13 de 2013: Breaking Bad

breaking-bad

Vamos aos fatos: Breaking Bad não é a melhor série já feita. E, com seu final formal, não entra no panteão das melhores séries de todos os tempos. O crescendo criativo que tornou uma série cult em um dos maiores fenômenos da TV deste século prometia um final épico, megalomaníaco, impossível de ser batido. Fomos (ou pelo menos fui) vítima da própria expectativa. Toda última temporada de Breaking Bad (as duas partes) não fizeram jus à tensão que vinha acumulando-se por toda a série – elas apenas esticaram esta tensão, esta sim a grande qualidade da saga de Walter White. Só continue lendo a partir daqui se souber do final da série.

A cada novo capítulo, o drama do professor de química – que, à beira da morte, passa a apostar na fabricação e comércio de metanfentamina para deixar sua família com algum troco antes de morrer – tornava-se mais denso e complicado. Não apenas pelo fato da aposta ter dado certo. Sua ascensão profissional mexe com os brios de uma concorrência bem barra pesada, o que a torna cada vez mais perigosa. Mas o problema não é esse – é que nosso protagonista aos poucos vai tomando gosto pelo poder e vicia-se na adrenalina de ser o pior vilão. Em questão de meses deixa o ar assustado do professor e pai de família Walter White e transforma-se num bad guy de peso, assumindo características dos vilões que foi dando cabo na medida em que a série avançava. E o codinome Heisenberg que inventou para sua nova persona vai assumindo sua identidade com mais força que o câncer que o colocou nessa vida bandida.

Por quatro temporadas, assistimos a essa escalada com as unhas cravadas nos braços da poltrona. Na mesma medida que ia ganhando dinheiro, ia fazendo desafetos. Esses novos inimigos tentavam enquadrá-lo, mas, de alguma forma, Walter White conseguia reverter a situação, quase sempre usando os poderes da ciência (“science, bitch!”), sua mais fiel comparsa. Como num videogame escrito por Sam Peckinpah, cada final de fase apresentava seu chefão sinistro, um vilão repugnante que deixava o antagonista anterior com cara de frágil. A quarta temporada, pra mim, é o ápice de Breaking Bad, ao apresentar todo esplendor de seu pior vilão, Gus Fring, de forma crua e sem diálogo logo no primeiro episódio, e ao eliminá-lo de forma ainda mais crua e apoteótica num season finale histórico. O final da quarta temporada é infinitamente superior a quase toda a quinta temporada, à exceção do impressionante episódio Ozymandias, o antepenúltimo capítulo que, de certa forma, encerra Breaking Bad.

A principal qualidade da última temporada foi enfatizar o principal músculo da série – sua capacidade de reter a tensão. Não houve nenhuma grande sacada, nenhuma reviravolta emocionante ou segredo revelado que estivesse sob nossos narizes. Ninguém da família de Walt morre, como temíamos por diversos episódios, e a redenção de Jesse, mesmo que temporária, apenas proporcionou uma sensação de alívio trivial. A morte de Walt na última cena é só um desfecho melancólico e previsível, que em nada se pareceu com finais previstos que podiam traçar paralelos com o Scarface de Al Pacino ou O Poderoso Chefão, obras citadas como referência no decorrer da série. A melhor leitura do último episódio foi feita por um comediante americano, que pegou as falhas do season finale (a narrativa mecânica, os diálogos frios, a conclusão morna) para montar um desfecho paralelo em que Walt morre sozinho no exílio, cercado por policial num deserto gelado enquanto imagina, minutos antes de morrer de câncer, as cenas que assistimos no último episódio.

Mas até chegarmos ao final, passamos por uma temporada em que qualquer silêncio tinha triplo significado, qualquer troca de olhares podia resultar numa briga fatal, qualquer plano mirabolante podia desandar horrivelmente. A ascensão comercial de Walter White se estagna e não vemos ele se tornar um lorde traficante internacional. A eliminação de Gus Fring no último episódio da quarta temporada parecia que nos levaria ao grande rei do crime organizado, alguém ainda mais polido e vil que o personagem dono de uma franquia de lanchonetes de frango frito. A aparição da personagem Lydia parecia nos levar a uma outra esfera do negócio que Walter White invadia, aquela em que empresários e políticos frequentadores de colunas sociais são os grandes vilões. “Se você segue a droga, você chega em drogados e traficantes”, dizem as sábias palavras de Lester Freamon, um dos principais personagens da impecável série The Wire, que vai onde Breaking Bad não teve coragem de ir, pois “se você segue o dinheiro, ninguém sabe onde ele pode te levar”. Breaking Bad preferiu não seguir o dinheiro.

O grande trunfo de Breaking Bad é consagrar esta fase de ouro vivida pela produção para a TV no novo século. Se antes da HBO e do blockbuster superlativo “televisão” era uma forma de menosprezar a produção audiovisual, depois de Sopranos, 24 Horas, The Wire, Lost, Six Feet Under e Battlestar Gallactica este parâmetro mudou a ponto de quase ter se invertido. Não há mais distinções entre quem produz cinema e TV como antigamente e alguns dos principais astros de Hollywood (George Clooney, Will Smith) vieram da televisão. As principais produções em termos de faturamento e crítica são feitas para a TV e a geração Netflix ainda está em sua infância. Breaking Bad faz parte de uma geração que inclui Walking Dead, Game of Thrones, Mad Men, Orange is the New Black, Girls, Lie to Me e Sherlock (esta sim a grande série atual) – seriados com aspiração à grande arte, que não se fingem apenas de entretenimento vazio e buscam a consagração de obras com centenas de horas de duração. Aconteceu que ela foi apenas a primeira destas a acabar, daí tanto frenesi. Mas todas essas outras citadas também chegarão ao fim e causarão, umas mais que outras, níveis de fanatismo exagerado e declarações de que “esta sim é a melhor série de todos os tempos”.

Não creio que nenhuma destas barrará Sopranos ou The Wire nesse sentido. É preciso superar as expectativas, em vez de simplesmente atendê-las, como aconteceu no episódio final de Breaking Bad. Uma série que nos acostumou com o inusitado preferiu o conforto de um final justo. Não acho que uma obra que termine com uma conclusão considerada “honesta” (adjetivo usado à exaustão na semana do season finale) seja digna ao trono de qualquer linguagem.

Você pode gostar...

22 Resultados

  1. Rafael disse:

    Pelo que sei do final de Sopranos, prefiro o de BB.

  2. Gustavo disse:

    Alexandre, achei o final coerente com o resto da série. Tudo sempre foi deixado muito claro, todas as arestas do roteiro sempre foram aparadas e as questões respondidas. A comparação com The Wire eu acho um pouco injusta, pois Breaking Bad sempre foi sobre Walter White. Não era a intenção de Gilligan mostrar um painel gigante do mundo das drogas no Novo México, mas sim mostrar a queda de um bom homem, corrompido pelo poder.

  3. Gabriel disse:

    Lie To Me? Fala sério…

  4. Paulo Oliveira disse:

    Ao olhar deste blogueiro, Shyamalan deve ser o melhor diretor de todos os tempos pelos finais “surpreendentes” (e bastante pobres).

    Seu texto é bastante pegajoso na tentativa (frustrada) de diminuir a qualidade de Breaking Bad, que é, sim, a melhor ou uma das melhores séries de todos os tempos.

    Comparar Breaking Bad com The Wire… triste.

  5. carlos disse:

    isso aconteceu com lost também.

  6. Everson disse:

    Apenas mais um coitado querendo audiência, ainda bem que opinião cada um tem a sua! Vc realmente deve conhecer muito mais, não apenas do que os fãs da série, mais os inúmeros críticos DE VERDADE, que já colocaram essa série como uma das melhores da história…
    Um pobre coitado!!!

  7. Victor Moraes disse:

    A série contrariou as expectativas justamente por ter um final completo, ao contrário de um final “épico”.
    Ao preterir a grandiosidade em nome da simplicidade, a série me deixou mais orgulhoso ainda por tê-la assistido.
    O finale não foi o melhor episódio da série, mas foi o melhor finale que a série podia ter tido. Tenho certeza disso, principalmente depois do Vince Gilligan revelar os finais alternativos…

  8. jaqueline disse:

    PÔ PARA DE CRITICA

  9. fabio disse:

    O final de BB todos nós sabíamos, nem que superficialmente, o rumo que iria tomar. Aliás, o que menos importa é o final, e sim como a série chegou até aqui. Não teve 1 episódio mediano, todos foram bons e muito bem amarrados. Não tem como comparar com outras séries, mesmo sendo boas séries como sopanos e wire, Breaking Bad é singular.

    Abraços

  10. Pedro Gonzalez disse:

    O final da série é um mero detalhe da obra toda, acho que a evolução da trama e do personagem é que são os destaques de todo Breaking Bad.

    Assistir tudo só pra esperar um final surpreendente é apostar demais, por muito tempo. A chance de decepção é bem grande 🙂

  11. Alberto Nonato Passini disse:

    A série é excelente e na minha opinião supera The Sopranos, que era minha favorita anteriormente. Não a rebaixe Breaking Bad a séries como The Wire, Lie To Me, Sherlock, Orange is the New Black, Girls… (Foram) São fraquíssimas de conteúdo e trama, se comparadas a BrBa. Você foi infeliz em seu texto, tentando denegrir a imagem de BrBa, mas em respeito a sua opinião, eu li todo o texto, que foi bem escrito diga-se de passagem. Críticos de cinema, grandes diretores, artistas, entre outros que não pertencem a AMC e são gabaritados a fazerem uma analise criteriosa e darem sua opinião, consideraram essa a maior série de todos os tempos! Eu acredito que não poderia haver final melhor para a série. Walter realmente ‘break bad’ (chuta o balde, se desvia do que é certo e passa a se comportar como alguém que é oposto a moral e os bons costumes) e se mostra ‘fodelão’ mais uma vez, matando todos os seus inimigos, deixando o prometido a família e libertando Jesse.

  12. Paola disse:

    The Walking Dead é um lixo! É puro entretenimento vazio! É gente matando zumbi e só! Os dramas são uma droga e ninguém assiste aquele lixo para ver a história em si! Só querem ver gente matando zumbi!

  13. Wilson Campos disse:

    Tentou e tentou mas não adianta, todas as pessoas que comentaram aqui tem uma opinião diferente da sua… Acho que realmente você está sozinho meu caro.

  14. Roberto SP disse:

    Cara, desculpa, mas escrever esse texto enorme puro #mimimi só pra desfazer da série, pq ela não teve o final que VOCÊ queria?

    Qual é o final do seus sonhos, conta aí pra gente?

    E dizer que BB não foi atrás do dinheiro? A personagem Lydia é o quê? Traficante de morro?

    Claro que opinião é = cu

    Eu, p., ex, não consegui ver o tal Sopranos mais que 2 episódios com aquele clima de máfia com “sotaque de novela da globo”.

    Breaking Bad foi genial e teve uma última temporada fodástica.

  15. jorge disse:

    alguns comentários acima são um primor em agressividade e elitismo babaca.

  16. Tiago disse:

    Acho que quem definiu melhor a questão da televisão (e das produções televisivas) em 2013 foi “It’s Always Sunny in Philadelphia”, abusando da metalinguística em seu terceiro episódio da 9ª temporada “The Gang desperately tries to win an award”. –> Pra quem não viu, vale muito a pena.

    O bar – e vários dos personagens pelo episódio – servem como metáfora para seriados ganhadores ou não de prêmios (como The Wire, mencionada algumas vezes, que tinha ‘muitos negros e isso desagrada a indústria de prêmios’), e toda uma questão envolvendo efeitos cenográficos e manipulação de expectativas para a criação de um cenário artificial que agrade o público (e nada mais).

    Inclusive explica as produções mais ‘honestas’, que miram numa respeitabilidade de prêmios e não na inovação (seja num método de contar histórias, seja no roteiro – como Breaking Bad que só tangencia a corrupção do DEA e sequer lida com o dinheiro de drogas chegando a políticos, ou mesmo na atuação que não siga os modelos clássicos da academia – para ganhar prêmios).
    Afinal, é preciso puxar o saco dos financiadores, e a eles não parece vantajoso expor certas chagas.

  17. Rafael disse:

    O final do Sopranos que foi top né?

  18. Joao disse:

    Olá, li alguns parágrafos e já logo percebi que você é mais um daqueles que tem um blog pobre e precisa desesperadamente de audiência, assim fala um monte de merda e joga no ventilador.

    Cara, na boa..

  19. Gabriel disse:

    O ser humano e sua incapacidade de entender que dá pra discordar de uma pessoa sem precisar ser grosso e rude feito um huno enfurecido.
    Anyway, discordo um pouco do texto (curti o final) mas entendi o porquê da decepção.
    Mas independente de ter gostado, acho realmente que The Wire tá em outro nível. Adoro Sopranos mas acho a temporada final muito apressada, pelo menos até os 2 episódios finais.

    Excelente texto ^^

  20. almir disse:

    esse início seu de “vamos aos fatos”…e depois bater (again) no final de BB é foda fio…na boa….feliz 2014 para vc…e se em 2014 surgir algo na tv (ou na música) q chegue nos 50% do patamar de BB já tá bom demais….abç

  21. Carlos disse:

    Com certa dose de atraso, acabei de ver a série e depois da morte do Hank, eu não esperei nada bombástico, além da morte do próprio Walt. Pensei q ele ia fuzilar os antigos amigos ricos mas ao invés disso, fez uma chantagem violentíssima pra fazer oq q ele queria, q era entregar o dinheiro pelo menos pro filho. Depois, assumiu que ele fez td por ele mesmo e não só pela família e pra finalizar, ele realmente consertou td após passar a série toda falando esse bordão (“vamos consertar isso”) e sempre se complicar mais. Os dois últimos episódios, com a mudança brutal no ambiente (neve) e do visual do Walt (barba e cabelo) os transformam num epílogo. Pra mim não é por eles q se pode medir a série toda, a trajetória, q foi incrível mesmo. E um detalhe interessante: ele acabou morrendo mesmo, blz, mas não foi por causa do câncer, oq tb é bem irônico.

  22. Vanessa Macedo disse:

    Depois de tardiamente assistir a série, movida por alguns posts desse blog, é um final bem épico perceber que a maioria dos comentários aqui vão contra a tua opinião Alexandre, isso sim me surpreende.

    Considero que chamar de “Uma série que nos acostumou com o inusitado preferiu o conforto de um final justo” é um forma de dizer a obra o que ele é por outras obras e pior, por si mesmo pela autoridade do seu ato de fala. Acho mesmo que você não entendeu o que o BB propôs e a analisou por tudo, menos por si mesma e nem se esforçou para isto. Acho que vale a pena o esforço de expor-se a obra e não de impor a obra tua capacidade finita de compreender.

    Me pergunto se o que chamas de surpreender – contrário ao conforto – seja aquilo que estás acostumado a esperar, ou seja, o horizonte de ficção deslocado do horizonte de mundo que toda obra de cultura funde. Para ajudar a nos deslocar dentro deste mundo não é preciso apenas figurar no mundo do afastamento. A síntese da obra esta também conectada com o mundo figurado e permite criarmos um repertório de si, maior que o anterior depois de passar por ela, jamais impune a ela.