13 de 2013: Barcelona e Berlim

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De novo usei shows como desculpa para desbravar duas cidades que ainda não conhecia: emendei minha primeira visita ao festival Primavera em sua cidade de origem, Barcelona, a um show de Neil Young cavalgando seu Crazy Horse na capital alemã. Foi minha primeira vez na Espanha e na Alemanha em cidades conhecidas por seu legado histórico e atual movimentação cultural e meu interesse queria saber como uma coisa estava ligada à outra. A chave está no dia-a-dia, nas ruas, no que as pessoas fazem com seu tempo e como o utilizam para viver melhor. Fiquei entre os shows e os inevitáveis passeios turísticos – afinal ir à Barcelona sem passar pela Sagrada Família ou pelo Parque Güell ou não passar por alguns dos prédios que habitam a ilha dos museus de Berlim é perder partes da alma das duas cidades. Entre um e outro, circulei por restaurantes, praças, livrarias, mercados, lojas de discos, centrinhos comerciais, parques e ruas querendo entender o quanto falta para que a gente atinja o nível destas duas cidades.

E a resposta está na forma como seus cidadãos lidam com elas. Cidades não são casualidades que temos que lidar entre a nossa casa e o nosso trabalho. Elas fazem parte da nossa vida de uma forma mais intensa do que pensamos, são continuações não apenas dos espaços que habitamos com freqüência, mas também de nossos corpos. Só uma visão holística sobre arquitetura, urbanismo e cidadania explica o funcionamento e a lógica por trás dessas duas cidades tão distintas. O que as une é justamente a forma como seus habitantes conversam com suas ruas. E tudo passa por educação: não adianta colocar latas de lixo por toda a cidade se as pessoas não sabem que o menor papel atirado no chão é responsável por enchentes ao entupir bueiros. Há uma vivência que não se restringe apenas aos próprios interesses – todos cuidam de tudo e há bem menos serviços particulares do que estamos acostumados. A coleta seletiva de lixo é regra, ninguém tem empregada doméstica, o trânsito respeita os ciclistas, que respeitam os pedestres, que respeitam o trânsito. Todo mundo sabe que tudo está interligado, não adianta querer se dar bem em um determinado aspecto da vida sem que isso acabe acarretando em um problema para outra pessoa. O metrô de Berlim não tem nem catraca e mesmo assim todos pagam o ingresso e o validam antes de subir nos carros. Ninguém tenta dar uma de malandro pra passear de graça.

Foi bem curioso tomar esse banho de civilidade alguns dias antes dos protestos começarem no Brasil – protestos que uniam a população (ao menos a princípio) ao redor do transporte público. Acendeu uma leve esperança de que, após o crescimento econômico, devemos começar a nos preocupar com a nossa educação – e não estou falando de escolas e ensino, e sim com a boa educação, com civilidade e civilização. Ainda temos muito que andar por aqui, mas ao menos me bateu uma sensação de que estamos indo no caminho certo. Tomara.

PS – Os shows foram ótimos: o Primavera em Barcelona funcionou como um relógio, apresentando shows memoráveis do Tame Impala, Blur, Nick Cave, My Bloody Valentine, Chris Owens, Breeders, Bob Mould, Dinosaur Jr. e Jesus & Mary Chain, e o Neil Young fez o melhor show de 2013 com quase três horas de guitarradas na incrível arena de Waldbühne, um dos lugares mais lindos que já vi. Isso sem contar as companhias, foi uma das melhores viagens que já fiz. Saca só os vídeos abaixo:


Primavera Sound 2013


Neil Young em Berlim

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2 Resultados

  1. Carlos Vázquez disse:

    Coincidentemente também conheci essas duas cidades este ano e me surpreendi positivamente!
    Claro que é impossivel ter uma visão maior da realidade de um lugar passando poucos dias, mas é ótimo conhecer lugares onde as coisas basicas funcionam de forma diferente e abrir a cabeça para outras realidades possiveis.

  2. Mateus disse:

    Há controvérsias sobre se todos pagam o metrô em Berlim. É claro que a grande maioria da população anda com tickets ou passes (mensais, , escolares, universitários…) em dia, mas tem um número razoável de pessoas que anda sem passagem (“Schwarzfahren”, como dizem os alemães). Justamente por isso existem os fiscais sem uniforme que podem cobrar o preço da passagem ou até uma multa de 40 euros caso você esteja sem passagem válida.

    Nas vezes que fui a Berlim, nunca tinha visto fiscalização de passagens, mas ao volta em 11/2013, por duas vezes no mesmo dia fiscais à paisana entraram em trens para checar passagens. Em uma delas, um jovem estudante estava sem passe estudantil atualizado e foi retirado do trem na primeira estação após a chegada da fiscalização.

    De todo jeito, isso não diminui o mérito de que a população cuida de sua cidade e constantemente fiscaliza se os outros cidadãos também estão fazendo isso em Berlim e na Alemanha como um todo.