A importância de Leonard Nimoy para a cultura atual

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Escrevi sobre a morte do ator que encarnava a essência de Jornada nas Estrelas e ajudou a popularizar a ficção científica pro UOL.

Sem Nimoy, reencontro de Kirk e Spock em novo filme não acontecerá

É inegável a importância de Leonard Nimoy para a cultura ocidental da virada do milênio. A representação magistral do alienígena mestiço Senhor Spock de “Jornada nas Estrelas” não só trouxe uma profundidade complexa, e às vezes ambígua, para a ficção para as massas como criou um ícone pop da estatura dos arcos do McDonald’s, das orelhas de Mickey Mouse ou o bigode do Super Mario.

Toda uma discussão que já existia nas páginas dos livros de ficção científica foi para a televisão e a presença pensativa e distante do vulcano de orelhas pontudas dava uma abordagem mais séria e filosófica para temas que estavam explodindo nas ruas no final dos anos 60, em protestos pela igualdade de direitos e contra a guerra.

Mas infelizmente ele não vai poder reencontrar sua dupla William Shatner no que poderia ser a grande celebração da história de “Jornada nas Estrelas”: o reencontro de Kirk e Spock revividos por seus atores originais em mais um filme bem sucedido da série reanimada por J.J. Abrams.

Nimoy já havia participado da franquia desde o primeiro filme, de 2009, quando o criador de Lost zerou a cronologia da série original. Mas uma série de mal entendidos com William Shatner o deixou de fora dos dois novos filmes, que são os únicos em toda a cronologia da série no cinema sem o Kirk original. No segundo filme, Além da Escuridão, de 2013, Nimoy ainda marca presença, mas apenas com sua voz.

As filmagens do terceiro “Jornada nas Estrelas” desta vez estão com Justin Lin, de quatro “Velozes e Furiosos” e dois episódios da próxima temporada de “True Detective”, deixando J.J. apenas na produção. Elas começariam no meio do ano e William Shatner já estava dando entrevistas e comentando em aparições em público que havia sido convidado para participar do novo filme. A volta de Shatner poderia marcar o reencontro de uma dupla central para a história da cultura pop.

Pois o equlíbrio da série era dado pelo antagonismo entre Spock e Kirk. Instinto e racionalidade, coragem e cálculo, intensidade e frieza. A dualidade elemental entre os dois personagens era enfatizada pela figura estranha criada por Nimoy, um híbrido de ser humano e alienígena que causava estranhamento e fascínio. O escritor de ficção científica Isaac Asimov detectou isso assim que a série estreou em 1967, ao escrever um artigo sobre o personagem inspirado por uma frase de sua filha adolescente: “Senhor Spock é um sonho!”, em que dizia que sua filha gostava do personagem porque ele era inteligente, não importa que ele tenha orelhas pontudas.

Spock é um de nós mas ao mesmo tempo não é, o que causa um curto circuito no conceito de “nós” que nos obriga a expandir nossa noção de humanidade para outras raças alienígenas. A metáfora clara é a própria condição humana, fragmentada entre biotipos, arquétipos e estereótipos que dividem mas que deveriam unir. Spock é um dilema que nos desafia a transpor conceitos de países, raças, religiões, gêneros ao sentar-se ao nosso lado, na mesma nave, não como antagonista, opositor, vilão.

O personagem é a encarnação do momento antropológico em que se percebe que o outro sou eu, e isso está mais na atuação e performance de Nimoy do que propriamente no texto do criador da série, Gene Roddenberry. Detalhes marcante do personagem – como a saudação judaica ancestral que o judeu Leonard trouxe para a contemporaneidade como cumprimento vulcano e a forma ambígua que pronunciava o adjetivo “fascinante” – foram criados pelo ator.

Spock era a essência da série. A tripulação da Enterprise era mais do que multirracial – era multiespécie e incluía até robôs, o que levava detratores a comparar episódios das diferentes encarnações da série com tediosas reuniões da ONU. Essa lentidão cheia de frases de efeito e lições de moral ganhou uma dinâmica completamente nova ao ser posta nas mãos de J.J. Abrams, a partir da década passada.

O diretor deu movimento e juventude à franquia, contando a história da tripulação clássica desde os primeiros dias. Isso apresentou a série para milhões de novos fãs e o trekker, antes a caricatura mais radical e extrema do conceito de nerd, tornou-se mais sociável e “humanizado”, num irônico encontro entre as personalidades do próprio Spock e do personagem Sheldon de “Big Bang Theory”, ele mesmo um trekker que encontra o ídolo Nimoy em um dos episódios do seriado.

(Parêntese rápido: Abrams ainda teve tempo de celebrar a persona de Nimoy ao criar um outro personagem icônico para seu ídolo: o doutor William Bell, da saudosa série “Fringe”, que também era dupla de um dos protagonistas da série, o excêntrico e adorável Walter Bishop vivido por John Noble, o melhor cientista louco da história da TV. Bell, como Spock, era frio e calculista, mas Abrams resolveu explorar os limites ambíguos do ator e criou um personagem que lentamente torna-se um grande vilão.)

O terceiro filme do novo “Jornada nas Estrelas”, portanto, poderia reunir Spock e Kirk mas entra para a série de reencontros que nunca veremos na história da cultura pop, como a volta dos Beatles (“Free as Bird” com o recado da secretária eletrônica no papel do John Lennon não rola, vai), do Clash, do Pink Floyd, dos Trapalhões ou do Monty Python (sem Graham Chapman não é Monty Python).

Mas não era uma volta de uma banda ou de um grupo, mas um reencontro de dois amigos que encarnavam como o estranhamento inicial de um encontro pode ser superado para se tornar uma sólida amizade.

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