30 anos de axé music: Fala, Daniela Mercury

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Ainda dentro do especial que fiz pro UOL sobre os 30 anos de axé music, entrevistei Daniela Mercury por mais de uma hora, uma verdadeira aula sobre música baiana, em vídeo e texto.

“Achavam que era arrogante”, lembra Daniela Mercury sobre “Canto da Cidade”

“Rapaz, eu sou uma enciclopédia!”, adianta Daniela Mercury ao receber o UOL em sua casa, em um condomínio de luxo no bairro do Piatã, em Salvador, para falar sobre os 30 anos do axé music. E, pelo decorrer da entrevista, a constatação se confirma – e em velocidade frenética.

Em pouco mais de uma hora de conversa, a cantora-símbolo do gênero trintão revive os carnavais do início de sua carreira, conta como foi que assistiu ao surgimento da axé music nos anos 80 e como assumiu o trono de rainha do axé na década seguinte, sempre despejando causos, situações e impressões com o mesmo vigor e disposição que se movimenta nos palcos. “São mais de 30 anos, mais de 2.500 apresentações ao longo desses anos no palco, não é pouca coisa. 30 e poucos anos de carnaval”, gaba-se.

Confira a seguir os principais trechos da conversa:

Antes do axé
“Na época só existia o trio elétrico, ainda sem corda, não existia essa estrutura. O axé nasce junto com todos esses blocos. Antes era uma coisa de ir pra rua com os amigos. Eu inclusive saí no primeiro ano no [bloco] Eva como foliã. Todos meus amigos eram do Eva. Outros saíam com [o bloco] Internacionais, que eu também puxei em alguns anos. Outros saíam com o Pinel. O Ricardo Chaves e o Durval [Lélys, do Asa de Águia] eram da banda Pinel. Era todo mundo menino, de escola, começando a fazer música e os amigos chamavam pra gente cantar em cima dos trios. Eu cantei no primeiro trio em 81, quando Toni Duarte, irmão caçula de Gerônimo [compositor do hit do axé “Eu Sou Negão”], me viu cantando no bar e estava precisando de uma cantora. Eu nem sabia quem era Gerônimo… Nem profissional era, e lá fui pra cima do trio, entendeu? Pintava assim. Aí depois, aos pouquinhos, foi crescendo…”

O primeiro trio elétrico
“Na época quem cantava era a guitarra: “Vassourinha”, “Pombo Correio”, os galopes de São João de Amelinha e uns frevos que já eram mais conhecidos nacionalmente, como “Festa no Interior”, “O Balancê”. Basicamente, isso era meu primeiro repertório com 12 músicas, em 1982, num trio pequenininho. A tecnologia era muito ruim. O trio não tinha retorno, não tinha som, era uma coisa bem armengada, como a gente diz aqui na Bahia. Não existia teclado. O trio era basicamente uma guitarra baiana, uma guitarra elétrica, um baixo, uma bateria e às vezes um surdo. Até hoje não sei pra que tinha aquele surdo, porque naquela época não tinha samba-reggae e a música dos blocos afros não era muito tocada. E tudo foi começando a melhorar, a gente foi construindo o gênero, a música. Nos trios grandes só cantavam homens. Eu sou a primeira artista a puxar um trio elétrico de bloco importante da cidade.”

A miscelânea
“Somos muito urbanos. Salvador é a cidade do Cinema Novo, a cidade tropicalista, da bossa nova, de Raul Seixas. Então é óbvio que estava tudo ali, na cabeça, todas as influências ao mesmo tempo. O próprio rock crescia junto com o axé. Luiz Caldas fez sucesso ao mesmo tempo em que Lulu Santos, Legião Urbana, Paralamas… Essas misturas, fusões, estavam acontecendo e a gente trazia pra cima do trio, porque não tinha ainda um repertório grande. Foi essa miscelânea que virou o axé, que tem influência do galope de São João, que o Chiclete com Banana toma pra si como a base do seu trabalho. O Asa de Águia é um pouco de Supertramp, com aquelas coisas dos anos 80 junto com um rock mais de surfista. O Luiz Caldas, um super músico que veio do interior com a bagagem de frevo, de música internacional… Tudo que aparecia de interessante a gente ia misturando no caldo.”

“O reggae apareceu nos anos 80, foi pro caldo. O rock – eu canto tudo de rock. Armandinho é cantor de heavy metal, cara! Ele com a guitarra baiana já é heavy metal. O frevo pernambucano vem pra cá como era, com orquestra, com banda, sopro, como a rumba, o merengue, como a salsa, com várias influências daquela época e até antes, como o maxixe dos anos 20, como as marchinhas de Chiquinha Gonzaga, como o samba de Carmem Miranda, Assis Valente, Dorival Caymmi, Batatinha e Novos Baianos e Caetano e Gil e todo mundo. Vai ficando essa salada musical, cada um vai trazendo influências.”

O começo da axé music
“Aí nasce “Axé pra Lua”, do Luiz Caldas, acho que em 84, porque em 85 ele já estourava com o “Fricote”, e ele faz a síntese dele de um novo tipo de música que estava surgindo, que a gente chamava de ti-ti-ti, deboche, fricote. Eu estava preparando meu primeiro disco com uma banda, fiz minha própria banda pra começar uma pesquisa musical que me levasse a algum lugar novo da MPB. Nessa época eu fui convidada pra ser solista de uma gravadora da cidade chamada Novo Som, da WR, de Wesley Rangel, que até hoje é o estúdio mais importante da cidade. Resolvi fazer um grupo banda depois de assinar o primeiro contrato solo com ele. Disse: ‘Quero fazer um grupo’. E ele ‘Mas a gente não quer um grupo’. E eu ‘Então rasgue o contrato’.

Depois de “Fricote”
“As gravadoras começaram a vir à Bahia pra procurar novos intérpretes e a CBS, que depois virou Sony Music, veio tentar conversar comigo, porque eu já era da Banda Eva e tinha um destaque. Eles queriam que eu fizesse solo e eu disse que eles iam dizer o que eu tinha que cantar, não ia dar certo. Disse não pra CBS. Disse não pra Warner. Só a Eldorado topou meu plano, então lancei meu primeiro disco de banda [“Companhia Clic”] por uma gravadora de jazz de São Paulo, junto com Zelia Duncan e Sepultura. Então começa minha vida de gravações. Mas esse período na Banda Eva, fazendo barzinho, cantando, dançando, fazendo universidade de dança, dando aulas de dança, tendo filhos – que eu tive filhos em 85 e 86, muito novinha – tudo isso me fez tomar uma responsabilidade muito rapidamente, trabalhar muito desde menina e me ver muito seriamente no palco.”

Olodum, “Faraó” e samba-reggae
“Aí chega 87 e acontece um fenômeno extraordinário. A gente estava descendo pelo [Largo do] São Bento, eu vinha com a Banda Eva, no Carnaval de 87, quando um amigo cantor chamado Marcio Muller me perguntou, na hora em que a gente chegou na praça Castro Alves: ‘Daniela, você já ouviu ‘Faraó’?’ E eu disse ‘Não, meu filho’. ‘Pois é, o povo só está cantando na rua, espera aí que você vai ver’. E cantou: ‘E eu falei Faraó-ó-ó’, só com a voz. E o o povo todo, solenemente, respondeu ‘Êêêêê, Faraó’. Eu falei ‘O que é isso?’. E ele explicou que era um tal Bloco Olodum, um bloco novo, afro, da turma lá do Pelourinho. Me arrepio só de lembrar.”

“Naquela época era a micareta de Feira de Santana, a mais antiga do Brasil, com 70 anos, que legitimava as músicas de sucesso do Carnaval: não tinha prêmio, não tinha nada disso. não era um Carnaval midiático, era o carnaval da cidade. E em Feira “Faraó” foi tocada por todas as bandas – eu nunca vi, 20 trios elétricos, todo mundo cantava a mesma música ao mesmo tempo. E ‘Faraó’ é um pergaminho, né? ‘Deus divindade infinita do universo…’,, ele abriu a enciclopédia e fez uma canção, uma coisa completamente pós-moderna, inusitada, mas todo mundo decorou.”

“E “Faraó” faz um fenômeno extraordinário: faz os pretos entrarem pela porta da frente dos clubes ricos da cidade, faz o Pelourinho se aproximar da Barra, e faz um outro fenômeno: a percussão subir para o trio elétrico. Antes havia música de branco e música de preto. Música de bloco afro e música de trio elétrico. E especialmente a partir de 87 essa divisão começa a deixar de existir.”

Que música é essa?
“Nisso tudo o gênero não tinha nome. Um jornalista daqui deu esse nome [axé music] pra Luiz (Caldas), tentando desmerecer o trabalho dele, que era era todo alternativo, a própria antropofagia, descalço, o próprio índio, maravilhoso, extraordinário, mas o povo metido a besta aqui não entendia e chamou de axé music.”

A deixa do samba-reggae
“Foi o que me interessou, porque eu sou do samba-jazz, sou cria de Elis, de João Bosco, Tom Jobim, Vinicius de Morais com Baden Powell, e eu não queria ser intérprete de Carnaval. Eu ainda não tinha me encontrado ali, não queria fazer uma carreira. Eu estava experimentando, aprendendo a cantar, a lidar com o público. Até que surgiu o samba-reggae, que no começo virou moda, todo mundo fazia. E eu resolvi esperar. Porque moda na Bahia passa em dois anos, todo mundo faz, depois todo mundo para de fazer. Dito e feito. Veio a primeira leva de samba-reggae, seguiu o sucesso de Luiz Caldas e Sarajane e foi um fenômeno enorme, uma explosão rápida no Brasil. Mas aí começou a lambada, outro fenômeno, internacional, e esqueceram o samba-reggae. Pensei ‘largaram pra mim’.”

“Saí da banda que eu mesma fiz [Companhia Clic], que tinha ficado muito machista, e fui procurar minha carreira solo com o samba-reggae, testando o repertório em shows. Chamei o Olodum ao estúdio pra gravar o grande sucesso do Muzenza, que já era famosa antes de eu gravar: “Swing da Cor”, (cantarola) ‘Não, não me abandone…”, que é a música que me coloca no mundo. Gravei o meu primeiro disco solo, “Swing da Cor”, com a gravadora Eldorado, que era para ser o meu terceiro disco com a banda. Mas eu saí da banda, em carreira solo e lá fui eu pra São Paulo…”

Trio elétrico anfiteatro
‘E o trio elétrico foi esse anfiteatro, esse espaço extraordinário e criativo e que já nos obrigou a ser profissionais Porque você não pode dominar a multidão sem muita coragem. Outra coisa que o trio elétrico me deu: uma enorme diversidade musical, porque eu tive que aprender a cantar muitas coisas, com banda, reggae, rock, xote, xaxado, baião, tudo que eu pudesse não ter feito em barzinho, que era mais voz e violão, eu acabei fazendo no trio. ”

O mais belo dos belos
“Eu, como bailarina, dançava afro desde pequenininha e conhecia todas as danças de santo, cantava em iorubá e me tornei a branquinha mais neguinha da Bahia, porque em 89 fui cantar no Ilê. O presidente da Eldorado disse ‘Venha cá ver o lançamento do disco do Ilê’, em 89. Lá fui eu pro Curuzu pela primeira vez. Não era fácil entrar lá sem ser convidada. Ele pediu pra que eu cantasse com o Ilê. E o Vovô do Ilê: ‘Será que ela faz? Nunca vi branca nenhuma fazer isso. Olhe, que você vai botar ela nessa confusão… Mas se você está pedindo eu deixo.’ E eu também não sabia se ia fazer aquilo direito. Cheguei lá, cantei com o Ilê. Aí Vovô, presidente do Ilê, chegou no dia seguinte no escritório que a gente tinha e disse ‘a negrada gostou da branquinha, a gente queria que ela cantasse na Festa da Beleza Negra’. Aí lá fui eu cantar na Festa da Beleza Negra e a negrada lá ficou me olhando: ‘Que é essa branca aí? Quem é essa mulher?’ Mas eu fui, cantei em iorubá, comecei a dançar afro e pedi ‘Sou bailarina, cantem comigo, por favor’. E eles abriram o coração. Sou a única branca que cantou com o Ilê nesses 40 anos. Eu sou da família.”

Parou a Paulista
“Lembro que chegava nas rádios em São Paulo pedindo: ‘Por favor, toque isso aqui’ e eles diziam ‘mas como é que eu vou botar essa batucada toda aqui? Que maluquice! Aqui só toca música estrangeira aqui, só toca balada, só música sertaneja, de amor, música romântica, Roberto Carlos… Não tem a menor condição tocar isso, ô menina’ . E continuava fazendo show pequeno. Aí a Secretaria de Cultura disse que tinha shows pra artista iniciante. Lá fui eu, né? Chego no outro dia, meio-dia, morrendo de sono, perguntando por que que eu resolvi fazer show aqui nesse lugar, debaixo do Museu de Arte de São Paulo.. Quando eu chego lá, já tinham umas 3.000 pessoas sentadas. E eu pensei ‘Puxa, o público daqui é muito educado, as pessoas vão ver artistas novos…’ E quando eu começo a cantar, as pessoas começam a cantar comigo. Eu não tô entendendo o que que tá acontecendo, aquele povo no meio-dia… Eu pensei que o povo ia passar com o sanduíche na boca, me dar um tchauzinho… Mas nada, o povo dançando, se acabando. Foi o máximo!”

“Quando eu vi a foto no outro dia… Tava assim, arrodeado, como diz o baiano, em volta do Masp. Uma multidão… . Tinha muito mais do que 20 mil pessoas. A gente parou a Paulista num segundo, o Masp já estava sacudindo, as pessoas desciam dos ônibus dançando, um pandemônio, todo mundo numa felicidade. Aí eu fiquei toda empolgada, mas alguém da Secretaria de Cultura me tirou pelo braço e me disse ‘Para, mocinha, você está sacudindo os Portinari. As Bailarinas de Degas estão todas dançando. Para, para tudo’. Esse boom me dá capas de jornal e eu viro ‘a baiana que parou São Paulo’.”

Autonomia
“Depois disso veio todo mundo – e foi ótimo. Porque depois desse poder, eu pude fazer contratos ótimos. Nunca fiquei refém de gravadora, sempre decidi o que fazer, sempre tive autonomia. Foi muito bom não ter assinado antes. Tive minha independência e minha liberdade mantidas. E isso foi muito importante pra eu ter conseguido fazer o que eu fiz. Como colocar o Olodum cantando e tocando pela primeira vez em estúdio pra gravar ‘Swing da Cor’ no estúdio. E consigo fincar bandeira na música popular brasileira e determinar que existia um gênero a partir dali. E aí o jornal ‘O Globo’ diz ‘a rainha do axé’. Porque perguntavam ‘O que é que você faz?’. Eu dizia “Eu faço música percussiva brasileira”, porque eu não queria me rotular de gênero algum. ‘Eu faço MPB percussiva.’ Até hoje estou repetindo isso. Mas fiquei muito honrada em ser a rainha do axé e ter sido precursora de um novo gênero.”

“O Canto da Cidade”
“Lembro que a gravadora não queria sair com ‘O Canto da Cidade’. A Sony odiou o disco. Achava que ‘O Canto da Cidade’ era uma música que era arrogante. E eu dizia que não era eu que estava dizendo aquilo, era o povo mesmo, que cantava ‘a cor dessa cidade sou eu, o canto dessa cidade é meu’. Eu era porta-voz desse discurso afirmativo da negritude. Eles não entendiam nada. Eu me lembro que Liminha, que é um super produtor maravilhoso, foi dos Mutantes, fez vários discos com Gil e Caetano etc., quando foi gravar ‘O Canto da Cidade’, ele disse: ‘Não tô entendendo isso aqui’. Eu me lembro de Herbert Vianna me perguntando ‘Que ritmo é esse?’ Aquele bumbo reto. Os jornalistas me perguntavam se eu sentia preconceito e eu respondia que a pessoa não sabe nem o conceito do que eu tô fazendo como é que vai ter preconceito?”

Curadora de axé
“Depois do Masp eu fiz o Canecão, o Olympia e aquele especial na Globo que foi um presente de Roberto Talma, com o show na Apoteose. Eu pensei que quem ia fazer o show eram os Rolling Stones. Vi aquela multidão e perguntei quem é que ia fazer o show comigo. E no Rio foi a mesma coisa do Masp, só que no Rio as pessoas compraram ingressos. E eles cantavam todas as músicas, algumas minhas, outras músicas de outras bandas de Salvador. Eu acabei me tornando uma catalisadora do gênero… Uma curadora, né? Porque eu consegui trazer comigo o Ilê, o Olodum, Araketu, Cheiro de Amor, Banda Mel, Netinho, Asa, Chiclete. Não importava muito quem tinha chegado antes, quem chegado depois, somos a mesma geração.”

Pelo Brasil
“Sabe o que é chegar no Rio Grande do Sul com aquelas negras cantando “não me pegue não”, “vou atrás do Ilê”? E o povo, na Festa do Morango, olhando pra minha cara, parecia que eu estava dentro na Itália. Acho que nem na Itália a estranheza foi tão grande. O Brasil é espetacular. Como foi bonito quebrar essas fronteiras sem nem saber. Porque acho que a gente nem sabia que podia existir… Limites culturais, né? E aí o povo do Rio Grande do Sul, do Paraná, de Santa Catarina, encantados todos. Todas aquelas feiras, do Doce, a Feira do Morango, interior de São Paulo, feiras de gado e eu cantando o samba-reggae do Olodum.”

Pelo mundo
“Depois do Masp eu tive coragem de ir pro mundo todo com meu próprio dinheiro, Eu queria ter a mesma experiência de ver a carreira florescendo do jeito que floresceu no Masp. E assim aconteceu em Portugal, na França, na Espanha, na Argentina. Uma loucura no Uruguai, no Paraguai, México, Estados Unidos, turnês maravilhosas. E eu lá sabia que a gente podia fazer isso? Fazer três datas em Montreux, sold out. E as pessoas queriam me ver e saber quem era aquela menina do Olodum, do Ilê, aquela menina baiana.”

Axé Brasil
“O axé é uma bandeira da música brasileira pro Brasil. O axé chega quando o Brasil deseja a si mesmo. E já não cabia mais ‘caminhando e cantando e seguindo a canção’ porque ninguém aguentava mais. Era ‘Brasil nunca mais’ mesmo. E aí acontece essa fatalidade do primeiro presidente eleito a gente tem que ir pra rua tirar o cara! Quer dizer, era uma contradição da democracia que acabara de chegar no Brasil. Mas a força pela liberdade era tão grande que a gente tinha coragem também de tirar já o primeiro presidente. Coincidentemente – ou não, porque eu acho que o mundo conspira e as coisas acabam se juntando – era eu quem estava ali, uma música brasileiríssima.”

O axé, o samba e o pagode
“Beth Carvalho me abraçou e disse ‘Você devolveu o samba aos pés do Brasil’. As minhas lágrimas desciam dos olhos, sabe por quê? Porque minhas colegas já não sabiam sambar. Minhas amigas que eram bailarinas não sabiam sambar! E eu adorava sambar desde pequenininha. Porque eu amo o samba, mas essas coisas a gente não força, né? Depois de tantos anos, vários sambas diferentes, logo em seguida o É o Tchan ocupa tudo com volúpia, com aquela coisa de muita televisão que descontextualiza a origem do Gera Samba, que é o próprio samba de roda, né? É mais sem vergonha como é a música folclórica da gente aqui, que pede pra botar a mão na cabeça e depois botar a mão no lê-lê-lê… Quem mandou o povo da África trazer esse lado safado da gente? Me lembro que alguns jornalistas perguntavam: “Você gosta do Tchan?” e eu dizia ‘Lógico que gosto. Eu fui criada com isso. Não me choca’. Cheguei em Angola e vi uma menina na praia e disse assim “Ô, sambe aí, cante uma música da cidade, daqui de Luanda”. E ela começou a fazer um samba e quando eu vi era o samba do É o Tchan. Quem veio de lá, quem veio de cá, quem é que influencia quem?”

O axé music e a cultura brasileira
“Eu vou fazer 50 anos, estourei no Brasil com 27, e estou cheia de gás, de assunto, de disco novo pra fazer. Tudo é culpa desse povo africanizado, abrasileirado, aportuguesado, que mistura tantas coisas, porque é o povo da comunicação, da beira do mar, que é o povo globalizado, desde o começo. Afinal de contas, os portugueses chegaram aqui e já começaram a globalização. A chita vem pra cá, a gente se enfeita cheio de flor que veio da Índia!”

“Eu digo que o axé é o sonho antropofágico de Oswald de Andrade, é o Abaporu de Tarsila, é o sonho de Caetano, é a alegria que Caetano queria na ditadura e não tinha. Então, realmente, é alegria, uma alegria que a gente nem tem, é uma alegria que a gente inventa, isso é muito legal. Mas a gente precisa inventá-la porque somos povos urbanos, que temos consciência da morte, do mundo. É difícil viver pra todos. É uma cidade onde temos poder aquisitivo baixo, onde temos muitas lutas de direitos humanos, mas a música nos salva, nos reforça, nos reitera, nos representa, nos aproxima, nos liberta.”

“E o Brasil, mais do que nunca, precisa de esperança pra se reinventar, pra “reacreditar” em si – se é que existe essa palavra – essa nação tupi-guarani, esse povo tropical solar, que não é igual a lugar nenhum nem precisa ser. Os moçambicanos disseram que quando viram os jogadores negros brasileiros jogar diziam que eram seus redentores. E lá se vão 30 anos que nos redimem! O axé arrebentou, ele traz pro Brasil uma coisa que ele havia perdido mesmo e diz assim ‘Esse lugar é teu, não é Mama África, não, é Mama Brasil, com a África toda dentro, com tudo que tá dentro, todos sons africanos’. Que coisa mais linda a gente ser negro! Que coisa mais linda a gente ter nossa fisionomia! Que lindo o cabelo duro! A gente tem que parar de querer ser europeu, querer ser norte-americano. A gente querer fazer desse lugar um país. Pra brasileiros. Pra que todo mundo queira vir. Já somos uma nação rica, só precisamos nos tratar como tal.”

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