A voz do morto

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O escritor e compadre João Paulo Cuenca está lentamente mudando sua carreira ao incluir os papéis de diretor de cinema e ator em seu currículo. A Morte de J.P. Cuenca, seu primeiro filme, é irmão de seu novo romance, Descobri Que Estava Morto, que ele lança na próxima edição da Flip, em Paraty, em que participa de uma das mesas da tenda dos autores. As duas obras se complementam ao contar a história de sua morte, descoberta a partir de um homônimo que usava todos seus dados e apareceu morto em um prédio invadido. E como queria lançar livro e filme ao mesmo tempo, abriu uma campanha de financiamento coletivo para colocar o filme no cinema ao mesmo tempo em que o livro chegasse às livrarias.

“O crowdfunding é para levantar dinheiro para a distribuição do filme”, ele me explica por email. “As distribuidoras interessadas só poderiam lançar o filme comercialmente no ano que vem. E como eu achava muito importante que ele saísse junto do livro, na época da Flip, resolvi fazer na raça, mesmo. Distribuição independente de guerrilha. O problema é que realmente é caro distribuir um longa-metragem: você precisa ter alguém cuidando da relação com as salas em todo o país, fazer trailer, cópias em DCP, posters, envios, ter uma assessoria de imprensa etc. Muita coisa envolvida pro filme chegar ao circuito comercial no timing certo. Esse crowdfunding é uma campanha de pré-venda: você recebe tudo o que comprar. Eu estou agradecendo muito cada um que está participando, as pessoas não fazem idéia de como é importante.” Quem quiser colaborar com o filme, basta seguir as coordenadas no link do site Kickante.

Notório crítico tanto do governo derrubado pelo golpe quanto do próprio golpe, JP tem uma visão pessimista sobre o futuro próximo do país: “Sombrio”, resume. “Para melhorar, ainda vai piorar muito. Estou aqui preparando minha armadura de escafandro.” Por ter sido traduzido em vários idiomas, ele é chamado por veículos estrangeiros para explicar o que está acontecendo por aqui. “Já escrevi textos para jornais gringos e também falei pra TV de fora”, continua. “Acho que, por incrível que possa parecer nesse momento, quem mora fora do Brasil entende muito melhor o que está acontecendo do que a média do povo brasileiro. É só comparar a cobertura do NYT, da BBC e do Guardian com o que você encontra em panfletos como a Veja e o Jornal Nacional.” E resume a importância da cultura neste momento trevoso: “É um farol. Único ponto de referência para um país que está derretendo junto a todas as suas instituições.”

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Como aconteceu a história de sua morte?
O cadáver de um homem foi identificado pela PM com a minha certidão de nascimento num edifício ocupado na Lapa, Rio de Janeiro. Isso foi em julho de 2008. Descobri em 2011 e contratei detetives pra descobrir como minha certidão parou lá. No processo, comecei a ir cada vez mais ao quarteirão do prédio que virou um condomínio reformado. E aí começa a história.

Era um livro que virou um filme ou um filme que virou um livro? Como vc acha que essas midias – incluindo disco, HQ etc – que antes viviam separadas vão se juntar neste século?
As duas coisas aconteceram juntas, os processos se retroalimentaram. Eu consegui morar no prédio onde morri com grana do filme. Eu descobri coisas que entraram no filme por causa da pesquisa para o livro. É difícil para mim separar uma coisa da outra nesse momento. Até porque esse tripé se complementa com uma performance presencial: o filme e o livro continuam cada vez que estou lá falando deles. E não é só uma obra aberta: o inquérito policial também ainda está aberto. Quem ler e ver o filme vai entender do que estou falando.

Como será sua participação na Flip este ano? É a primeira vez que você sobe no palco principal da festa ou estou enganado?
Eu fui convidado da primeira Flip, em 2003, e depois participei algumas vezes moderando mesas e em outros espaços da festa. O primeiro lançamento do livro Descobri Que Estava Morto será lá. Tenho uma relação especial com a Flip, eu vi a primeira estourar. Estava em Paraty desde antes – fui escrever um conto que está num livro comemorativo da primeira festa, o Paraty Para Mim, com o Chico Mattoso e o Santiago Nazarian.

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