8 Bit

Vou despejar uma seqüência de matérias velhas que publiquei na Folha, quando colaborava lá.

***

10 de março de 2004

Documentário lançado nos EUA relata ascensão e declínio da Atari

“TUM! TUM! TUM!” Vez ou outra, um ruído bate-estaca tomava conta do escritório da Atari, no vale do Silício, na Califórnia. Os visitantes estranhavam o barulho, mas os funcionários da empresa não ligavam: era apenas o programador Tod Frye, um dos pais de “PacMan”, andando pelas paredes (!!). Essa é apenas uma das histórias bizarras que um dos protagonistas da era de ouro da companhia, o programador Howard Scott Warshaw, reuniu no DVD “Once Upon Atari”, que acaba de ser lançado nos EUA e pode ser comprado através do site www.onceuponatari.com.

“Depois de ter passado por aquilo, eu sabia que algum dia essa história tinha de ser contada”, lembra o designer de jogos vertido em documentarista. Warshaw reuniu amigos programadores numa sessão de memória para resgatar os dias de glória da empresa, que fez os jogos eletrônicos se tornarem populares e viáveis no mercado –além de entrar para a história como fenômeno cultural. “Eu esperei até quando pensei ser tarde demais para ser processado”, brinca o diretor, que deu início às gravações em 1999.

Até hoje um número considerável de pessoas ainda são fascinadas por jogos antigos. Para o diretor, “o foco [das pessoas] está apenas no jogo! Hoje passam tanto tempo fazendo clipes cinematográficos e desenvolvendo técnicas de gráfico que o jogo em si se torna uma segunda preocupação”.

Nas entrevistas, mais do que histórias engraçadas e inacreditáveis, todos os ex-funcionários da empresa se referem com nostalgia ao período em que trabalharam lá. “Eu tinha 23 anos e tinha completa autonomia criativa para o que eu fazia”, recorda Simon Fulop, o criador de “Missile Command”. “Era minha versão da América corporativa”, lembra Carla Meninsky. “Todos os outros empregos que eu tive depois foram incrivelmente chatos.”

Também pudera: a divisão de games tinha pouco do que nos referimos como “local de trabalho”. A rotina da Atari era o que menos lembrava uma rotina.
Em um dia, todos estavam debruçados em números e códigos tentando fazer vários personagens de um jogo se moverem de forma independente, no outro, Steven Spielberg visitava os escritórios. O cheiro de maconha começava às 9h, atrapalhando as reuniões de negócios.

“Eu sou realmente um dos pais dos jogos eletrônicos e o único programador da Atari cujos jogos venderam mais de milhões de cópias –até o ‘E.T.’!”, orgulha-se o diretor, brincando, em referência ao jogo que é considerado o pior da história. “O sentimento de ser um fundador e agente fundamental em algo que se tornou um fenômeno cultural é simplesmente incrível.”

Mas o DVD explica que não foi a desorganização e a arruaça de seus programadores que levaram a Atari à falência. “As pessoas ficam muito esquisitas quando muito dinheiro começa a aparecer”, lembra um dos entrevistados. Gerentes comerciais davam sermões nos programadores que agiam como estrelas, por saber que era por causa deles que a empresa era lucrativa. Boa parte da zorra incitada pelos funcionários era uma reação à visão estreita dos departamentos de marketing.

Outra parte era pura loucura mesmo. Como quando Frye descobriu que podia andar nas paredes. Colocou um pé em uma parede de um corredor e o outro na outra. Quando percebeu, estava se equilibrando com mãos e pés, sem tocá-los no chão. O bate-estaca citado no início do texto não é nada senão o barulho que o programador fazia ao “caminhar” pelas paredes dos corredores da empresa –a quase dois metros do chão. Não foi por menos que, quando enfiou a testa no dispositivo antiincêndio instalado no teto e a equipe do pronto-socorro perguntou o que havia ocorrido, ninguém acreditou na história.

Decisões erradas e brigas selaram queda da Atari

Um dos extras do DVD “Once Upon Atari” traz Nolan Bushnell, fundador da Atari, em uma entrevista sobre o mercado de games. “Eu não sou o pai do videogame, [Steve] Russell e os caras que fizeram o ‘SpaceWar’ em 1962 é que são. O meu feito foi conseguir vendê-los. Eu os transformei em uma indústria”, diz, sem modéstia.

Mais do que fabricar jogos clássicos ou ser o ícone central da primeira era de ouro dos videogames, a Atari pode se vangloriar por ter colocado a lógica eletrônica dentro da vida das pessoas. Foi a primeira vez que um equipamento eletrônico se tornou um ícone cultural em larga escala.

“A Atari fez história na eletrônica ao colocar computadores nas casas das pessoas”, emenda o diretor Scott Warshaw. “Os computadores pessoais até estavam vendendo, mas não muito rapidamente, e ninguém sabia o que fazer com um deles. A Atari mostrou ao mundo como você pode se divertir com um computador em casa. Ela curou os medos com relação a isso e elevou o número de vendas de milhares para milhões! Eles mudaram o mundo como o conhecemos.”

Após tatear o mercado com o jogo de tiro “Computer Space”, que fracassou, Bushnell e seu sócio Ted Dabney deixaram uma versão rudimentar do tênis bidimensional “Pong”, que funcionava à base de moedas, em um bar de San Francisco. No dia seguinte, quando checaram a máquina e viram que ela estava lotada de moedas, concluíram que “Pong” havia sido jogado durante toda a noite. Foi quando os dois perceberam que, melhor do que vender a idéia para alguém, o ideal era abrir seu próprio negócio.

No início de 1973, “Pong” era uma febre em todos os EUA e inaugurava o conceito de arcade eletrônico, aos poucos invadindo as casas de fliperama.

Quase 10 mil máquinas foram fabricadas e vendidas. Mas o grande salto da empresa aconteceu com o “Pong” doméstico, que foi lançado em 1975 e rendeu números gigantes: 150 mil consoles vendidos, US$ 40 milhões em vendas, US$ 3 milhões de lucro no primeiro ano. No ano seguinte, Bushnell vendeu a empresa para o conglomerado Warner, que impôs um novo presidente, o executivo mão-de-ferro Ray Kassar.

A era eletrônica começa para valer nos anos 80, quando a IBM lança o computador pessoal, e os videogames se tornam massivos.

A Atari lança vários hits, como “PacMan”, “Defender” e “Asteroids”, ao mesmo tempo em que a rixa entre o setor de programação e o departamento comercial explode. A queda acontece em 83, quando a empresa faz diversas opções erradas de mercado, a mais célebre sendo o jogo “E.T.”, um dos maiores fracassos da história do videogame, que foi eleito pela imprensa especializada como o pior jogo da história.

O fiasco foi tamanho que a empresa enterrou mais de 5 milhões de cartuchos em um deserto no Novo México, pois as crianças não o queriam nem de graça.
A partir daí, a Atari desanda. Passa das mãos da Warner para vários empresários e, aos poucos, definha com diferentes tentativas de volta ao mercado (o portátil Lynx, o console Jaguar), sem nunca conseguir repetir o sucesso original.

Você pode gostar...