A Dolores Duran de Nina Becker

Nina Dolores por Caroline Bittencourt

Em seu novo disco, Minha Dolores, Nina Becker saúda sua grande musa com arranjos de seu tempo, mas apesar do álbum ser um convite musical ao miolo do século 20 no Brasil, ele fala bastante sobre estes tumultuados dias no início do século 21. “Comecei a selecionar as músicas do disco em plena ressaca de todas aquelas manifestações que começaram em junho do ano passado”, explica a cantora. “Naturalmente fui selecionando canções que falavam do Rio. Porque para mim esse disco é uma espécie de resposta para tudo o que está acontecendo”. Essa proximidade entre passado e presente sempre esteve próxima à sua carreira, que já visitou Lamartine Babo, além de resgatar pérolas para os bailes da Orquestra Imperial.

“Desde muito antes de começar a cantar, fazia listas de ‘músicas antigas que eu achava que poderiam ter sido feitas hoje’, que é um critério bem subjetivo, mas virou um norte para o meu trabalho, uma espécie de ‘método’ de pesquisa eu uso para a vida. Levei para a Orquestra Imperial, que é um espaço maravilhoso para isso. Aliás, eu me convidei pra entrar para a Orquestra por causa dessas listas e as utilizei muito lá.” Nina descolou a música de abertura do novo disco para o site e é categórica ao recusar a nostalgia no novo trabalho. “Está tudo no disco, a canção que fala sobre a criminalidade e a violência nos morros, a relação entre a alta sociedade e a classe baixa, as modas da elite da época ironizados de forma que podemos reconhecer aspectos idênticos na nossa sociedade de hoje. Esse disco é tanto sobre a Dolores como sobre o Rio.”

Leia abaixo a entrevista que fiz com a cantora:

A primeira é a pergunta óbvia: por que Dolores Duran?
Na adolescência eu gostava de tocar violão e ficava horas afundada em songbooks, decorando cifras. Um dos que eu mais gostava eram os volumes da Bossa Nova, do Almir Chediak. Reparei intrigada que a Dolores era talvez a única mulher a figurar entre todos aqueles autores. Isso me chamou atenção e comecei a me interessar por ela. Mesmo gostando de rock e pós-punk eu também gostava muito de ouvir música brasileira e cantoras de antigamente, como Araci de Almeida, Dalva de Oliveira, Linda Batista, Doris Monteiro, Elizeth (Cardoso), Carmen Miranda, e ainda por cima nessa época apareceu aquele selo Revivendo, que relançou uma quantidade enorme de discos de 78 rotações.
Mas, enfim, o que me interessou na Dolores é que ela era cantora e compositora numa época em que as mulheres em geral eram só intérpretes. Além disso ela era uma mulher de opinião, independente, politizada, arrojada para a época, tinha verve, senso de humor, e isso me pegou. Eu meio que tenho uma certa fixação por isso, pela modernidade que aparece no antigo. Desde muito antes de começar a cantar, fazia listas de “músicas antigas que eu achava que poderiam ter sido feitas hoje”, que é um critério bem subjetivo, mas virou um norte para o meu trabalho, uma espécie de “método” de pesquisa eu uso para a vida. Levei para a Orquestra Imperial, que é um espaço maravilhoso para isso. Aliás, eu me convidei pra entrar para a Orquestra por causa dessas listas e as utilizei muito lá. Também usei isso no show que fiz em homenagem ao Lamartine Babo e agora para A Minha Dolores, porque – exceto pelo olhar dos que a conhecem apenas superficialmente e acham que ela só cantava fossa-samba-canção – a figura dela não envelheceu e isso me fascina.

E como surgiu a idéia de gravar um disco todo em homenagem a ela?
Quando lancei os discos Azul e Vermelho simultaneamente, fazia um show com músicas dos dois discos, mas o Vermelho acabou sendo privilegiado, pois no palco eu precisava de mais pressão com a formação de banda que eu tinha, duas guitarras, baixo e bateria. Um tempo depois decidi fazer um show do Azul em um formato menor, comigo na guitarra, mais um ou dois músicos. Nesse show, eu tinha sempre um momento em que cantava três canções da Dolores e falava um pouco sobre minha admiração por ela. Num desses shows, a Simone Esmanhotto e a Mercedes Tristão gostaram desse momento e tiveram a ideia de um projeto em que cantoras de hoje em dia homenageariam cantoras de antigamente. Elas se juntaram à Mariana Rolim e essa ideia acabou virando o programa Cantoras do Brasil, no Canal Brasil. Quando convidada, já fui logo avisando que, óbvio, a Dolores era minha. Ela já era minha, mas a partir desse programa ela passou a ser um pouco mais. No fim de 2013, depois de ter passado um ano mais em casa cuidando da minha filha Cora, estava planejando começar a compor um novo disco autoral, mas queria fazer alguma coisa nova para fechar o ano e montei esse show só com canções do repertório da Dolores, acompanhada apenas de um violão de 7 cordas e um bandolim. Era para ser uma coisa leve e divertida, sem a responsabilidade de transmitir um legado histórico, e eu escolhi as músicas que tinha vontade de cantar e pronto. Várias canções famosas dela ficaram de fora. Era para terem sido só dois shows, um no rio e outro em SP, mas o DJ Zé Pedro assistiu o show de SP e ficou louco com o repertório e com esse mergulho inesperado na obra dela e me convidou para gravar o disco e lançar pelo selo dele, o Joia Moderna.

A partir desta idéia, como foi que você escolheu quem iria fazer o disco contigo?
Desde pequena eu tinha contato com o universo do choro e do samba por conta do meu padrasto, Roberto Gnattali. Ele é maestro, arranjador e professor na Uni-Rio de várias matérias que envolvem história e evolução da música popular brasileira, arranjos e prática de conjunto. Com uma bela discoteca em casa, livros sobre o assunto eu fui muito influenciada por isso. Pixinguinha, Cartola, Noel, Geraldo Pereira, Radamés Gnattali, Braguinha eram nomes correntes e acho que talvez eu fosse a única criança na minha escola que conhecia essas figuras mais de perto. Engraçado é que através desse convívio com ele conheci muita gente do choro e do samba, mas quando fui trabalhar com música profissionalmente acabei me juntando com outra galera, que eu conheci adolescente, uma galera mais do rock.
Antes mesmo desse trabalho da Dolores, quando comecei a planejar meu próximo disco autoral eu achei que estava na hora de explorar outras sonoridades para a minha música e também de me aproximar um pouco mais da linguagem do choro e do samba, já que tinha essa natural intimidade mas isso não havia aparecido ainda no meu trabalho, por isso chamei o Nando Duarte, violão de 7 cordas e o Luis Barcelos, bandolim, (que são parceiros frequentes do meu padrasto) para montarem o show comigo e mantive esse formato no disco, porque funcionou. Na verdade o que eu fiz não foi recriar a atmosfera da época, pois essa formação nem era típica desse tipo de música de salão. O que acho que eu fiz, foi juntar as peças de um mosaico que é a minha formação musical, uma parte que estava faltando aparecer e que eu quis revelar, que fez sentido e ficou bonito.

Dolores Duran é uma artista essencialmente carioca e é inevitável visitar a cidade de seu tempo em suas músicas. Como foi para você fazer essa visita e comparar aquele Rio de Janeiro com o atual?
Eu comecei a selecionar as músicas do disco em plena ressaca de todas aquelas manifestações que começaram em junho do ano passado. Foi e está ainda sendo um momento de muitos questionamentos em relação à cidade, e também é um momento particular de preocupação de que tipo de cidade eu gostaria de apresentar para a minha filha, um futuro possível e mais otimista. Naturalmente fui selecionando canções que falavam do Rio. Porque para mim esse disco é uma espécie de resposta para tudo o que está acontecendo. Está tudo no disco, a canção que fala sobre a criminalidade e a violência nos morros, a relação entre a alta sociedade e a classe baixa, as modas da elite da época ironizados de forma que podemos reconhecer aspectos idênticos na nossa sociedade de hoje. Esse disco é tanto sobre a Dolores como sobre o Rio.

Ela também é uma artista de natureza triste, como eram os artistas de seu tempo. Como é comparar aquela melancolia típica daqueles tempos com o oba-oba esquizofrênico e a obrigação da felicidade imposta pelas redes sociais do mundo digital?
Aí é que está, a Dolores não era essencialmente triste. Muito ao contrário, embora tenha se tornado musa da fossa e do samba-canção, ela era uma intérprete ultra versátil, cantava gafieiras, sambas, cha-cha-chas, clássicos da música americana, até canções nordestinas ela gravou. Eu já tinha ouvido falar e depois, lendo a biografia do Rodrigo Faour tive a confirmação de que ela era uma pessoa engraçadíssima, cheia de senso de humor. E eu ainda acho que tem uma coisa, o samba-canção e a sua identificação direta com esse estigma da tristeza e da cafonice é uma coisa que permeava as revistas, a imprensa da época, mas não corresponde à grandeza do repertório que a Dolores construiu nos poucos anos em que ela viveu e trabalhou. E ainda acho também que o sentido do cafona no samba-canção e seu avizinhamento com o bolero me agradam muito. E como em todo e qualquer estilo musical, havia coisas ruins e coisas lindas, como “Outono”, do Billy Blanco, que era um gênio e também compunha em todos os estilos da época. A cafonice pode até mesmo nem ser cafona. E essa tristeza genérica a que você parece estar se referindo pode até mesmo conter um certo senso de humor para os ouvintes mais atentos.
Mas o que eu acho mais importante em todas essas questões é ver que, junto com o Tom Jobim, ela compôs Estrada do Sol, que foge totalmente ao padrão dramático e enfumaçado do samba-canção. É uma música solar e que já apresenta uma temática e uma estrutura muito próxima do que viria a ser a Bossa-Nova. Então a Dolores não deixa de ser uma pioneira da bossa nova, pois estava ali na raiz de tudo o que aconteceu depois, mas não viveu os desdobramentos desse novo movimento porque faleceu muito jovem.

E fora este novo trabalho, o que mais você tem feito? Ou 2014 é só Dolores?
Estou compondo para o próximo disco autoral e o exercício de fazer o show e o disco da Dolores estão sendo um ótimo laboratório para o som que eu estou interessada em fazer. Misturas. Além disso eu tenho trabalhado frequentemente como diretora de arte para uma marca de roupas daqui do Rio, a Fabula, que faz roupas infantis fabulosas. É um trabalho que eu adoro e que me completa, porque eu não conseguiria sobreviver um ano na minha vida sem ter que ir ao Saara (centro comercial carioca) escolher tecidos, que ir ao cenotécnico sentir aquele cheiro de madeira recém-cortada, sem ter que mergulhar em paletas, estampas, cores… Preciso disso pra ser feliz e até mesmo pra fazer a Minha Dolores.

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