13 de 2013

Treze partes de um ano ímpar, a partir do meu ponto de vista

bitch

O número 13 vem carregado de um desequilíbrio que perturba a maioria das pessoas. Como o dia em que nasci leva este número, entrei escaldado em 2013. Não havia como fugir que nosso primeiro ano 13 fosse tenso e carregado como foi – emoções boas ou ruins, igualmente inquietas. A aura do número – da sorte ou do azar, dependendo da perspectiva – pairou sobre nossas cabeças de forma quase icônica e ríamos ao chamá-lo de “creize” entre os dentes cerrados como uma forma de exorcizar toda essa pilha.

Foi um ano em que política pareceu ter perdido a aura engravatada e cinzenta que era nos vendida para se tornar algo palpável e presente, seja nos protestos de junho de 2013, nas políticas públicas, na participação popular, no convívio social. Vimos máscaras subindo e outras caindo num ano em que os papéis entre palco e platéia se embolaram de vez e a intermediação entre ambos tornou-se quase ensurdecedora, com tantos em busca de protagonismo. Polêmicas e memes se misturam às notícias e tudo parecia filtrado por opiniões recém-adquiridas via Facebook – toda semana um novo assunto é exaurido de possibilidades retóricas, o que aos poucos vem desgastando nossa capacidade (e paciência) de argumentação ao mesmo tempo em que essa fase de que se precisa ter opinião sobre tudo parece que vai passando. Convicções seguem rígidas, mas há uma desolação irônica que flutua sobre qualquer assunto – o papa que renuncia, os direitos das empregadas domésticas, o Ben Affleck vai ser o Batman, Tom Zé e a Coca-Cola, o ingresso de R$ 12.500,00, a Mídia Ninja e o Fora do Eixo – que parece nos preparar para uma realidade menos ilusória, plástica. Daí a política nos desinteressar na esfera representativa global e começar a brotar em recantos comunitários. Afinal, se somos todos monitorados pelos Estados Unidos, como já desconfiávamos pela onipresença do Google e do Facebook, por que não baixarmos a guarda e começarmos a falar umas boas verdades, inspirado pelo principal sujeito de 2013, esse Nobel da paz de verdade chamado José “Pepe” Mujica.

2013-Giuliana-Vallone

Mas a imagem do ano é a da fotógrafa Giuliana Vallone alvejada no olho por um policial durante um protesto pacífico, pois ela talvez seja quem melhor represente essa mudança – não estamos falando apenas de uma casualidade de guerra ou de uma estatística em um confronto, mas de uma pessoa surpreendida pela agressividade institucional. A mesma que nos faz querer ir às ruas, humanizar a discussão – afinal a discussão sobre os 20 centavos só ganhou corpo quando a violência policial fez-se presente. E isso nos custou abrir um pouco a mão de nossa zona de conforto.

Essa retomada do espaço público e do ar livre se refletiu em vários níveis pessoais – desde aproveitar melhor a cidade à materialização de uma festa vespertina. E não adianta despregar uma retrospectiva do ponto de vista individual, ainda mais no ano em que a dicotomia entre #merepresenta e #nãomerepresenta foi gasta num certo ponto em que a única verdade possível é a de cada um. Particularmente, tirei 2013 para estabilizar meu plano de vôo – e se o acaso quis que a maioridade do Trabalho Sujo coincidisse com meu primeiro ano na direção da Galileu, transformei isso em meta dupla coexistente. Sob ambas, o despertar de uma preocupação com a saúde que vai além da fácil “alimentação melhorada” rumo ao exercício físico (a caminhada #thewalk e a natação #downbythewater, dois hits da minha vida assumindo-se rótulos para transformações físicas) e vendo um horizonte sem a fumaça da nicotina em 2014. Conheci Berlim e Barcelona, duas cidades incríveis e antagônicas, São Paulo e Rio de Janeiro de uma Europa mais jovem que esperava encontrar. Vi o Cure, o Tame Impala e o Blur duas vezes, finalmente fui a um festival Primavera, vi o Cidadão tocando o Dark Side do Pink Floyd e um show histórico do Neil Young sobre seu Crazy Horse. Dei festas memoráveis sempre tocando ao lado de amigos queridos e aos poucos estou retomando a cozinha. Mas fui ao cinema e li menos do que gostaria. A série cujo final eu mais aguardava terminou sem graça e perdi um dois grandes ídolos: um icônico e outro irmão. Foi um ano montanha-russa, em que a lógica pareceu ser a mesma por trás de qualquer Harlem Shake (uma moda, por incrível que pareça, deste ano).

Nos próximos treze posts, treze lembranças deste ano treze que chega ao fim, textos que comecei a escrever em diferentes épocas e cidades nos últimos doze meses e que serão terminados nas altitudes de um deserto sul-americano, onde passo uma semana com a única pessoa que realmente importa – minha mulher.

Força, porque ano que vem, você já sabe, vai ser “o” ano: e só melhora!

PS – A contagem regressiva das 75 melhores músicas de 2013 continua a partir do primeiro dia de 2014, junto com outras listas de retrospectiva, que seguem até o dia 6.

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