A academia e o contemporâneo

– A academia tem extrema dificuldade de lidar com o contemporâneo – afirma Frederico Coelho, historiador, DJ e pesquisador do Nelim (Núcleo de Estudos de Literatura e Música), da PUC-RJ. – Por um lado, investiga-se o funk, o rap, pois é o outro, o estranho. E há o vício de se trabalhar com a música dos autores surgidos na década de 1960. Para mim, que tenho 36 anos, a década de 1980 já é história

Muito boa a matéria do Vianna que questiona o desconhecimento que a intelectualidade brasileira tem em relação à produção musical contemporânea que não seja erudita. Mas que bom seria se essa lacuna acontecesse apenas neste setor. Na verdade, ela só faz eco junto à visão generalizada da academia brasileira em respeito a tudo aquilo que aconteceu depois da ditadura. O pop, o digital, o independente, a rua – isso ainda não foi assimilado pelos “pensadores brasileiros”. Se tivéssemos que esperar por eles, o mangue beat acontecia no ano que vem.

Falo mais sobre isso – e cito uma exceção nominalmente – daqui a pouco, depois do almoço. Me cobrem.

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20 Resultados

  1. Fernando disse:

    Vou tentar cantar a pedra e vou dizer… Idelber!

  2. pablo disse:

    se é derivado do rock, metal ou punk, não há interesse. de resto, chamam TUDO de “mpb” – empacota tudo, resolve nada…

  3. Paula Maria disse:

    Concordo demais. Não somente a produção de música, mas também literatura, teatro, artistas em geral. Esse banzo e essa nostalgia “daquele tempo que era bom” me cansa um tanto. Parece que nada além de Chico pode ser bom…
    Pior de tudo é a galera das novas, gente da minha idade e até mais nova entrar nessa onda e também cegar-se dessa maneira.
    É preciso apostar, fazer ver, divulgar.

    Aguardo o “depois do almoço”, hein?

  4. YCK disse:

    Cadê a citação cara?

    😐

  5. Bruno disse:

    Engraçado, ia te mandar esse txt justamente porque achei um buraco imenso aí: mto desses nomes e relações foram e tem sim sido discutidos, em blogues, por exemplo.

  6. Onaicram disse:

    a colocação do fred eh bem pertinente. eu mesmo, q faço um mestrado cujo o tema eh mashup, já ouvi um professor meu dizer q blogs não podem ser considerados nem fontes nem referências acadêmicas.

  7. Igor disse:

    É tudo empoeirado.

    Mesmo quando existem boas intenções, pesquisador novo querendo falar sobre problemas do nosso tempo, na maior parte das vezes, o ranço antipático da academia com acontece fora dos campi também afeta esse cara – começando pelas linguagens.

    A universidade brasileira ainda acha que fazer conhecimento científico é apenas escrever artigo, compilar livro, distribuir nas bibliotecas públicas e, chorando, no máximo, upar um pdf pra um Domínio Público da vida. Isso quando o tempo da gente pede remix, youtube, arte, hibridismo, gambiarra e, porra, popular.

    Queria dedicar esse espaço pra mandar os pesquisadores que gostam de usar a palavra “concomitantemente” lavarem uma roupa.

  8. Mas se não é justamente a “elite intelectualizada” que conhece esses novos artistas hoje, ora bolas?
    A internet permitiu que essas novas caras pudessem lançar seu trabalho e serem reconhecidas por um nicho de, vamos ser otimistas, 2000 pessoas (a elite intectualizada também, por que não, ou tem que fazer Mestrado pra ser parte disso?).
    Muito mais triste que o descaso acadêmico é a falta de acesso/interesse que o público médio tem a respeito desse novos artistas. Quem desencanou da vanguarda e da arte em geral, com o menor remorso, foi a mídia de massa.
    No entanto, quanto mais penso nisso mais me parece que estamos discutindo um novo contexto com parâmetros anacrônicos. O que faz as preocupações acima não terem miuto sentido.

  9. kat disse:

    bom, a materia é focada só na academia do rio de janeiro, ne?
    na eca/usp tem uma linha de pesquisa chamada “historia oral da industria fonografica”, a ufba é referencia em estudos de cibercultura há anos, na unisinos (rio grande do sul) tem até uma “faculdade de rock”… embora pertinente, achei preguiçosa a apuração pra falar que não tem pesquisa nesse campo.

  10. Concordo, Kat, e conheço os exemplos citados. Concordo que a “apuração” foi preguiçosa, mas tu há de convir que isso é exceção…

  11. kat disse:

    concordo que a academia tem dificuldade em aceitar o novo e encarar algo tipo “estudo in progress…”. ando pesquisando instituições e linhas de pesquisa pra um futuro mestrado na área de “cultura contemporanea” e vejo que ainda usam as mesmas referencias teoricas de, sei lá, 10, 20 anos atrás, com raras e louváveis exceções… e acho isso ruim, claro. mas o jornalismo não tá muito atrás da academia nesse sentido, não. cade críticas e reflexões decentes sobre essas obras tão revolucionárias na nossa imprensa?

  12. Helo disse:

    Cadê a exceção de depois do almoço?

  13. Bárbara Lopes disse:

    Eu já não acompaho tão de perto o que acontece na música, muito menos o que acontece na academia. Mas nessa citação que você colocou aí eu vejo dois problemas: um é o imediatismo, que obviamente não combina com o mundo acadêmico. O mundo acadêmico é oposto a isso (alguma coisa tem que ser) e esperar que saia amanhã uma tese sobre o disco de ontem é ingênuo. Não é papel das universidades “cobrirem pautas”, com medo de levar furo.

    O outro ponto é achar que funk e rap mereceram atenção apenas pelo exotismo. Eles foram investigados porque, pelo menos até recentemente, deram de lavada no rock e na canção urbana. Musicalmente, comportamentalmente, tecnologicamente. Você sabe disso. Tem a ver com o deslocamento de eixo que houve na virada dos 1990 pros 2000, com a visibilidade que as periferias ganharam. O glôbal, como você escreveu uma vez. Se esse foi o fato mais importante da música, e não só, nas décadas anteriores (e eu acho que foi) é justo que tenha merecido atenção. Agora o texto parece se ressentir da falta de atenção (da academia!!!) dado ao eixo SP-Rio, uma parada que me soa meio reacionária.

  14. Mateus Campos disse:

    Há algum tempo, ouvi uma piada no Campus da PUC-Rio que a faculdade de Comunicação vai abrir uma cadeira especial para a disciplina “Rodrigo Amarante e Marcelo Camelo”. Pelo fato de eles serem ex-alunos, acabam sendo bastante discutidos em sala de aula lá. É pontual, claro, mas já mostra alguma mudança.

  15. RB disse:

    Isso sem falar a literatura, vide polêmica recente no Instituto Moreira Salles. Interessante que o Rômulo Fróes ecoou o gesto de muito escritor: já que a academia não sabe fazer a crítica, os artistas mesmos que o façam.

    abzz

    RB

  16. Onaicram disse:

    matias, sem dúvida a matéria peca pelo seu enfoque carioca (não fosse um jornal do rio, claro). mas, o q acho mais importante eh q já rolam questionamentos dentro da própria mídia tradicional sobre esse engessamento cultural q a eterna mpb causou ao mainstream nacional. logo ela, q sempre deu guarita aos seus pupilos. tudo bem q hj em dia nem interessa muito o q o caetano, a casé ou a conspiração apontam como “in” no segundo caderno, mas sinto ainda uma certa resistência ao novo q incomoda bastante. enquanto isso, inúmeras pesquisas (musicais, acadêmicas, culturais, digitais) acontecem brasil afora (em especial de 2002 para cá). como disse o pas outro dia no adomercido blog dele, está uma confusão, mas está maravilhoso!. e indo mais atrás no tempo, tornou profética a canção do rem, “it’s the end of the world, as we know it, and i feel fine’.

  17. Luiz disse:

    É bem complicado mesmo. Estou fazendo um Mestrado em História sobre o Ok Computer e as transformações tecnológicas da década de 1990, quase diariamente sinto na pele o preconceito da academia.
    Também aguardo da sua exceção…. rs

  18. Fred Coelho disse:

    Salve Alexandre, tudo certo? Realmente essa matéria teve repercussão, o que já é por si só um mérito, mesmo que a maioria da repercussão tenha sido negativa. Como toda matéria jornalística, é claro que tem pouco espaço para uma questão ampla, ganchos apressados e redução drástica de longas conversas em poucas linhas. Mas creio que a pauta é pertinente.

    Basicamente, a discussão do jornalista era compara o modelo, para muitos bem sucedido, de São Paulo com o que o corre hoje no Rio: muitas bandas cariocas que, ao contrário de SP, não constituem uma “cena” coesa. Some-se a isso uma certa simpatia de figuras acadêmicas paulistas como José Miguel Wisnik e constrói-se um espaço fortalecido de crítica e legitimação acadêmica e popular para os novos músicos e compositores de lá. Já no Rio, ainda segundo o jornalista e a pauta da matéria, essa coesão não ocorreria, além do silêncio da academia carioca sobre o mesmo. Concordemos ou não, o mote foi esse.

    Quando disse (de forma editada) que “estuda-se o funk e o rap porque ele é o outro”, é claro que quis dizer “o outro” do ponto de vista formalista/careta da academia, em que o funk e o rap são temas de estudo em ampla maioria na Antropologia Social, na sociologia e em espaços com o Museu Nacional etc. O “outro” não seria estudado pela qualidade de sua música ou pela potência cultural de seus bailes e mercados, mas pela questão da marginalidade, da alteridade frente uma cultura formal, do discurso sobre a periferia etc.

    E sim, o Bruno tem razão. Os blogs são hoje o espaço realmente forte em que se faz a Crítica Musical com letras maiúsculas de nosso tempo e de nossa geração. Cito aqui apenas o “Camarilha dos 4” como um dos grandes blogs desse tipo. Porém, blogs não são espaços acadêmicos, e pesquisas de jornalistas ou aficcionados não são legitimadas como pesquisas acadêmicas. Não são melhores nem piores umas das outras, apenas radicalmente diferentes no seu propósito e na sua função. Portanto, mesmo que os blogs estejam bombando de bons críticos, o tema da matéria persiste.

    E a academia tem sim um tempo diferente de apropriação e reflexão sobre o contemporâneo, um tempo dela, próprio. Porém, isso não quer dizer que o pesquisador ligado à universidade não possa investir seu esforço crítico em ensaios ou textos que façam esse investimento nos dias atuais. Se não podemos fazer cursos sobre a estética do mash up em cursos de artes ou literatura, os que estão em mestrados, doutorados ou são professores podem ao menos escrever textos sobre os temas de hoje e fazê-los circular por diversas formas.

    O que ocorre no mundo musical atualmente demanda sim uma reflexão mais ampla e como disse um dos comentários, ainda bem que as universidades brasileiras estão ampliando suas cadeiras, seus cursos, seu currículo e suas cabeças. A questão não é dar meramente conta da última bandinha da moda ou do novo fenômeno do you tube, mas criar para todos ferramentas realmente instigantes e úteis de reflexão para pensarmos a música brasileira e mundial, de hoje e de sempre. Acho que é mais ou menos por aí.

    Grande abraço do leitor!