oficiais da banda. Convidamos um amigo, o Fião, para nos ajudar com mais um violão”. Foi o único show da banda, que ainda mandou covers de Metronomy e The Knife.


Rosie and Me – “Heartbeats” (The Knife)


Rosie and Me – “Heartbreaker” (Metronomy)

Alex segue falando da repercussão online que a banda teve mesmo antes de começar pra valer. “No começo estávamos bastante empolgados com o Last.fm e criamos um perfil pra banda com uma ou duas músicas. De repente o número de ouvintes aumentou e alguns comentários positivos foram nos encorajando a criar mais músicas e enviar para o site. De forma alguma esperávamos ter ouvintes em países como Polônia e Alemanha antes mesmo dos nossos amigos daqui ouvirem as músicas. Uma guria chegou a enviar uma de nossas músicas para uma rádio polonesa e nos avisar quando a música foi ao ar. Lembro da Rô me ligando desesperada para avisar quando tocaram ‘Folkie Song’. Demoramos a criar um perfil no MySpace e só o fizemos depois de alguns pedidos de alguns ouvintes do last.fm que queriam nos ajudar a divulgar a banda”.

A banda sem querer faz parte de uma nova safra de bandas curitibanas que, como convém quase sempre à capital paranaense, quase nunca se movimenta como uma cena, e sim como várias ações coletivas que se movimentam em paralelo: “Várias bandas, de diversos estilos tem surgido e apresentado um trabalho muito bom. Temos gente como o próprio Je Rêve de Toi, Delta Cockers, Copacabana Club, Bo$$ in Drama, Sabonetes, Stella Viva”, Alex enumera. “Sem dúvida há outras bandas que como nós tem produzido alguma coisa às escondidas também”.

“Temos hoje cerca de 13 músicas gravadas, das quais 9 estão disponíveis para download no Last.fm“, continua Roseanne. “Duas são covers acidentais que o Alex acabou postando em um período que estive fora. ‘I Lost You, But I Found Country Music’ é do Ballboy e significa bastante pra ele. ‘You’re Laughing At Me’ de Irving Berlin foi gravada com instrumentos ‘emprestados’ de uma banda de jazz do Seneca High em Wisconsin. Até o momento não temos qualquer show marcado. Pretendemos finalizar e lançar um EP ainda no primeiro semestre deste ano. Mas a experiência de tocar ao vivo foi muito boa. Acho que não recusaremos caso suja uma nova oportunidade”.

As mesmas perguntas: Rosie and Me

O que levou vocês a fazerem música?
Rosie:
Foi a influência musical que nos aproximou quando nos conhecemos, além do gosto parecido pra lo-fi/folk/country tunes nossas histórias também tinham muitos pontos em comum. Podemos passar horas nos divertindo com um violão, gaita e teclado sem percebermos.

Qual foi a primeira música que vocês tocaram juntos?
Alex:
A primeira foi “Folkie Song”. Ela ficou conhecida como “Folkie Song #2” porque apesar de ser a primeira a surgir, foi a segunda a ser gravada.

Como foi a primeira apresentação como Rosie and Me?
Rosie:
A estréia foi no Wonka Bar com o Je Rêve de Toi e Delta Cockers. Lembro da casa cheia e do quanto estavamos nervosos no início. Abrimos o set com “The Big Fight” e arriscamos um cover do Metronomy. A reação do público foi ótima, estávamos realmente nos divertindo com tudo aquilo.

De quem vocês queriam abrir um show? E quem vocês gostariam que abrisse um show de vocês?
Rosie:
Putz. Dá pra sonhar bastante com essa coisa de abrirmos shows pra alguém. Acho que Stars, Wilco, Weepies pra nós dois seria algo incrível. Acho que para abrir um show nosso convidariamos o Pylas. Projeto de um grande amigo nosso.

Com que banda/artista brasileiro você dividiria um disco?
Rosie:
O Pylas. Sem dúvidas.


Rosie and Me – “You’re Laughing At Me (Irving Berling Cover)


Rosie and Me – “Youre Laughing At Me (Irving Berling Cover)”

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21 Resultados

  1. gustavo disse:

    pensei que heartbeats fosse do the knife. santa ignorância!

  2. E eh! Peguei o nome do vídeo errado no YouTuba 😛

  3. gustavo disse:

    a versão do jose gonzales, foi trilha de uma propaganda do sony. Muito boa!

  4. denis disse:

    Matias, desta vez, tá rolando um cenário diferente. E o q mais chama a atenção é q a tal cena vai do Copacabana Club ao ruído/mm, com todas essa safra nova dialogando entre si, vendo os shows umas das outras, trocando referências, etc. Antes, era tudo isolado, de fato. Agora, pelo contrário, as ações coletivas paralelas (como tu definiu) estão se cruzando. Tá bonito de ver

    vou linkar teu texto no meu blog, ok? Vlw, abs

  5. marcos disse:

    os nomes dessa cena tanto no exterior (como aqui) é que podiam ser mais criativos. no rosie and me é clara a idéia tirada do she & him do m. ward.

  6. Alex disse:

    Adoramos She and Him, mas escolhemos o nome Rosie and Me por acaso no início de 2007 e bem antes do M. Ward lançar o álbum com a Zooey Deschannel (Março, 2008). Então não tiramos idéia de ninguém. hehehe. Obrigado pelo espaço, Matias.

  7. guga disse:

    a coisa anda menos fragmentada por aqui… na verdade todas essas “várias ações coletivas” são aspectos de uma cena para exportação… virtual… taí o rosie & me que comprova isso, como vc deixou claro no texto… ta linkado lá no blog =)

  8. ramiro disse:

    Ressonância mórfica e muito trabalho, nada mais, nada menos.

  9. Vamos ouvir ae pra ver qualé-que-é, mas… deixa pra lá hehe.

  10. Senhoras e senhores, Gilberto Custodio! “Frescura” eh seu nome do meio!

    Mas ae, quero ver tu achar ruim…

  11. guga disse:

    ok, matias! parei com as crises entao =p
    que continuem as experiências nos posts!

    abs

  12. MANNY disse:

    OFF QUE FOFOZ!

  13. Fergath disse:

    olha, o guilherme me mandou umas musicas na metade do ano passado e a aprtir daí, sou fã.
    gosto mesmo é da Young Beatniks, que ele disse ser uma “semi-música”… parabéns pra eles!

  14. rosilane disse:

    muito bom

  15. Francisco disse:

    Folk não é sertanejo?

    “Asa Branca” de luis Gonzaga é folk?

    Folk não tem a ver com folclore?

    Como é saci-perêrê em inglês?

    Inezita Barroso é análoga a joan Baez?

    Zé Ramalho não faz folk?

    • Folk eh um genero musical parente do country norte-americano.

      Dizer q sertanejo eh folk, eh a mesma coisa de dizer q choro eh jazz. Parece, mas nao eh a mesma coisa.

  16. Isobel Bowie disse:

    This is a topic that’s close to my heart… Many thanks! Exactly where are your contact details though?

  1. 26/01/2009

    […] Alexandre Matias é um dos caras que mais influenciou (positivamente) toda uma nova geração de blogueiros espalhados por ai… e convenhamos, de uns tempos para cá seus longos textos com análises e viagens estavam fazendo falta… (é carência, Matias… não é crítica =). Foi ótimo esbarrar hoje com um de seus extensos discursos e novas teorias… melhor ainda quando o gancho era a jovem dupla curitibana Rosie And Me. Ainda ilustres iniciantes no circuito de shows da cidade (com somente uma apresentação no currículo feita no final do ano passado), a dupla já é bem rodada em campos virtuais, como vocês podem saber mais clicando aqui… […]

  2. 26/01/2009

    […] Péricles avisando que o EP do Boss In Drama já pode ser espalhado e nos feeds dou de cara com um post do Alexandre Matias, no Trabalho Sujo, sobre a banda Rosie and Me, também daqui de Curitiba. Como […]

  3. 10/03/2009

    […] que eu vou me alugar a falar deles? (rs) Faço minhas as palavras do cara, que você lê tudinho, neste post aqui, tá certo? No máximo, arrisquei uma reflexão sobre Curitiba, num texto que estampa eles como […]

  4. 12/03/2009

    […] seja dita. Não é bem o primeiro show deles… mas sem dúvida são calouros nos palcos)   “…canções compostas por melodias singelas e refrões irresistíveis são emolduradas por a… Alexandre Matias – Trabalho Sujo   Rosanne Machado e Alex Sousa formam o Rosie and Me. Dupla […]