A memória de Jean-Yves de Neufville

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Outros colegas de trabalho lembram da convivência com o crítico Jean-Yves Neufville, que morreu no início da semana. Relembra o Camilo (de onde surrupiei a capa do especial Bizz que ilustra esse post:

Jean-Yves trabalhava na Folha Ilustrada (e freelava para a Bizz). Estava perto do segundo Rock In Rio e um dos escalados era o Happy Mondays. A banda estava no auge, representante maior de uma onda Manchester-acid house-freak. Jean-Yves entrevistou Shaun Ryder para o jornal e conseguiu uma declaração bombástica. Dia seguinte, primeira página, a manchete trazia algo como “Vocalista do Happy Mondays quer trazer 1000 ecstasies para o Brasil”

Semanas depois, estamos eu e Jean-Yves numa sala de um hotel de luxo no Rio nos preparando para entrevistar Ryder em carne e osso. Já era a semana do festival. Não tinha dado meio-dia, mas Ryder já entornava vodca e cerveja, intercalando os drinks com uma bomba de tabaco com haxixe.

Fomos entrevistando ele em dupla. Eu pergunto dos 1.000 ecstasies e Ryder se exalta. Diz que foi sacaneado, que nunca ia ser trouxa de falar algo assim para um jornalista. Jean-Yves conta que era ele o entrevistador e o contesta. Ryder fica puto, continua negando e fecha a cara. A entrevista, entre resmungos em forte sotaque nortista inglês, tragos e chapação, fica ainda mais incompreensível.

Vinícius, ex-Jazz+, também lembra da convivência com o jornalista:

Duas décadas depois, precisamente em 2003, conheci o Jean pessoalmente quando criei a revista Jazz+. Para a minha surpresa, o Jean roqueiro era um apaixonado pelo jazz. Logo que descobriu a primeira edição nas bancas tratou de me procurar para oferecer seus serviços. Aceitei sem pestanejar.

Quando debatíamos as pautas pelo telefone era possível escutar, ao fundo, bem baixinho, a trilha sonora de nosso bate papo. O tocador de músicas de sua casa (CD, vitrola, iPod?) produzia sons de Chet Baker, Bill Evans e outros notáveis do jazz. Nunca atendi a um telefonema do Jean cuja música de fundo não fosse jazz.

Quando a Jazz+ deixou as bancas definitivamente, em 2008, nosso contato enfraqueceu. Mas entre todas as matérias publicadas pelas 18 edições da revista, considero a reportagem sobre a vida do saxofonista Charlie Parker, escrita por Jean, a melhor de todas.

Jotabê lembra do estilo do crítico:

Cortês e elegante, não costumava cultivar a polêmica fácil e ficou conhecido no meio musical por sua doçura e resistência ao debate hostil. Recentemente, Neufville buscava voltar à atividade de crítico, que tinha abandonado desde que assumiu a de tradutor. Considerava que a música vivia um momento de impasse, sem criatividade, e ocupando-se mais de combinações de coisas pré-existentes do que da busca do novo.

Forastieri também:

Jean-Yves era especializado, desesperado por música. Se preparava cuidadosamente para entrevistar os artistas. Ouvia álbuns repetidamente para preparar as resenhas. Aporrinhava editores com questiúnculas para ele da maior relevância, sempre com português preciso e aquele sotaque frrancês, Andrrê, Forrasta etc. Ouvia rock e jazz e MPB e música clássica com idêntica ausência de preconceitos. Eu, fundamentalista dos três minutos, não conseguia entender. Discutíamos música sem fim, traçando x-saladas e rabadas ao molho ferrugem nos botecos dos Campos Elíseos.

Parir uma crítica era trabalho de ourivesaria. Sofria, suava, levava século e meio. Uma vez, fechamento da Ilustrada atrasado, só faltava seu artigo. O secretário de redação veio cobrar aos gritos: desce como tá, vamos fechar já! Corta pelo pé (é como jornalista chama o fim da matéria, o pedaço mais dispensável). Jean-Yves deu o contra: é melhor cortar aqui – e começou a aparar as primeiras linhas do texto, onde, na teoria, deveria estar o mais importante… e a gente ao lado passando mal com a cena.

Uma vez veio pedir, todo educado: você já escreveu este ano sobre os novos discos da Legião Urbana e Titãs, não se incomoda se eu fizer os Paralamas? São as três bandas mais importantes do Brasil. Respondi que sim, lógico, besta com delicadeza do colega experiente, quase dez anos mais velho.

Vendi para ele meu primeiro computador, primeiro dele também, com impressora e uma mesa metálica trambolhenta pra acomodar tudo. Eu tinha dito que era um 386, me confundi, ignorante. Levei na casa dele, instalei, a máquina liga, é um 286. Ele tudo bem, sem problemas, vou usar é para escrever mesmo. E aí abriu uma cerveja, e passei horas explorando sua enciclopédica coleção de discos. Me apresentou sua mulher, Valéria, linda e inteligente. Pensei: Jean é um homem de sorte.

Mas ainda me impressiona que não haja nada da obra do crítico franco-paulistano online. Alguém consegue sacar alguns de seus textos clássicos de alguma cartola? Quem achar pode copiar nos comentários.

Você pode gostar...

13 Resultados

  1. Pink Floyd

    The Dark Side of the Moon (1973)

    (Edição 21,Abril de 1987)

    Polêmico, este disco. Gravita entre a absoluta adoração de sues fiéis e a crítica não menos feroz dos seus detratores. É bom sinal. Será mesmo a Grande Obra de Roger Waters (baixo, vocal), Rick Wright (teclados), David Gilmour (guitarra, vocal) e Nick Mason (bateria)? Alguns poderão preferir “The Piper at the Gates of Dawn”, de 1967, o primeiro LP da banda, quando seu líder era um louco iluminado e genial chamado Syd Barrett, ou ainda Ummagumma, de 1970, a soma definitiva do rock psicodélico. Quem sabe os mais de 20 milhões de cópias de “Dark Side…” vendidas no mundo inteiro e sua permanência por 630 semanas consecutivas nas listas dos mais vendidos da Bilboard – recorde absoluto – possam ratificar essa escolha. Mesmo que as más-línguas digam que muitos o adquiriram apenas para testar a estéreo-quadrifonia de seu equipamento de som… o que não deixa de ser um elogio, de certa forma.
    Foram oito meses de gestação nos famosos estúdios Abbey Road de Londres, em clima geral de renovação. A palavra de ordem: a música deveria ser mais amarrada, mais próxima à urgência do rock. Ao final de 1972, o material está pronto. Para fazer a mixagem, Roger Waters chama Chris Thomas, que já havia participado da mixagem do duplo álbum “branco” dos Beatles e produzido os LPs “Grand Hotel”, do Procol Harum, e “For Your Pleasure”, do Roxy Music. “Cada um tinha uma idéia diferente do que devia ser feito. Precisavam fazer a síntese de tudo isso.” Todos concordavam com pelo menos uma coisa – a ordem dos títulos deveria transmitir uma idéia de progressão e variação em torno de um mesmo tema: “São todas as pressões da vida moderna que podem nos levar à loucura. Essas pressões têm por nome dinheiro, viagens, planejamento, que nós músicos sentimos muito mais que o homem da rua. Quando tudo vacila, chega-se ao estado patológico do lunático” (David Gilmour). Pela primeira vez o Pink Floyd aderia ao concept album.
    Todas as faixas foram concebidas como filmes sonoros, feitos de bandas magnéticas preparadas por Nick Mason. Batidas de coração, respiração, passos, relógios, risos histéricos, gritos, moedas caindo e caixas registradoras não somente servem de ilustração como se integram à própria estrutura rítmica da cada composição, em particular na seqüência “Speak With Me”/ “Breathe”/ “On The Run” e em “Money”, hit entre os hits. Se a força da evocação desses sons é extraordinária, eles não interferem com os momentos mais líricos do álbum, como em “The Great Gig in the Sky”, onde, sobre fundo de piano e órgão Hammond, Clare Torry edifica uma interpretação vocal que ficará entre as mais pungentes e líricas da década. Em “Brain Damage”, Roger Waters tece uma vibrante homenagem a Syd Barrett, numa reconstituição poética atormentada do universo poético da alienação.
    Se “Dark Side…” parece trazer uma certa pasteurização do som da banda, se os caleidoscópios de cores que dominavam as longas viagens lisérgicas dos LPs precedentes se transformaram num prisma de onde as cores surgem ordenadas e limpas (uma metáfora certeira para descrever a nova importância do estúdio, agora transformado em espaço central de criação, o que torna a música mais artificial e deixa seus autores mais distantes), em compensação, os avanços técnicos primorosos exibidos por este álbum – em particular a tomada de som, a cargo de um certo Alan Parsons… – ajudaram a banda a alcançar uma força de expressão cósmica capaz de unir o passado à modernidade, que só encontra paralelo num disco lançado por coincidência no mesmo ano, a trilha sonora de “Laranja Mecânica”.
    Levantando as barreiras que opunham até então as gerações musicais, Pink Floyd joga as bases para a criação de uma música ao mesmo tempo moderna e universal.

    Jean-Yves de Neufville

    http://rateyourmusic.com/lists/list_view?list_id=133037&show=50&start=0

  2. Brian Eno

    Another Green World (1975)

    (Edição 27,Outubro de 1987)

    O barulho acompanha a formação do universo, a grande explosão primeira, os sons da natureza, fontes de terror, fascínio que o homem procurou dominar para dar forma aos rituais de sacrifício, festa, guerra, luto etc. A partir dos sons, arquitetou-se a música que foi evoluindo através dos séculos. No século XX, redescobriu-se a dissonância (Stravinski), apareceram os sons eletrônicos (Varése, Stockhausen, Cage) e concretos (Schaeffer), mas a abordagem popular da música derivada do folclore sempre se manteve dentro de padrões essencialmente conservadores, cada geração curtindo um estilo, uma moda (blues, jazz, rock, soul…), todas variações em torno de uma mesma estrutura básica. Com o advento do sintetizador e a evolução das técnicas de gravação em estúdio, o rock’n’roll foi se sofisticando, as bandas injetando eletricidade em torno da mesma estrutura, procurando desesperadamente renovar a música dita pop.
    É justamente em 1975, ano considerado o menos criativo da década, que Brian Eno sugere (melhor do que lança) “Another Green World”, após quatro anos de provocações e extravagâncias glitter, dois dos quais passados a colocar Roxy Music nos trilhos. Poderia ter sido mais um LP de pop music. Os nomes dos músicos convidados podem enganar: Robert Fripp, o inevitável Phil Collins e John Cale (ex-Velvet Underground), para citar os mais famosos. O que se descobre é um álbum de 14 canções e miniaturas instrumentais onde os climas se alternam em tons e semitons suaves, em que a eletrônica tem um papel básico. As melodias são simples, as harmonias são reduzidas ao mínimo de notas, os instrumentos se sobrepõem por camadas (Eno toca sozinho metade das faixas), e todos sem exceção sofrem um tratamento específico, têm sua sonoridade alterada, seus timbres modificados. Onde o Pink Floyd, por exemplo, recorre a efeitos acústicos para fins ilustrativos, Eno incorpora sintetizadores, vozes e efeitos como um todo orgânico. Estamos ouvindo pela primeira vez um disco de rock em que a preocupação principal é com a textura dos sons, linhas do tecido musical, como meio de criação de uma atmosfera.
    As atmosferas claras, luminosas de “St. ElmoÕs Fire” (com solo perfeito de Fripp) ou “I’ll Come Runing” alternam com as atmosferas inquietantes de “Sky Saw”, que abre o álbum com uma base de quatro notas econômicas de guitarra “digital”, ou “In Dark Trees”, instrumental em que as guitarras recriam o efeito da buzina de um veículo em movimento. Além dos teclados, sintetizados ou não, Eno toca uma série de instrumentos inusitados: uma guitarra “serpente”, outra “desértica” e até uma chamada “porrete”, órgãos “encrespados”, piano “incerto”, um gerador de ritmos tratados, percussões elétricas, sintéticas, peruanas, “espasmódicas”, “elementos elétricos”, sons “não naturais” e fitas constam da ficha técnica.
    Em 1982, Eno chegou a tecer alguns comentários a respeito: “Neste disco, procurei inscrever cada composição numa paisagem específica, de modo que o ambiente determinasse as formas de atividade instrumental que poderiam ocorrer. Isto se deu com mais freqüência por meio de efeitos de eco mecânicos e eletrônicos e delays; ecos da curta repetição sugerindo espaços urbanos retilíneos, por exemplo, e até hoje essas possibilidades têm sido usadas realisticamente para evocar espaços que fossem reconhecíveis. De “Another Green World” em diante, voltei meu interesse para o exagero e a invenção mais do que para a reprodução de espaços, experimentando em particular várias técnicas de distorção do tempo…”
    O álbum teve uma repercussão razoável quando lançado. Mas abriu novos horizontes para “um outro mundo verde” , cuja influência é determinante para a música deste final de século.

    Jean Yves Neufville

  3. Phil Spector

    Phil Spector’s Christmas Album (1972)

    (Edição 42,Janeiro de 1989)

    É curioso constatar que, num país tão religioso como o Brasil, não haja tradição para a composição de canções de Natal. Fora honrosas exceções, como a famosa “Boas Festas”, de Assis Valente, cantada por Carlos Galhardo nos anos 30 e perpetuada como marchinha de Carnaval, todas as músicas que se referem à festa e povoam os monitores de tevê neste período do ano são composições tradicionais importadas da Europa e dos estados Unidos.
    Uma tradição intimamente ligada à música popular americana do século, a partir dos cantos gospel de autores semi-anônimos, das composições de Irving Berlin e tantos outros, interpretadas por Judy Garland, Bing Crosby, Aretha Franklin, Ray Charles, Elvis Presley… Quase todos os grandes cantores prestaram um dia homenagem ao velhote de manto púrpura e barba branca.
    Mas a obra-prima do gênero é, sem dúvida, o “Christmas Album”, de Phil Spector, um compositor e produtor que nasceu justamente no dia 25 de dezembro de 1940, no Bronx em Nova York. Este clássico entre os clássicos é percorrido pôr treze faixas luminosas, com interpretações impecáveis de cantores soul, como Bobby B. Soxx & the Blue Jeans e Darlene Love, e ainda dos girl-groups The Ronettes e The Crystals, principais estrelas da gravadora Philles, dirigida por Spector.
    Este álbum apresenta várias curiosidades. Embora reuna dezenas de músicos, intérpretes e compositores diferentes, é acima de tudo a obra de seu produtor, que levanta aqui o edifício mais acabado do seu estilo, o “wal of sound”. É uma das primeiras vezes na história que o processo de gravação de um disco é abordado como forma de criação artística absoluta. Spector Passou meses no estúdio, onde se dedicou à busca da perfeição para cada música. Megalomaníaco dos sons, ele se definiu assim: “Minha abordagem do rock’n’roll é wagneriana. Faço pequenas sinfonias para a garotada”. Para tanto, ele levou a técnica dos overdubs – a sobreposição de cinco ou seis guitarras, três ou quatro pianos, inúmeras percussões com baterias, castanholas, tamborins, sinos e tímpanos – até suas últimas conseqüências, para criar uma massa sonora de proporções até então inéditas. Os músicos que participaram dessas gravações – entre eles os guitarristas Glen Campbell, Sonny Bono e Barney Kessel, o Pianista Leon Russell e o baterista Hal Blaine – contam que Spector resolver gravar algumas partes do álbum no banheiro do estúdio (o Gold Star, em Los Angeles), porque somente ali conseguia a acústica e a reverberação de que estava precisando.
    O álbum foi lançado sob o título “A Christmas Gift for You”, às vésperas do assassinato do presidente John Kennedy. Os americanos não tiveram humor para apreciar suas músicas alegres e embaladas. Mesmo assim, o disco freqüentou os charts a cada ano, na época do Natal, principalmente na Inglaterra, onde foi reeditado pela Apple Records, selo dos Beatles, e rebatizado “Phil Spector’s Chrismas Album”, a partir do nome dado pelo público. É extraordinária e muito mais importante do que se pensa a influência de Phil Spector sobre a música pop dos últimos trinta anos.
    Numa entrevista recente, Brian Wilson, líder dos Beach Boys, reconheceu que criou confiança e buscou inspiração nos discos de Phil Spector, no início de sua carreira. Quanto aos Beatles, ele fez a remixagem do LP “Let It Be”, co-produziu “Imagine”, de Lennon, e voltou ao seu estilo “wall of sound” no LP triplo “All Things Must Pass”, de George Harrison, em 1970. Mais recentemente, Spector produziu os Lps “Death of a Ladies Man”, de Leonard Cohen, e “End of the Century”, dos Ramones.
    Mas nada melhor que este disco, que iluminou até hoje muitos Natais de seus felizes possuidores.

    Jean-Yves de Neufville

  4. Ike & Tina Turner

    Proud Mary: The Best of Ike & Tina Turner (1991) [Compilation]

    (Edição 97,Agosto de 1993)

    Está certo que o Ike Turner foi um péssimo maridão e sua ficha incluia várias estadias em prisões do estado da Califórnia por consumo e tráfico de cocaína. Em compensação ele foi o homem que gravou em 51 – com apenas 20 anos! – o primeiro disco de rock’n’roll da história (“Rocket 88”) junto a banda Kings Of Rythm. Foi quem descobriu e lançou aquela mulher, quem montou um dos shows mais tórridos dos anos 60 – em competição direta com James Brown – e gravou os 23 singles que compõem essa coletânea indispensável. Assim, ele não pode ser de todo ruim.
    Basta uma rápida olhada na biografia de Ike e Tina Turner para sacar como os produtores de Hollywood estavam dormindo no ponto. E até mesmo o recém-lançado filme “What’s Loves Go To Do With It”, não deve dar conta da história desse casal que começou do nada , que virou lenda e que acabou em ópera bufa.
    Nos 17 anos que atuaram juntos, Ike e Tina não mostraram talentos excepcionais de compositores. Ele, um pianista e guitarrista autodidata que começou tocando com B.B. King, Howlin’ Wolf e Johnny Ace, foi um arranjador de primeira grandeza e um produtor musical irregular. Ela, o vulcão que todos conhecem, até hoje talvez a única cantora negra capaz de rivalizar com Aretha Franklin.
    Editada em 91, esta coletânea é por enquanto o melhor registro disponível da trajetória musical do casal. Começa com os sete primeiros singles (registrados de 60 a 62): de “A Fool In Love” a “You Should’a Treated Me Right”. Eles flagram em gravações mono a transição do rhythm’n’blues para o soul.
    Ficam entre parênteses os anos de turnês intermináveis de Ike And Tina Turner Revue, um período marcado por trocas frequentes de gravadoras, por singles raros e pelo “episódio Phil Spector”, quando o famoso produtor “alugou” a voz de Tina a peso de ouro (por 20 mil dólares) em 66, para gravar. “River Deep, Mountain High” – que se tornou um grandioso fracasso de vendas.
    A seleção pula direto de 62 até 69 e pega fogo instantaneamente na fusão soul/rock, sintetizadas nas fantásticas versões de canções dos Beatles (“Come Together”), dos Rolling Stones (“Honky Tonk Women”), de Sly And The Family Stone (“I Want To Take You Higher”), do Creedence Clearwater Revival (“Proud Mary”) e The Who (“Acid Queen” da ópera-rock Tommy, que foi levado às telas com a própria Tina no papel da “rainha do ácido”). Não é exagero dizer que todas elas conseguiram superar as versões originais e nesta compilação foram intercaladas por preciosidades do calibre de “Nutbush City Limits” e outras jóias obscuras.
    No fundo a história do caso Ike e Tina Turner levanta a seguinte dúvida: o fato de realizar obras de arte relevantes pode redimir um criminoso drogado que espancava e aprisionava sua mulher?
    Você decide… Mas antes de tudo, escute este disco.

    Jean Yves de Neufville

  5. John Coltrane

    A Love Supreme (1965)

    (Edição 118,Maio de 1995)

    Eleito “disco do ano” pela crítica especializada quando lançado, em 64, consagrado hoje por jazz rappers (na coletânea Red, Hot & Cool), A Love Supreme, a obra-prima de John Williams Coltrane (1926-1967), ultrapassa os limites de seu estilo e tem uma sintonia extraordinária com os anos 90. Talvez por ser um exemplo raro de expressão da espiritualidade na música moderna, Coltrane permanece a grande referência de todo músico interessado em desenvolver as técnicas de improvisação e, com isso, expressar “algo mais” por meio de seu instrumento.
    Nos anos 50, John Coltrane cruzou seu sax tenor sucessivamente com os trompetes de Dizzy Gillespie e Miles Davis e com o piano de Thelonius Monk.Com o primeiro aprendeu a lidar com influências musicais do resto do mundo.Com o segundo,chegou à perfeição formal de sua expressão,enquanto o terceiro ensinou-lhe a ousadia.
    Além de gravar discos tão importantes quanto Kind Of Blue (com Miles em 59), Coltrane forjou uma técnica musical revolucionária que lhe permitiu explorar tonalidades nas escalas altas e desencadear avalanches de harmonias em níveis inéditos.
    Fruto do trabalho de aprimoramento em conseguir alcançar estados de puro transe obsessivo, essa técnica de execução: 1) levou o instrumentista a tocar solos cada vez mais longos; 2) fez com que os músicos de seu conjunto tocassem simultaneamente linhas melódicas diferentes, o que acabou desembocando no free jazz, movimento do qual Coltrane foi mentor; 3) facilitou as combinaçães de sua música com as escalas orientais, as texturas sonoras e os ritmos vindos da Índia e da África.
    Alternando o sax tenor e o soprano a partir de 60, na busca de um leque maior de cores, Coltrane alcançou a plenitude artística ao formar seu quarteto definitivo: Elvis Jones (bateria), McCoy Tyner(piano) e Jimmy Garrison(baixo),algo expresso nas quatro peças de A Love Supreme,onde mescla a energia do bop e a suavidade do cool.Os temas criam uma nova ordem modal,onde silêncio,texturas e moods valorizam-se numa estrutura aberta,livre. Coltrane administra o caos para instaurar uma dimensão cósmica. Trinta anos depois, as possibilidades do disco ainda estão para ser exploradas, quando o pop enfrenta um tremendo impasse criativo.

    Jean Yves de Neufville

  6. Foi tudo que eu achei, xará.
    Mas de fato os arquivos da literatura musical brasileira maltratam os seus autores…

  7. Yann de Neufville disse:

    Agradeço muito a quem encontrou as matérias do meu pai.
    Muito obrigado

  8. Tenho a coleção em CD-Rom da Bizz completa. Tá tudo lá. De lá, tirei estes textos clássicos:

    CURE – TOUR BRASIL 87 ( Revista Bizz # 021 – Abril de 1987 )

    EXCLUSIVO BIZZ

    Uma das melhores bandas pop do mundo, no topo da forma, apresentando o melhor de seu repertório. Não é todo dia que isso acontece do lado de baixo do equador. Dá até para entender – com o beabá da psicologia – as críticas ranhetas dos que, uns anos atrás, cultuavam a banda como se ela fosse “vanguarda”. Quem foi aos shows com a cabeça livre e desentupida teve o privilégio de ver/ouvir/viver momentos inesquecíveis – uma banda sem egolatria, que concilia a textura de “A Forest” com a simplicidade pop de “lnbetween Days” e “Close to Me”.
    E, privilégio por privilégio, quem se deu bem foi nosso repórter Joan-Yves de Neufville, escalado para o tour-de-force de ser a “sombra” de Bob Smith e seus asseclas de Porto Alegre a São Paulo, em hotéis, aviões, passagens de som, restaurantes. Eis aqui o seu diário de bordo, estendendo o privilégio aos leitores de BIZZ, colocando você nos bastidores dessa maratona. De tabela, uma entrevista mais que suculenta e, modéstia à parte, um furo mundial: a primeira audição do novo álbum do Cure. Relaxe, goze!

    Quinta-feira, 19 de março, 18 horas. Robert Smith, Simon Gallup, Laurence Tolhurst, Porl Thompson e Boris Williams atravessam o corredor formado por seguranças e entram no ônibus, indiferentes aos gritos dos cinqüenta fãs que põem o aeroporto de Porto Alegre em alvoroço há várias horas. No ar, muito nervosismo. A equipe técnica, formada por 11 integrantes, segue no outro ônibus. O Cure está no Brasil.
    Uma primeira surpresa: Smith mudou de novo seu visual. Seu cabelo já cresceu. Ele responde a todas as perguntas da primeira entrevista coletiva com ar introspectivo, encolhido, pesando as palavras. Por vezes troca idéias com Simon Gallup, sempre a seu lado. Os outros preferem ficar calados. Enquanto isso, a equipe técnica já saiu para o Gigantinho, onde o trabalho de montagem do palco deverá se estender durante a noite inteira.
    Sexta-feira, 20 de março. A passagem de som no Gigantinho, prevista para as 16 horas, irá atrasar até as 18. Nos camarins, uma mesa cheia de pratos basicamente vegetarianos está à espera. Durante os ensaios, à espera da hora do show, Porl Thompson se diverte com seu passatempo favorito: o skate. Com calma aparente, cada um se prepara para a apresentação. A lista das músicas que vão ser tocadas cai em minhas mãos: é praticamente o mesmo roteiro seguido durante a turnê The Head on the Door, do ano passado. Um pouco decepcionado, pergunto a LoI Tolhurst se não vai haver nenhuma música nova. Ele confirma.
    No ginásio, o público já está entrando. Os alto-falantes tocam música de Brian Eno, Bob Marley, uma seleção de músicas tradicionais irlandesas, Kate Bush. O ginásio está cheio. As 21 horas, as luzes se apagam. Um instrumental de 5 minutos, estrondoso, leva a platéia ao delírio, enquanto a fumaça invade o palco dominado por uma luz azul. A música é “Relax”, gravada por Robert Smith e Steve Severin (The Glove). A excitação está num ponto de não-retorno quando as cinco silhuetas aparecem em seus postos. A luz rasga o palco com os primeiros acordes de “Shake Dog Shake”. Da esquerda para a direita: Porl Thompson (guitarras, teclados, eventualmente um baixo ou um saxofone), Robert Smith (vocais, guitarra, Simon Gallup (baixo), Laurence Tolhurst (teclados). No fundo, Boris (bateria). O que aconteceu durante essa primeira noite deverá ficar por um bom tempo na memória de quem estava presente. O público surpreendeu o próprio grupo, cantando e batendo palmas em ritmo, não apenas durante a execução das músicas mais conhecidas, como “Inbetween Davs”, mas também quando o grupo interpretava canções inéditas no Brasil: “Faith”, faixa-título do terceiro álbum do Cure, foi o momento alto de todos os shows.
    Mais tarde, Robert Smith dirá: “Fui pego de calças curtas. A gente não tocava essas canções há sete meses. Eu tinha esquecido as letras e o público me ajudou. Não consigo acreditar. Aquela gente estava realmente selvagem”. A segunda noite correu sob o mesmo modelo que a precedente, agora com um assédio cada vez mais intenso dos fãs entre o hotel e o ginásio. O Cure como um todo está mais tranqüilo. A provinciana Porto Alegre deu a melhor recepção possível a essa banda de provincianos ingleses.
    Domingo, 22, sala de espera VIP do aeroporto de Porto Alegre, antes do embarque para o Rio. Olho com certa curiosidade Robert Smith. Ele se botou num canto da sala. Está sozinho, recolhido. A banda, no Rio Grande do Sul, apresentou principalmente músicas conhecidas no país. Em compensação, tocaram uma mundialmente inédita: “Whv Can´t I Be You?”, no segundo bis. Uma forma de presentear e homenagear este público.
    Robert medita, mergulhado profundamente num mundo que é só dele. Olho para os outros: Simon, Lol, Porl e Bons conversando entre si. Esta cena fria se repete em várias oportunidades.
    No avião, resolvo quebrar o gelo distribuindo alguns jornais ingleses. Assim, eles passam a viagem inteira lendo e fazendo comentários. Porl Thompson me surpreende de novo, depois do skate: ele não se separa de uma bolsinha a tiracolo de pelúcia preta, em forma de ursinho.
    A estada no Rio corre na maior discrição. Ninguém sabe que o grupo está hospedado no Hotel Rio Palace. Andy, autor de várias capas, está aí. Ele veio fazer fotos da banda para o novo álbum: a capa do LP Kiss me, Kiss me, Kiss me, que terá na frente o dose de um olho. Vontade de pôr a mão numa fita deste álbum é que não falta.
    Segunda, 23 de março, 16 horas. O ambiente na coletiva de Imprensa é de confusão. As perguntas correm desencontradas, desinformadas, desinteressantes. Na mesa, Robert, Lol, Porl, Simon e Bons trocam folhas de papel com desenhos e frases com piadas sobre o que está acontecendo. As coisas se arrastam até a última pergunta, proferida por um jornalista carioca e dirigida a Smith: “Quem é a verdadeira Mary (a namorada de Robert)? Simon ou Laurence?” A entrevista é interrompida. Este acontecimento merece alguns comentários. Não se questiona o direito dos jornalistas fazerem todas as perguntas que desejarem, inclusive as mais polêmicas, a partir do momento que todo o trabalho de informação já foi feito. Neste caso, ironia e agressividade não tiveram o menor efeito – se voltaram contra seu próprio autor e, mais grave, sujaram a imagem de toda a classe profissional ali presente, comprometendo o trabalho de muitos jornalistas no decorrer do resto da turnê.
    Depois de uma tarde movimentada, a banda entra no ônibus para um passeio de ida e volta até a entrega de prêmios da BIZZ. Chegaram, subiram no palco para receber o troféu e foram embora: “Não entendemos muito o que estava acontecendo, mas achamos divertido”, dirá Lol, de volta ao hotel.
    No bar, consigo finalmente conversar com Smith. As minhas perguntas vão imediatamente ao assunto: o novo álbum. Mas como descrever canções para alguém que não as ouviu? Robert profere as palavras luminosas: “Vamos ouvir este disco já. Assim você vai ter algo consistente para informar”. Dito e feito. Meu coração está a mil por hora quando subimos com Lol. Simon e Georges (um jornalista francês, da revista Best) até o quarto de Robert. Sento no chão, perto do gravador que há de derramar durante duas horas a íntegra dos novos trabalhos do Cure. Uma sensação de privilégio me domina, logo superada pelo interesse crescente pela música. O novo disco do Cure me parece o que fizeram de melhor. Ao longo das dezoito faixas, descubro grande variedade de estilos, do funk à balada mais romântica. A voz de Robert está mais afiada do que nunca. Fica uma certeza: os rapazes são mestres em construir canções pop sob medida.
    Terça-feira, 24 de março, 12h30. Estou no saguão de entrada com as minhas malas. Desde ontem à noite a banda manifestou o desejo de viajar de ônibus para Belo Horizonte, dispensando o avião. A idéia mostra muito exatamente o espírito da banda: aceitam se encaixar dentro do sistema… até certo ponto. Dentro dele, procuram agir com o máximo de liberdade possível. Mas, desta vez, a máquina é mais forte, e acabamos tomando o caminho do aeroporto. O vôo é chato e sem histórias. A chegada ao hotel Real Palace, idem. Estou no meu quarto há minutos quando toca o telefone.Arthur Couto Duarte, editor do Gass, o único fanzine digno desse nome no Brasil, me espera na recepção. Não foi difícil convencer Simon e Laurence a dar uma entrevista. Os músicos fazem algumas revelações: Laurence conta que a mãe dele morreu durante as gravações do LP Pornography. Talvez seja uma explicação das mais convincentes para a depressão daquele álbum. Pergunto a Simon se ele chegou alguma vez a assistir a um show do Cure quando estava separado da banda (82/85). Sim. Bastante empolgado, ele conta essa experiência: “Da platéia, consegui entender o verdadeiro sentido do grupo, aquilo que ele sempre representou, e tive vontade de voltar”. É a primeira vez que vejo Simon tão sério. Para, maiores detalhes, leiam o Gass nº 9.
    A conversa é tão interessante que continua no meu quarto com Laurence e Bruno, um integrante da equipe técnica. De todos os membros da banda, Laurence “Lol” Tolhurst talvez seja o mais comunicativo, prestativo. Muito engajado, ele representa uma espécie de garantia de que o Cure nunca irá perder seu espírito anticonformista. É o guardião da integridade do grupo… Em compensação, Simon Gallup é o curinga, o brincalhão da banda. E freqüente vê-lo surgir de repente do camarim dando gritos grotescos e dizendo coisas incompreensíveis. É também o último a se levar a sério: “Não sou obrigatoriamente um baixista”, diria ele. “Gosto de ser baixista porque estou no Cure.”
    Quarta-feira, 25 de março. Esta cidade, aparentemente tão pacata, nos saúda com uma manifestação de rua dos bancários. Na frente do hotel a bagunça é geral. Não se sabe mais quem é fã e quem é manifestante.
    À tarde, deixamos o hotel para conhecer o Mineirinho. Pouco antes da chegada, o ônibus quebra. Todos terminam o trajeto de carona. Em compensação, único show previsto em terras mineiras teve correr sem maiores surpresas, cm um ginásio cheio em 70%.
    Na volta ao hotel, um drama. Descubro que o Cure vai voltar ao Rio de Janeiro de ônibus descubro também que, por ordem de Chris Parry – o empresário) da banda e dono da Fiction Records -, não vou poder participar dessa viagem.
    Quinta-feira, 26 de março. Tenho pouco tempo para reverter a situação. Minha passagem de avião está marcada para as 13h15. Não tem jeito. O manager é mais teimoso que todos os mineiros ali presentes. “Você vai ter mesmo que voltar de avião…”
    Rio de Janeiro, meia-noite. Apesar da longa viagem. Boris Williams vai dar uma esticada na boate do hotel. Dos cinco, é aquele que se encaixa mais no “espírito rock´n´roll pronto-para-todas…” Recebo o recado de que a minha entrevista exclusiva com Robert Smith está confirmada para o dia seguinte, ás 15 horas.
    Sexta-feira, 27 de março. As 15h30, Smith está à minha frente. Calmo, circunspecto, procura sempre as palavras antes de responder a uma pergunta. Ele mostra uma clareza fora do comum em suas análises. Sem dúvida, uma inteligência brilhante e refinada. 17h30: a entrevista termina. Antes de entrar no elevador, ele se volta para mim e grita: “Muito boa!” Tenho apenas cinco minutos para pegar minhas coisas mio quarto. No saguão de entrada do hotel, encontro Robert de novo. Ele me entrega as duas fitas do, novo álbum: “Você precisa ouvir isso melhor…” No ônibus, a caminho para o Maracanãzinho, meu walkman está no último volume.
    O calor que abafa o ginásio vai ficando cada vez mais forte à medida que o público vai entrando. PeIa primeira vez vejo os músicos sofrerem. A temperatura deve beirar os 40 graus. O concerto que se segue talvez o mais memorável da turnê. Para falar a verdade, do ponto de vista técnico, as coisas não andaram muito bem. O encordoamento das guitarras, dilatado pela temperatura, desafinou os instrumentos. Mas tudo passou despercebido pela maioria dos espectadores que lotavam o Maracanazinho. Entre os pontos altos do show, ninguém vai esquecer o momento de graça que aconteceu durante a execução de “Faith”. A batida envolvente foi acompanha pelas palmas da platéia, com milhares de isqueiros se acendendo em ritmo. Essa Robent Smith e seus curados não vão esquecer tão cedo. Um arrepio de beleza e comunhão entre o artista e a platéia. De repente, lembro que a canção tem por título “Fé´´… uma coincidência? De volta ao hotel, tranco-me no quarto e fico ouvindo as fitas até altas horas da madrugada.
    Sábado, 28 de março. Acordo com o gravador a meu lado. Fico trancado até a hora da saída do ônibus, de medo que alguém lembre que estou com essas fitas de volta… Já nos camarins do ginásio acontece o que eu temia – Mick, o chefe da equipe técnica, diz que “Robert está pedindo as fitas de volta… Só me resta devolver. O segundo show, ajudado por uma temperatura mais amena, foi melhor tecnicamente. A vibração do público, ainda que impressionante, não chegou a atingir o estado de graça da véspera.
    Domingo, 29. Dia de descanso. Nos vários bares do hotel e na piscina, todos aproveitam. 16 horas: um comboio de três carros sai para o Maracanãzinho. Lá, uma dificuldade: o diretor do ginásio impõe uma condição. Só seria permitida a entrada na tribuna de honra de terno e gravata (!!!???). Vencidas as dificuldades, outra surpresa espera a banda: nosso famoso beijoqueiro – que provavelmente adivinhou o nome do novo disco – se precipita no momento oportuno sobre Simon Gallup, errando o alvo. Violentamente rechaçado pela segurança, ele consegue, no entanto, voltar ao ataque e tenta agarrar Boris Williams. Finalmente, ele é expulso do local. 21 horas: todos se reúnem no lounge principal, à espera do início da festa que a Polygram oferece à banda na boate do hotel.
    O ambiente não poderia ser melhor. Aproveito pana fazer algumas perguntas a Porl Thompson. O universo dele é a música e um instrumento – a guitarra. Seus modelos: Jimi Hendrix e Jimmy Page. Conta com orgulho que possui uma das vinte Fender Telecaster 1957 que existem no mundo. Confessa que odeia os teclados quando questiono sua postura um tanto quanto displicente no palco em relação a este instrumento. E capaz de agarrar um saxofone e até um baixo quando for preciso, mas não abre mão da guitarra. No ano que vem, quer deixar os teclados.
    Segunda-feira, 30 de março. É com dificuldade que consigo emergir da cama. Cancelada a entrevista coletiva em São Paulo, a banda resolveu curtir o sol carioca por mais um dia. Mesmo assim, resolvo voltar a São Paulo, onde a redação desta revista está me chamando aos gritos.
    Terça-feira, 31 de março. Hoje, envelheço na cidade. Trintão. É duro. Passo o dia articulando uma idéia que me persegue desde o início da turnê: já que todos eles gostam da comida indiana, reunir a banda para um jantar no Govinda, um dos melhores restaurantes desta metrópole. As dificuldades são grandes. Oficialmente, para a recepção do hotel Hilton, o Cure ainda não chegou em São Paulo. Impossível conseguir qualquer tipo de confirmação ao convite já feito no Rio.
    17 horas: consigo finalmente um consigo com Robert Stephenson, o relações-públicas do grupo. A princípio, tudo bem. Mas nada oficial. 20 horas: bato à porta do camarim no ginásio do lbirapuera. Chris Perry está doente e ficou no hotel. Arranco finalmente um “0K” de Malcolm Ross. O ambiente que precedeu o primeiro show paulista foi o mais tenso de toda a turnê.
    22h30: retiro-me antes do final do show. Corro até minha casa e, num instante, chego de táxi no hotel, com namorada, roupa nova e tudo. 23h30: a banda começa a chegar ao salão. 23h50: Malcolm Ross me avisa que Robert Smith não vai poder ir. Meia-noite: Robert Smith, em pessoa, aparece e confirma sua presença. 00h10: todo mundo no ônibus. Sirvo de guia.
    00h35: vejo, como num sonho, o staff completo de BIZZ recebendo a banda. Vamos logo ao que interessa: um jantar delicioso está à espera. Definitivamente, o mais incrível aniversário da minha vida!

    O disco novo: um duplo de várias faces e viagens

    Como um presente especial para o nosso repórter, Robert Smith mostrou com exclusividade, em primeiríssima mão, a fita do novo disco Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me, inédito no mundo inteiro. Deve ser lançado ainda em maio na Inglaterra e um mês e meio depois aqui no Brasil. Jean-Yves registrou as Impressões – e a emoção – de ser o primeiro jornalista a conhecer o mais recente trabalho do Cure. Vamos a ele…

    LADO 1
    “The Kiss”
    Introdução de guitarra, lenta, sintetizadores envolventes. O clima retoma o período de Faith e Pornographv.

    “Catch”
    Uma canção muito leve, com uma mistura de violino e sintetizadores tocando violino, tudo sugerindo fragilidade. Tocada nos dois últimos shows em SP.

    “Torture”
    Uma balada mais pesada, com uma linha de baixo muito criativa que vai sendo envolvida, aos poucos, pelos sinths. Envolvente e hipnótica. Tocada no último show, em SP.

    “If Only Tonight We Could Sleep”
    Começa com uma guitarra dialogando com uma cítara, num tom de balada que lembra viagens. Os efeitos de guitarra caem como chuva, bem psicodélica com efeitos de flauta sintetizada.

    LADO 2
    “Why Can´t I Be You?”
    O hit do LP. Funk com batida lembrando “Modern Love” (D. Bowie), naipes sintetizados. Robert canta com uma voz enraivecida, estranhíssima – ele nunca cantou assim. Apresentaram várias vezes durante a turnê.

    “How Beautiful”
    Uma balada com guitarras leves e linha de baixo simples e criativa. De repente, entram sintetizadores com timbre de acordeão: Remember that day in Paris”… A voz intercala com acordeão e violino sintetizado.

    “Snake Pit”
    Batida oriental e hipnótica, longa introdução, com solos de guitarra dialogando ao longe, meio no fundo, e baixo firme e seguro. Os instrumentos vão envolvendo aos poucos, num clima de viagem psicodélica, com sonoridades indianas.

    “Hey You”
    Rock mais clássico. Brilhante intervenção de sax de Porl Thompson, ritmo rápido.

    LADO 3
    “Just Like Heaven”
    Baixo, guitarra e sintetizador numa balada meio roqueira, lenta e alegre.

    “Hot Hot Hot”
    Funkaçot Guitarra â la Chic, Robert barbariza com a voz: “Hey, hey, hey yes I like it”. Envolvida por um diálogo entre o sintetizador e o trompete.

    “All I Want”
    Rock-balada mais pesado, introdução com guitarra saturada e baixo.

    “One More Time”
    Canção lenta, sintetizadores flutuantes, lindas sonoridades melancólicas nos arranjos.

    “Like Cuckatoos”
    Balada viajante, ele canta com a boca bem próxima do microfone. Robert não conseguia cantar essa música, só foi conseguir sentado no escuro dentro do estúdio. Os sintetizadores lembram música de câmara. É a preferida dele.[

    LADO 4
    “King Sugar”
    Nesta, a bateria em ritmo afro domina. Introdução com sax e linhas de baixo sempre inesperadas e criativas.

    “Perfect Girl”
    Balada em ritmo 3/4, leve e luminosa.

    “1000 Hours”
    Outra balada lenta, introdução com sintetizadores. Triste, lembra New Order.

    “Shiver and Shake”
    Rockão à la New Order, clima paroxístico.

    “Fight”
    Outra canção pesada, rock lento, lindo e envolvente com clima de revolta, quase uma marcha. E a preferida do grupo como um todo.

    • Arthur G. Couto Duarte disse:

      Aproveito a citação de meu nome e do velho fanzine Gass – que editei por 10 anos, por sinal, e ao qual o caro Jean Yves foi tão generoso na ocasião, não só pelo comentário na Bizz quanto por me facilitar acesso ao Cure, anes mesmo que ele fizesse sua exclusiva com Robert Smith – para manifestar meu pesar por sua morte, do qual fiquei sabendo, por acaso, ao adentrar o blog do Alexandre Matias, esta noite. É, Jean Yves foi quem realmente me abriu as portas para colaborar de fato na BIZZ, pois, até por volta desta tour do Cure, minhas poucas colaborações – solicitadas pelo também excelente crítico e ex-editor da revista, José Augusto Lemos, tinham ficado restritas à matérias sobre a cena rocker mineira dos 80. O fato é que, nessa época, ele editava a seção de crítica de discos, e me convidou para fazer resenhas naquele encontro. Topei, mas tive um certo receio, pois, até então, só fazia textos para fanzines e programas de rádio/TV de Belo Horizonte. O “trabalho sujo” acima me invade então a lembrança e é como escutasse agora o Jean Yves; Cara, não tenha medo, não. Fale mesmo o que sentir e achar pertinente, mesmo que seja alguém conhecido como a Rita Lee – e foi assim que, meio do nada, me tornei conhecido como “carrasco” de bandas brasileiras do rock ’80 – função que jamais quis exercer, aliás, pois sempre pedia que me pedissem críticas/matérias de bandas de fora, que era o que eu realmente gostava e gosto, mas não teve jeito: ele, e, depois, os caros Alex Antunes e Celso “minho k” Pucci, talvez para fugir de “eventuais” invasões da redação em SP (como a que aconteceu, por exemplo depois que “desci a lenha” em um disco do Kiko Zambianchi, que, segundo lembro ,entrou lá, possesso, perguntando, “quem é esse tal de Arthur G. Couto? Vou matar esse cara”) só me mandavam discos de bandas do Br-rock – função, creio, enquanto “trabalho sujo”, também o pessoal paulista que comandava a coisa foi dividida estrategicamente com colegas de Porto Alegre e Salvador, em especial…Enfim, que os deuses te recebam muito bem. Fique em paz, Jean Yves – “Break on through to the other side”…
      Arthur G. Couto Duarte.

  9. Aqui uma entrevista que ele fez com Robert smith:

    ( Revista Bizz # 021 – Abril de 1987 )

    por Jean Yves de Neufville

    BIZZ – Qual é o papel de um rock star no mundo, hoje? Ele está aí para divertir apenas, ou ele pode transformar as pessoas, tendo nisso uma certa responsabilidade?
    Smith – É uma pergunta realmente difícil. Eu nunca quis ter qualquer tipo de responsabilidade. Não estou casado, não tenho filhos. Na verdade possuo apenas poucas coisas, odeio a idéia de estar preso pelas coisas. Eu poderia viver em qualquer lugar. Isto não me incomoda. Só pelo fato de estarmos vendendo mais discos agora, dizer que a nossa responsabilidade aumentou me soa um tanto injusto. Sinto responsabilidade diante das pessoas para quem o Cure representa alguma coisa. É algo difícil de ser explicado, mas quando recebo cartas das pessoas dizendo “não se esqueça de gente”, pessoas gritando atrás da gente, fotografando… penso então que é verdade. A parte do grupo da qual gosto é que as coisas que fazemos têm valor para uma série de pessoas por diversas razões, mas não acho que sou desse tipo de pessoa, não me sinto um pop star. Eu não gosto de ser alvo de muita atenção. Para falar a verdade, eu acho muito difícil suportar isso, após certo tempo… A maioria das pessoas que se consideram pop stars são irresponsáveis no pior sentido, pois dão um exemplo que não deve ser copiado, como se nada importasse a não ser o sucesso. Há muita gente assim que reduz, tudo a uma questão de sucesso. É horrível. O que o Cure tem feito, ao longo dos anos, é tentar tornar bem claro que o importante é o que está envolvido na maneira como as coisas são feitas. Esse disco mesmo, não me importaria… Espero que certas pessoas gostem dele pelas mesmas razões que eu, pelo que ele é e não porque temos uma imagem assim-assado e somos um grupo que de repente ficou popular. Não gosto de pensar sobre isso. Esse é o exemplo que sempre dei para as pessoas à nossa volta. Nunca fiz nada de que me arrependesse depois. Na minha vida pessoal sim, mas com o grupo não. Não gosto de aparecer em público gritando ou vomitando de bêbado, mas também não quero me sentir como um missionário que vai percorrer o mundo todo e se meter em assuntos políticos. É algo completamente diferente de sentar e colocar seus pensamentos e emoções em forma de canção… Isso não implica em responsabilidade em outras áreas. E agora as pessoas vêm, cada vez mais, perguntar o que eu penso sobre isso e aquilo.. Eu não quero falar sobre nada disso! Não me sinto indicado para isso!

    BIZZ – Por mais que eu tente lembrar, nenhuma de suas canções tem conteúdo político. O que você acha de certas tomadas de posição como aquela de Morrissey, o líder dos Smiths, que tentou justificar o suicídio de alguns fãs?
    Smith – Em primeiro lugar, não me sentiria confortável usando o grupo como um mero veículo há algo no Cure que está além e transcende a política. Muita gente considera a política como a realidade, como o que afeta as pessoas no plano da vida real. A música afeta as pessoas nos planos da emoção e do intelecto. Em segundo lugar, se você tem uma certa sensibilidade, se você sente uma certa compaixão, não precisa que venham lhe ensinar o beabá da política, que existem direitos humanos básicos, que as pessoas têm de ter liberdade e que se isso não acontece é uma injustiça. Sempre relutei em me envolver até em coisas como Greenpeace (movimento ecológico para o qual o Cure já contribuiu), pois tenho uma consciência aguda de que… não gosto de política partidária. Você mencionou os Smiths, não gosto deles, não gosto do Morrissey, do modo como se alinharam com o movimento vegetariano… O movimento é muito maior que o grupo e há pessoas que podem acabar desprezando o movimento porque desprezam o grupo! Posso imaginar gente dizendo, depois de nosso envolvimento: “Odeio o Greenpeace, porque odeio lhe Cure”. Por isso prefiro colaborar de uma maneira anônima. Só depois que o movimento descobriu que eu era o “famoso cantor do Cure” que começou a vir atrás de mim e eu aceitei, porque poderia parecer que não tinha coragem de me envolver. Fez mais bem do que mal, mas o que eu temia aconteceu, gente dizendo: “O Cure e o Greenpeace foram feitos um para o outro, eles vivem num mundo irreal”. Por isso, não nos envolvemos com política. E claro que, como indivíduos, fora do grupo, estamos envolvidos. Outra coisa é que nós mesmos temos nossas divergências nesse sentido, não existe um “pensamento político” do Cure… Estamos todos entre o centro e a esquerda, mas há os mais radicais e os nem tanto. Imagino Laurence como o mais radical. Então não posso virar porta-voz e ficar dizendo o que é certo e errado. Um deles vai discordar. Temos grandes discussões, quando não estamos trabalhando, sobre coisas como política, religião… Não – atrapalha nosso relacionamento. E um comportamento normal do ser humano, mas não tem nada a ver com o que eu canto. Não quero discussões e crises sobre o que eu canto.

    BIZZ – Encontrei num dicionário de Inglês a palavra “cure”. Você sabia que uma das definições da palavra, na gíria, é “pessoa excêntrica “?
    Smith – O quê? Em inglês?

    BIZZ – Em inglês, no dicionário Harrap´s Shorter…
    Smith – Eu não sabia disso. Que dicionário mesmo? Nunca ouvi ninguém usar a palavra nesse sentido, não deve ser comum. Deve ser gíria antiga. É curioso.., num sentido de “excentricidade idiota”. Já disse isso antes num outro contexto, eu nunca consigo camuflar meus instintos. Se eu quero fazer alguma coisa, acabo agindo como um guerreiro em relação a ela – é algo que chegou a me criar problemas na escola. Então se não tivesse hoje essa liberdade, se não estivesse num grupo, não sei… Não gosto de pensar no que poderia ter acontecido comigo então. Com certeza, há cem anos atrás, não seria muito bem tratado. Quer dizer, a arte, a criatividade, sempre foi uma saída para as pessoas que não conseguem aceitar certos horrores da vida real. Mas me considero uma pessoa estável, embora não “certinha” do ponto de vista padrão da sociedade. A gente pode até pensar no que aconteceria se todo mundo se recusasse a encarar os absurdos da vida cotidiana. As pessoas dizem que sou excêntrico, mas não me acho nem um pouco. Só quando me comparo com os considerados “normais”, mas… em comparação em com as pessoas de quem eu gosto e com as quais me dou bem, talvez eu seja o mais equilibrado do momento!! Dentro do grupo, então…

    BIZZ – O que você achou da reação do público brasileiro? Foi uma surpresa ver as pessoas cantando?
    Smith – Sim. Isso me surpreendeu muito, o fato de saberem as letras. Eu estava preocupado… Não sabia se entendiam mesmo. Belo Horizonte tinha um público estranho, as pessoas que estavam na frente do palco pareciam estar se divertindo a valer, mas o resto – visto do palco – parecia bem menos exaltado, em comparação a Porto Alegre. Acho que Porto Alegre foi provavelmente mais do que selvagem…A primeira noite foi inacreditável…Tem sido great para falar a verdade. Fiquei muito contente de termos vindo de ônibus de Belo Horizonte para o Rio. Foi uma ótima decisão… Pudemos parar, sair, subir pelas colinas. Foi a primeira vez que realmente sentimos estar num país estranho, quando paramos numa cidadezinha do lado da estrada. Senão teria sido aquela história, de carro até o aeroporto, do aeroporto pro hotel… Até ontem eu não tinha percebido como este é um país horrivelmente pobre. Há uma miséria assustadora que não conseguimos ver do ônibus, na cidade. Quero dizer, é espantoso quando você pega a estrada e percebe toda a extensão de terras e que, ao mesmo tempo, não há nada ali, é louco! Estou surpreso com a diferença da cultura. Acho que isso explica a reação do público. Acho que nunca viram algo como o que a gente faz ao vivo. E uma experiência incomum e fico feliz que a reação seja tão boa.

    BIZZ – Entre as músicas que tocam antes de vocês entrarem no palco fiquei sabendo que é uma fita sua, tinha Brian Eno…
    Smith – Chieftains…

    BIZZ – Bob Marlev…
    Smith – … Nick Drake, Billie Holiday…

    BIZZ – Uma canção da Madonna, estou errado?
    Smith – Não é Madonna… Não sei o nome…

    BIZZ – São seus favoritos?
    Smith – Obviamente eu gosto das músicas que estão nas minhas fitas. Eu sempre achei que quando as pessoas chegam para ver um show é legal ter uma atmosfera. Quando tocávamos em lugares menores, tínhamos até um jogo de luz preparado para isso… É legal criar um clima, em vez de subir direto para o palco, sem se preocupar com nada, tratando o público como gado. Infelizmente, pelo tamanho dos lugares em que temos tocado agora, o máximo que podemos fazer é tocar um pouco de música que eles possam curtir, mas é também um complemento. Eu jamais tocaria algo do Echo & the Bunnymen, por exemplo, pois daria margem a comparações. Na minha cabeça, posso enxergar semelhanças entre Eno, Billie Holiday e os Chieftains, mesmo que muita gente não consiga. São coisas que me fazem feliz, na estrada e não antecipam nada do que nós vamos tocar. Fiquei muito surpreso com as pessoas batendo palmas e dançando quando começava a tocar Chieftains, foi genial. Isso só comprova que há semelhança, há coisas do folclore irlandês que soam parecidas com certas coisas da música folclórica brasileira.

    BIZZ – Você vê essas semelhanças? Quer dizer, com os Chieftains, é uma relação estranha… o Cure com música folclórica, tradicional…
    Smith – Pra falar a verdade, eu geralmente gosto da música tradicional de qualquer país. E o que disse na entrevista coletiva aqui, quando dissemos que a única música brasileira de que gostávamos de fato era o samba, a salsa (?)… – o tipo de música que não conseguiríamos ouvir em Londres. Para as pessoas daqui, pode passar despercebido, mas para mim é algo novo e interessante. Antes de virmos para cá, passei um mês na Irlanda – não ia para lá desde que era moleque – e ouvi os Chieftains e outras bandas tocando aquelas músicas nos bares. E ótimo! Você senta, toma um drinque e os vê tocando o que bem entendem. Não é turismo, é diversão pura. Gosto muito da música tradicional da Espanha, é linda!

    BIZZ – Você teve tempo de ouvir aquela fita que te dei de presente? (Cabeça de Nego, LP de João Bosco)
    Smith – Não… não tive. Eu ia ouvir todos os meus cassetes no ônibus e aí tive de ficar dando entrevistas. E depois o pessoal no ônibus queria dormir, não dava pra tocar nada. Mas estou interessado…

    BIZZ – …Você pode me dizer as suas dez mais?
    Smith – Não. O que eu posso fazer é dizer as dez que me vierem à cabeça, mas amanhã essas dez já serão outras. Há tantas coisas, por razões tão diferentes… Eu começaria com duas da minha infância, os dois primeiros compactos de que me lembro… “Help!” dos Beatles – eu tinha quatro ou cinco anos e minha irmã mais velha ficava pulando pela casa ao som dos Beatles e dos Stones… Me lembro que cresci ouvindo esses e coisas mais hard, como os Bluesbreakers de John Mayall, os Yardbirds, Captain Beefheart, que era o que meu irmão gostava. Me lembro bem do “Help!”, até hoje acho genial, é o tipo de coisa que quis fazer com “Boys Don´t Cry”, música pop bem sonhadora, que também os Buzzcocks e muitos grupos britânicos tentaram reproduzir… Outra que eu gostava muito quando era criança: “These Boots Were Made for Walking”, com a Nancy Sinatra. Também adoro até hoje, tenho numa dessas fitas comigo, principalmente pelo bumbum-bum (cantarola a linha de baixo descendente da música). Uma canção alegre e safada! Muitas outras coisas, é difícil escolher…, Me lembro quando “Purple Haze” chegou em primeiro lugar nas paradas, meu irmão punha sem parar. Gosto muito de Jimi Hendrix – eu gosto tanto das coisas dele principalmente pela atmosfera. Era um mestre e me inspirou muito no meu jeito de tocar guitarra. Eu nunca quis tocar como ele, mas queria ter aquela liberdade de fazer o que viesse à cabeça, isso é o mais poderoso… Também gosto muito, dessa mesma época, de “Ruby Tuesday”, com os Rolling Stones… Esse era o tipo de música que ouvia em casa com meu irmão, minha irmã e os amigos deles… mesmo que eu estivesse no meu quarto, à noite, dava para ouvir, eles tocavam no último volume… Foi assim até os anos setenta, até pintarem os primeiros compactos do Marc Bolan e “Life on Mars?” de David Bowie – essa é genial. Me lembro da primeira vez que ouvi, é um marco da minha adolescência. Todos os compactos do Gary Glitter também, são todos geniais, tenho todos, mas o especial é “Do You Wanna Touch” – nós costumávamos tocar essa, então tenho uma admiração particular por ela. Aí já temos seis… O próximo lote teria de ser da época punk, e meus favoritos seriam “Pretty Vacant”, com os Pistols, de arrebentar. Mas… tem tanta coisa… ´Hanging Around” dos Stranglers… tenho tudo isso até hoje nesses cassetes… e os últimos dois, do pop mais atual: “Everything´s Gone. Green” do New Order – para mim, a melhor coisa que eles fizeram – e… e… dez não yão ser suficientes.., vá lá, “Killing Moon” do Echo & the Bunnymen… Para falar a verdade, eu só pararia quando chegasse no número cem… Há uma média de cinco compactos por ano que eu guardo como momentos preciosos, e é isso. Esqueço com facilidade o resto das paradas. A maioria dos sucessos é tão chata!

    BIZZ – Há partes da história do Cure – e da sua história – que a maioria das pessoas aqui desconhece. Você poderia falar sobre Blue Sunshine, o LP que você gravou com Steve Severin, o baixista dos Banshees?
    Smith – Quando toquei com os Banshees pela primeira vez, isso em 79, fiquei muito amigo do Severin, mas depois não ouvi mais até a gravação de Faith, em Londres. Ele apareceu com Richard Jobson (N. da R.; vocalista/letrista dos Skids, que depois montou o Armourv Show) e começamos a falar que devíamos fazer algo juntos. Eu sempre gostei do jeito dele tocar baixo. Mas nada aconteceu até eu voltar a participar dos Banshees, e Siouxsie partir com Budgie para fazer o Feast (N. da R.: LP que o casal gravou sob a alcunha The Creatures). Foi a oportunidade que tivemos de ficar os dois num estúdio. Nós fizemos só para ver o que ia acontecer – a idéia inicial era gravar só um compacto, só tínhamos uma canção composta e nada mais. Não me lembro muito do que rolou, para falar a verdade esse período ficou borrado na minha memória, estávamos totalmente bêbados o tempo todo. Ficávamos bebendo e gravando a noite inteira, uma curtição. O disco é muito bom – parte dele é muito boa. Começou com uma brincadeira e foi se tornando uma coisa muito séria, no fim estávamos realmente preocupados com a recepção que ele teria, mas não fizemos nenhuma promoção, além de algumas entrevistas para a televisão inglesa, junto com a garota que cantava. Eu achei que, se eu cantasse, ficaria parecido com o Cure. Ela é uma ótima bailarina, mas uma cantora razoável algumas canções ela fez legal, outras nem tanto -, mas queríamos uma voz feminina. No conjunto quando o álbum saiu, não aconteceu nada, por isso pensamos: “Bem, nós nos divertimos muito, mas nunca mais trabalharemos juntos de novo”. Acabou acontecendo. Gravamos algumas coisas pra um segundo álbum, que se chamaria Music for Dreams, que deve estar em alguma gaveta na casa do Severin.

    BIZZ – Ao mesmo tempo, virou um disco cult, por assim dizer…
    Smith – E, é engraçado, parece até que anda sendo relançado em lugares onde o Cure vem se tornando popular. Nunca ganhei um tostão em cima desse disco, mas não me importo, considero-o um bom disco. É uma pena não termos investido mais uma grana para fazer um vídeo, teria chamado mais atenção.

    BIZZ – Tem também aquela trilha sonora do filme Carnage Visors…
    Smith – E, isso acabou saindo no lado B do cassete do Faith. Não sei se saiu realmente em todos os países em que foi lançado; naquela época, as edições de nossos discos eram bem menores, em número limitado. Tenho um comigo aqui se você quiser ouvir. É muito bom, até hoje acho uma das melhores coisas que fizemos, é todo instrumental. O filme era um desenho animado – para falar a verdade, não saberia dizer sobre o que é, acho que ninguém sabe -só Rick, o diretor, e ele nunca contou pra gente. É um cara estranho, muito, muito estranho. Me lembro sempre dele, cabelos bem compridos, oclinhos redondos, muito alto, sempre vestido de preto e quieto. O filme era muito violento, ele o fez na garagem de sua casa.

    BIZZ – E a reação do público, durante a exibição?
    Smith – Todo mundo odiou, de verdade, Hoje em dia, as pessoas dizem: “Me lembro bem, um filme genial”. Mas na época ninguém gostou, as pessoas se sentiram ameaçadas por ele, de uma certa forma… Bem, estamos fazendo um filme agora, mostrando o Cure ao vivo, mas obviamente é bem diferente, com uma idéia que eu sempre tive. É engraçado, quando estávamos excursionando para promover o Pornography, fizemos um outro filme, chamado A Lock, com pessoas de verdade. A música que fizemos pra ele é atonal, eu ficava sentado num piano martelando e em cima disso jogamos efeitos e microfonia… horrível. Não tinha mais que oito ou nove minutos também foi odiado. Essa trilha nunca foi lançada por que… se você ouvisse.., é uma barulheira mesmo, sem sentido algum.

    BIZZ – Esse novo filme com o Tim Pope já foi comparado ao do Pink Floyd em Pompéia… Mesmo os videoclips que ele dirigiu para o Cure têm esse clima de delírio, de desregramento dos sentidos, que parece casar perfeitamente com a música do grupo…
    Smith – Ele é um desses caras estranhos também. Quando o conheci, soube no ato que ele ia fazer um belo trabalho com a gente. Ele pegou um lado da minha personalidade que estava diluído no grupo e que as pessoas nunca tinham enxergado antes, uma espécie de “palhaço relaxado”. Ele pegou isso e tornou bem óbvio. Em relação ao filme, a comparação que eu faria.., bem, não existem muitos filmes de bandas tocando ao vivo que não foram encenados, com uma artificialidade horrível do tipo “vejam este grupo, eles fazem sucesso mesmo, veja que jogo de luz”. E o que Tim tentou fazer com a gente foi colocar a platéia como se fosse ela que estivesse no palco. Há coisas que eu gosto muito, nas quais entravam as mesmas técnicas que ele usava nos clips. Como quando tocamos. “Close to Me”, ele entra no palco e fica correndo, enfiando a câmara na cara de todo mundo, e eu tentando fugir dele. Coisas assim, que lhe ocorrem na hora. É um filme realmente divertido, para mim foi a primeira vez que vi como realmente é um show nosso. Adoro, já assisti algumas vezes. E claro que quem não gosta do Cure não vai gostar…

    BIZZ – Voltando à sua música, acho que ela é simultaneamente simples e criativa. Onde esses pontos se encontram? E um processo complexo?
    Smith – A canção em si, a base, é muito fácil e simples, eu já sei se vai funcionar ou não. Esse é meu trabalho – saber se vai funcionar. Por outro lado, no estúdio pode ser simples ou complexo, depende do tipo da canção, do que eu quero fazer, de quem vai tocar nela. Uma canção como “lhe Kiss”, do disco novo, vem de uma idéia bem simples e básica mas que, ao mesmo tempo, vai acumulando instrumentos, uma muralha sonora – essa era a atmosfera que eu queria… A canção é simples, a melodia, as tônicas, é tudo bem simples, mas na hora de conseguir esse clima foi difícil pra c *! Porque eu tinha que manter em foco tudo aquilo, enquanto punha a guitarra num só take. Fiquei dois dias só me preparando para isso, queria que fosse a coisa mais potente que eu já tivesse feito. Já uma canção como “Catch” é tão simples que a fizemos numa só tomada. Nós não sabíamos disso, mas assim que tocamos percebemos que não havia nada nem a acrescentar nem a tirar.

    BIZZ – Uma das mais complexas me parece ser ´A Forest´…
    Smith – Esse é o aspecto que a coisa adquire quando se entra no estúdio, das possibilidades que se têm na mão – que eu odeio, para falar a verdade – de poder fazer tudo o que você quiser. Eu sempre achei que a gente não devia gravar nada que não pudesse ser reproduzido no palco, até um certo ponto. Não há muita produção no trabalho do Cure. Canções como “AlI Cats Are Grey´´ não ficariam tão boas. Por outro lado, se não tivessem aquele som cheio, poderiam ficar até banais. Mas atualmente eu prefiro a música mais limpa e seca, por isso o disco novo não tem muita produção. O som tem de ter sua individualidade. Isso é que é importante. E por isso, acho, que não há ninguém fazendo overs das músicas do Cure, acho que ninguém conseguiria direito. Não sei por que exatamente; o que concluo é que há algo ali além da canção em si.

    BIZZ – Para finaliza, você é otimista em relação a situação mundial??Estamos vendo uma civilização morrer ou nascer? Você é juiz neste mundo?
    Smith – Às vezes, sinto o mundo como um lugar bem pequeno. Outras vezes é imenso, com grandes diferenças entre os povos. Ainda assim, é pequeno em relação às pessoas que eu encontro, elas se parecem bastante. E difícil aceitar que haja um punhado de gente determinando o futuro de todas essas pessoas. Com certeza, onde eu vivo, na Grã-Bretanha, há uma forte tensão social já há uns, seis, sete anos… algo vai acontecer, está acumulado. Tenho medo desse tipo de tensão numa escala internacional, principalmente do confronto entre a União Soviética e os Estados Unidos, porque o futuro do mundo inteiro está em jogo. Me parece que o Ocidente tem de aceitar que a administração soviética é, aparentemente, mais flexível e menos perigosa que a americana, se os russos forem vistos como indivíduos e não como inimigos. Isso por eles mesmos. A impressão que se tem é que, por trás da Cortina de Ferro, existe apenas uma grande massa. Imagine essas pessoas com liberdade de criação, parece que está acontecendo. No momento em que isso se transformar também em liberdade de comunicação, a guerra se torna bem mais distante. Estes anos que estamos vivendo é que vão definir para que lado a coisa vai. O problema é que basta um telefonema para começar a destruição. Me preocupa o fato desse dinheiro estar sendo gasto com armas e não com educação, saúde, arte e cultura. Mas na Grã-Bretanha alguma coisa vai acontecer, já devia ter acontecido antes que a direita tomasse o poder…

    Quarta-feira, 1º de abril. Uma surpresa: para o seu penúltimo show, o Cure modificou radicalmente o roteiro, substituindo seis canções, e toca pela primeira vez “Catch”, uma deliciosa balada. Quinta-feira, 2 de abril, no camarim. Alguns instantes antes do show, uma palavra final do homem:
    “Passei a maior parte do tempo dividido entre duas situações totalmente opostas: a primeira no meu quarto, cortinas fechadas, tentando ficar sozinho. Porque assim que eu ponho o pé fora dali já começam a me puxar, a me entrevistar, a me fotografar. Tem sido bem esquizofrênico. Eu gostei da excursão por várias razões. A principal é que fiquei realmente surpreso de ver como as pessoas aqui são expansivas e calorosas. A gente tinha uma situação de conforto no hotel, mas na rua tínhamos de assinar autógrafos. Não dá para recusar essas coisas. Talvez tivesse sido melhor se tivéssemos vindo há um ano, quando não haveria tanta gente em cima. E, aí, a gente poderia sair para ver as coisas. Eu gostaria de voltar”.

  10. Da edição especial da Bizz sobre New Wave:

    UM CHUTE NO SACO DOS ANOS 70

    Afinal, o que foi o punk? Você vai ter respostas diferentes conforme perguntar a um americano ou a um inglês, entre aqueles que participaram deste movimento. A resposta americana, seria qualquer coisa assim: o punk começou com os freqüentadores do clube CBGB de Nova York e as bandas que se apresentaram lá a partir de 1974 (Ramones, Television, Patti Smith, Blondie, Talking Heads…) como uma aliança entre uma multidão de kids desocupados e uma gangue de art rockers que sofriam da síndrome de Rimbaud, isto é dos jovens portas românticos e decadentes.
    Os inglleses lhe dirão que Malcolm McLaren, Bernie Rhodes, Jamie Reid e mais um punhado de iluminados inventaram o punk, criaram os Pistols e o Clash do nada e saíram para as ruas, provocando o mundo com roupas esdrúxulas, cortes de cabelo absurdos, violência, xingamentos, exibindo suásticas. Também dirão que, tirando Iggy e os New York Dolls, ninguém nos States era realmente punk e sim uns babacas e (cuspe!) uns artistas. Além disso, o punk verdadeiro foi um movimento de TRABALHADORES empurrados por multidões de garotos revoltados simultaneamente com o perigo nuclear, a piada do Estado de bem-estar social e trabalhos chatos, cara.
    Sim sim sim, mas o que foi, quem o fez e por quê Basicamente foi uma aliança de conveniência entre dois bandos que tinham em comum uma vontade alucinada de erradicar para sempre o marasmo bordélico e incrivelmente chato em que o rock branco estava embrenhado. De um lado havia uma turma de espertinhos (McLaren e companhia) que queria sacudir as coisas e fazer dinheiro. Achavam que a melhor maneira de fazê-lo era religar a tomada do Fator Ruptura no rock. De outro lado havia uma facção mais aguçada e explosiva em meio às bandas de pub rock pós Dr. Feelgood, reagrupada em torno, de Jake Riviera (empresário de Dr. Feelgood) e Dave Robinson (empresário de Graham Parker). Em julho de 76, os dois fundam a Stiff Records, a primeira gravadora independente da história. O primeiro compacto é lançado no mesmo mês: Nick Lowe, “Heart of The City” / “So It Goes”. Da Stiff surgiriam as bandas mais importantes da new-wave.
    O punk foi o resultado da tensão entre os anarquistas e os fundamentalistas do rock: estes queriam que o rock´n´roll voltasse a ser uma música excitante e que valesse a pena. Aqueles queriam simplesmente destruí-lo. As duas facções se divertiram, as duas fizeram dinheiro e, no final das contas, as duas fracassaram. Outro forte fator de união entre os punks (Clash, Pistols, Generation X, Stranglers, Darmned, Banshees, Buzzcocks, Understones, as brigadas de 15 minutos como Sham 69, Lurkers, Drones, Nosébleeds, etc.) e os new wavers Elvis Costello, Ian Dury, Boomtown Rats) era seu ódio consensual pelos anos 70.
    De início, o punk representou uma oportunidade para os jovens: antes do punk, o rock era monopolizado por músicos mais velhos. O punk também permitiu que as mulheres subissem ao palco e participassem do circo, simplesmente porque todos estavam partindo de uma posição de igual incompetência (tirando aqueles que sabiam tocar mas não confessavam, por medo de comprometer sua imagem. Nada mais engraçado ver o Police tentando tocar como os punks…). Nessa situação, os preconceitos tradicionais o se aplicavam e as mulheres de Chissrie Hynde e Tina Weymoulth, empunharam guitarras e baixos. Bandas como X-Ray Spex (com sua cantora lendária Poly Styrene), e as Slits, a primeira banda formada originalmente só por mulheres (Viv Albertine, Ari Upp, Palmolive e Tessa), podem não ter leito) muito sucesso mas abriram o caminho. Hoje é absolutamente normal ver uma mulher tocando rock´n´roll.
    A música negra escolhida pelos punks foi o reggae que, ao Contrario do blues, que tinha inspirado os grupos dos sixties, era tocado por negros locais que eram contemporâneos dos punk. O punk adotou o reggae e o levou para casa. Mesmo se a morte de Bob Marley impediu que o processo fosse até o fim, os efeitos desta aliança permanecem a terceira grande contribuição do punk.
    E finalmente tem música. Serem dúvida, ficarão a posteridade a raiva sulfurosa dos Sex Pistols, o hinos à rebelião entoados por Joe Strumner sobre os riffs metralhados por Mick Jones, o estilo de guitarra tão peculiar de Paul Weller – líder do Jam – derivado da escola Pete Townshend/Wilko Jhonson. Para a new wave ficará a selvageria saudável de Elvis Costello e sobretudo um personagem diretamente saído de um romance de Dickens, criminosamente desconhecido no Brasil, chamado Ian Dury. Físico atrofiado pela pólio quando criança, e cockney incurável, o cantor/compositor cometeu com sua banda, os Blockheads, dois álbuns imperdíveis: New Boots And Panties (77) e Do It Yourself (79), numa fusão rara de punk e dance music.
    Desde então o rock nunca soou tão bom, tão urgente, tão direto, tão necessário. Nenhuma banda hoje é capaz de segurar a comparação. Porque é impossível voltar atrás. Tudo o que aconteceu na música pop desde 1945 foi re-re-re-re-revivido e o punk é agora mais uma opção no guarda-roupa da cultura universal, Hoje os tempos São duros demais para que se queira enaltecer ou romanticizar a pobreza e a maioria das pessoas prefere parecer mais próspera do que é realmente.
    Tanto o hippie como o punk procuraram mudar a maneira com que a música pop é produzida e consumida e ambos deixaram a indústria mais forte do que antes. Se uni dia o pop voltar a anunciar que o negócio é subversão, deverá ser muito, mas muito convincente.

    por Jean Yves De-Neufville

  11. Da mesma edição especial – cuja capa está no topo desta matéria, aliás:

    OS SINTETIZADORES ENTRAM NA DANÇA

    Há mais de 15 anos nascia o primeiro puro produto de síntese musical. De uma proveta não identificada escapava um pequeno compacto intitulado “Pop Corn”, musiquinha chatinha e descartável. E só. Depois, foi preciso esperar até 1979. Naquele ano, as brasas do pós-punk já estavam se alastrando. A influência da Kraftwerk começava a se fazer sentir o Joy Division assinava o manifesto frio dos anos que estavam por vir.
    Na Europa, começam a surgir aqui e lá grupinhos seguidores das experimentações de Brian Eno e David Bowie, que se reuniam em volta de um sintetizador, agora, um instrumento mais barato e mais acessível.
    Todos estavam fascinados por duas inovações: a primeira era a possibilidade de programar seqüências inteiras de notas, extraindo da engenhoca frase cenas usadas tomo linhas de baixo- A segunda era a possibilidade de se programar o andamento inteiro da música através de ritmos eletrônicos – que ameaçavam tirar o emprego de muitos bateristas por aí.. Na verdade, estes instrumentos eram vistos como trampolins para novos experimentos, e abriam horizontes para a renovação do rock.
    Filho do Kraftwerk e de Giorgio Moroder (o criador da disco music) o tecnopop se contituiu de seis grupos fundamentais. Fundado pelos analistas de sistemas Lan Craig Marsh Martyn Ware em 1979, o Human League admite. Phil Oakey, ex- enfermeiro, como cantor. Após dois álbuns injustamente ignorados (Reproduction, de 79. e Traveloque, de 80),o sucesso só aconteceu depois da partida do fundadores e da chegada das loiras geladas Joanne e Suzanne para o LP Dare, grande clássico da tecno disco. Human League é um dos grupos que mais trocou de pessoal – de três integrantes a doze, com variações intermediárias.
    Marsh e Ware fundaram o Heaven 17, recrutando Glenn Gregory para segurar o microfone. Com seus ternos Giargio Armani e seus sorrisos rutilantes, os três músicos são a versão yuppie do gênero. Se especializaram na confecção de compactos de sucesso, pérolas de funk chic e leve, cujas letras – coisa rara – são particularmente bem feitas. A dupla também fundou em paralelo o B.E.F. (British Electric Foundation) para realizar trabalhos conceituais e experimentais.
    Outra banda farol do tecnopop é o Depeche Mode, em que se destacam Martin Gore (o cérebro) e David Gahan (o vocalista). Nascidos no meio do movimento new romantic, provaram desde seu primeiro L.P, Speak and Spell, de 81, que eram capazes de compor pequenas maravilhas de tecnopop baseadas em fórmulas simples.
    Formado pela dupla Marc Almond e David Ball, o Soft Cell durou dois anos e três álbuns geniais, marcados pelo fascínio do sexo mórbido. Enquanto David foi produzir o Vicious Pink. Marc iniciou uma carreira solo não muito bem-sucedida e continuou cantando a vida das putas, os cabarés de travestis e os mictórios públicos.
    Combinando o sintetizador com uma música pop absolutamente direta e dançável. Ultravox é considerado o primeiro grupo a ter aberto o caminho do eletropop e do movimento new romantic. Seus três primeiros LPs, Ultravox!, Ha! Há! Ha! e Systems of Romance (o primeiro co-produzido por Brian Ruo e Steve Lilywhite, o terceiro pelo legendário Connie Plank) são obras-primas do gênero.
    Yazoo é um duo mítico, composto por Vince Clarke e Alison Moyet. Tão fulgurante quanto o Soft Cell, deixou a mesma saudade. O primeiro álbum do Yazoo, Upstairs at Eric´s (de 82), meio rock, meio delírio, os lança com a faixa “Don´t Go” no caminho do segundo (e último), com título trágico e capa premonitória; You and Me Both, dois dálmatas lutando na neve.
    Yello é um trio, depois duo suiço que curte os trópicos (bananas, macacos, vudu e companhia). Sua produção é enorme. Muito experimentalistas no início, mestres da colagem sonora, mais harmoniosos que Art of Noise, se lançam depois na dance music e nas habaneras sintetizadas. Dieter Meier (vocal) nunca sabe qual vai ser o andamento das músicas que Boris Blank (teclado e máquinas) compõe no maior segredo. Vale citar ainda alguns nomes de menor importância, mas de grande influência, como Gary Numan, O.M.D. (Orchestral Manouevres in the Dark) e Thomas Dolby.

    por Jean Yves De-Neufville